{"id":23117,"date":"2011-10-12T09:19:00","date_gmt":"2011-10-12T09:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23117"},"modified":"2011-10-12T09:19:00","modified_gmt":"2011-10-12T09:19:00","slug":"e-errado-olhar-para-a-historia-ou-para-o-presente-e-pensar-em-causas-unicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/e-errado-olhar-para-a-historia-ou-para-o-presente-e-pensar-em-causas-unicas\/","title":{"rendered":"\u00c9 errado olhar para a hist\u00f3ria ou para o presente e pensar em causas \u00fanicas"},"content":{"rendered":"<p>O historiador Jos\u00e9 Eduardo Franco, doutorado pelas universidades de Aveiro e de Paris e professor na Universidade Nova de Lisboa, coordenou recentemente a obra \u201cDicion\u00e1rio Hist\u00f3rico das Ordens e Institui\u00e7\u00f5es Afins em Portugal\u201d (com Ana Cristina da Costa Gomes e Jos\u00e9 Augusto Mour\u00e3o) e os tr\u00eas volumes \u201cArquivo Secreto do Vaticano\u201d, um sum\u00e1rio de 14 mil documentos relativos a Portugal que est\u00e3o nos arquivos privados do Papa &#8211; \u00e9 isso que significa \u201csecretos\u201d. Na primeira tert\u00falia do Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas de Aveiro em 2011\/12, Jos\u00e9 Eduardo Franco aconselhou a n\u00e3o aceitar as conspira\u00e7\u00f5es da cultura popular do passado e do presente. S\u00e3o \u201cexplica\u00e7\u00f5es de causa \u00fanica\u201d, quando a realidade \u00e9 bem mais complexa. A palestra e conversa sobre as \u201cfor\u00e7as ocultas que movem a hist\u00f3ria portuguesa\u201d decorreu no Centro Universit\u00e1rio, na noite de 5 de Outubro. Resumo de Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>Ler o passado \u00e9 dif\u00edcil<\/p>\n<p>Se o futuro seduz e \u00e9 realidade oculta, o passado n\u00e3o deixa de ser oculto nas entrelinhas dos documentos, quer nas fontes, no interior de uma biblioteca, quer nos manuais escolares. Interpretar o passado \u00e9 desenvolver uma arte da desoculta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do providencialismo\u2026<\/p>\n<p>At\u00e9 ao s\u00e9c. XVII vigorou uma linha de interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria em perspectiva b\u00edblica. Para l\u00e1 da hist\u00f3ria vis\u00edvel, considerava-se que havia um dinamismo oculto que movia todos os acontecimentos. Era uma leitura providencialista. Deus dispunha os acontecimentos em vista a determinados fins. Mitificou-se a hist\u00f3ria de Portugal, numa perspectiva determinista tida como crist\u00e3, mas que tamb\u00e9m entrava em conflito com o cristianismo, visto que n\u00e3o deixava espa\u00e7o para o livre arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>&#8230; ao sebastianismo&#8230;<\/p>\n<p>Da leitura providencialista nasce o sebastianismo. Portugal \u00e9 pensado como o novo povo eleito da Alian\u00e7a e olha para a perda de independ\u00eancia (1580-1640) como sendo o ex\u00edlio de Israel na Babil\u00f3nia. <\/p>\n<p>&#8230; ao positivismo&#8230;<\/p>\n<p>Em 1910, na implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, predominava a leitura positivista, baseada na sociologia do franc\u00eas Auguste Comte, que dizia que a hist\u00f3ria evolu\u00eda segundo a lei dos tr\u00eas estados: teol\u00f3gico, metaf\u00edsico e positivo. Neste \u00faltimo, a f\u00e9 devia desaparecer, emergiria uma sociedade regida pela raz\u00e3o e pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8230; e ao marxismo<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo XX, predominou a leitura marxista. A hist\u00f3ria \u00e9 vista como um processo longo, ascendente, marcado pela luta de classes. A pr\u00f3pria Inquisi\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como uma luta entre a classe dos crist\u00e3os velhos e a dos crist\u00e3os novos, a burguesia.