{"id":23147,"date":"2011-06-22T10:18:00","date_gmt":"2011-06-22T10:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23147"},"modified":"2011-06-22T10:18:00","modified_gmt":"2011-06-22T10:18:00","slug":"a-crise-que-se-esconde-na-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-crise-que-se-esconde-na-crise\/","title":{"rendered":"A crise que se esconde na crise"},"content":{"rendered":"<p>Estamos na \u00e9poca das cerejas e at\u00e9 as conversas se deixam embalar de outro modo. <\/p>\n<p>Num destes dias, no desenovelar das conversas de fim de tarde, fui interpelado a ler um artigo de Martha Nussbaum, publicado no \u201cCourrier Internacional\u201d, com a quase amea\u00e7a de que era obrigat\u00f3rio, por nele se repercutir muito do conte\u00fado de conversas havidas sobre os desvios a que tem sido votado o mundo da educa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>E, se h\u00e1 encontros que mudam rumos, h\u00e1 textos, palavras e linhas de pensamento partilhadas que s\u00e3o como que encontros. Este artigo merece tal ep\u00edteto.<\/p>\n<p>Martha Nussbaum, uma pensadora norte-americana, sustenta, resumidamente, que estamos a assistir a uma crise mundial. N\u00e3o aquela que toda a imprensa e a falta de pec\u00falio ao fim do m\u00eas nos tornam patente. Antes, uma outra que esta pode refor\u00e7ar e, mesmo, perpetuar: a da educa\u00e7\u00e3o. A autora n\u00e3o tem medo das palavras: \u00abfalo da que, apesar de passar despercebida, se arrisca a ser muito mais prejudicial para o futuro da democracia: a crise planet\u00e1ria da educa\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, a tese ali defendida \u00e9 a de que se assiste \u00e0 morte lenta da aposta nas disciplinas de humanidades, em benef\u00edcio de uma aposta exclusiva nas \u00e1reas t\u00e9cnicas e cient\u00edficas, entendidas como \u00e1reas de utilidade evidente para as sociedades. <\/p>\n<p>A ideia n\u00e3o ser\u00e1, de todo, nova, pois vem sendo reiteradamente recuperada pelos que se dedicam ao estudo do que seja o saber, o conhecimento humano, a ci\u00eancia. J\u00e1 em 2004, estudando o pensamento do te\u00f3logo Wolfhart Pannenberg, defendi, no livro \u00abTeologia, ci\u00eancia e verdade\u00bb, a tese de que deveria discutir-se o papel da teologia no contexto do saber a partir de uma concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia que n\u00e3o partisse da pergunta sobre o que beneficiamos com o conhecimento, mas que reconhecesse que o conhecimento \u00e9 um fim em si mesmo. Conhecemos n\u00e3o s\u00f3 para transformar o mundo, mas simplesmente porque desejamos conhecer. A capacidade de conhecer e o desejo de fruir, saborear o conhecimento (n\u00e3o deixa de ser curioso que \u00absaborear\u00bb e \u00absaber\u00bb tenham a mesma origem etimol\u00f3gica!) \u00e9 o que nos distingue dos demais seres, em geral, e dos animais, em particular.<\/p>\n<p>A novidade de Nussbaum est\u00e1, assim, n\u00e3o tanto na tese, mas no car\u00e1cter quase panflet\u00e1rio do seu desafio. \u00c9 como que um \u00abj\u2019accuse\u00bb (\u00abeu acuso\u00bb) que interpela a n\u00e3o perdermos nem mais um minuto. Educar n\u00e3o pode esgotar-se em adquirir os conhecimentos que sejam marcados pela utilidade de virem a tornar-se uma determinada t\u00e9cnica. N\u00e3o conhecemos apenas porque temos de transformar. <\/p>\n<p>Ora, assim, o repto que a autora deixa \u00e9 o de que se restitua um lugar eminente aos saberes human\u00edsticos que tornam poss\u00edvel o desenvolvimento do esp\u00edrito cr\u00edtico, condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para que a democracia sobreviva, recordando