<\/p>\n<p>Lei da causalidade \u00fanica<\/p>\n<p>Somos muito seduzidos pelas teorias da conspira\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o explica\u00e7\u00f5es simplificadas da hist\u00f3ria e dos mecanismos humanos, geralmente de causa \u00fanica, a que j\u00e1 chamaram lei da \u201ccausalidade diab\u00f3lica\u201d. A propaganda pol\u00edtica e a publicidade utilizam muito esta lei, pois explicam tudo \u00e0 luz de uma s\u00f3 causa. Ora, \u00e9 muito f\u00e1cil dizer que quem est\u00e1 por detr\u00e1s de tudo o que de mal acontece s\u00e3o os jesu\u00edtas ou os ma\u00e7ons ou o anterior governo.<\/p>\n<p>Mito dos jesu\u00edtas<\/p>\n<p>O Marqu\u00eas de Pombal, para o prop\u00f3sito pol\u00edtico do absolutismo real, criou e divulgou o mito de que os respons\u00e1veis pelos s\u00e9culos de ru\u00edna de Portugal eram os jesu\u00edtas. Por isso, mandou traduzir obras antijesu\u00edtas, como o \u201cMonita secreta\u201d, de um ex-jesu\u00edta polaco, expulsou-os do pa\u00eds e fez com que outros os expulsassem, at\u00e9 o Papa abolir a ordem.<\/p>\n<p>Tri\u00e2ngulo<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que entram numa igreja, v\u00eaem o s\u00edmbolo do tri\u00e2ngulo e do olho (s\u00edmbolos da Sant\u00edssima Trindade) e pensam que a igreja usa os s\u00edmbolos ma\u00e7\u00f3nicos, quando \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Republicanismo<\/p>\n<p>Os primeiros republicanos, anticlericais, esperando que a religi\u00e3o desaparecesse, acreditavam no processo de acelera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria na sociedade portuguesa. Estavam convencidos de que estava a surgir uma nova idade e que a igreja era o principal bloqueio do pa\u00eds. Na realidade, a persegui\u00e7\u00e3o religiosa do princ\u00edpio do s\u00e9culo XX em Portugal despertou a Igreja com a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e os anos de ouro do catolicismo, nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960.<\/p>\n<p>For\u00e7a oculta?<\/p>\n<p>Pensar que h\u00e1 uma for\u00e7a oculta, actualmente, na sociedade portuguesa \u00e9 uma vis\u00e3o redutora e perigosa. Forma-se um governo e tenta-se logo contar se este ou aquele \u00e9 ma\u00e7on ou do Opus Deis. Basta ir \u00e0 missa para ser do Opus Dei. Mas a realidade n\u00e3o \u00e9 assim. H\u00e1 m\u00faltiplos factores. A hist\u00f3ria \u00e9 sempre mais complexa. O oculto \u00e9 sedutor, mas pouco real.<\/p>\n<p>Esp\u00edrito ecum\u00e9nico<\/p>\n<p>No \u201cDicion\u00e1rio Hist\u00f3rico das Ordens e Institui\u00e7\u00f5es Afins em Portugal\u201d, colaboraram cat\u00f3licos, ma\u00e7\u00f3nicos, esot\u00e9ricos. Houve resist\u00eancias de parte a parte; n\u00e3o queriam aparecer uns ao lado dos outros, porque a cultura portuguesa \u00e9 muito dominada ideologicamente. Enquanto n\u00e3o ultrapassarmos as resist\u00eancias, n\u00e3o chegamos a uma sociedade democr\u00e1tica. Temos de perder o medo e correr o risco de lan\u00e7ar a m\u00e3o e ser torpedeado. Com esta obra, aprendeu-se a olhar para o lado. Fez-se um exerc\u00edcio de toler\u00e2ncia, at\u00e9 porque a obra n\u00e3o \u00e9 combativa. Passou a predominar o esp\u00edrito ecum\u00e9nico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador Jos\u00e9 Eduardo Franco, doutorado pelas universidades de Aveiro e de Paris e professor na Universidade Nova de Lisboa, coordenou recentemente a obra \u201cDicion\u00e1rio Hist\u00f3rico das Ordens e Institui\u00e7\u00f5es Afins em Portugal\u201d (com Ana Cristina da Costa Gomes e Jos\u00e9 Augusto Mour\u00e3o) e os tr\u00eas volumes \u201cArquivo Secreto do Vaticano\u201d, um sum\u00e1rio de 14 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-23117","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23117"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23117\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}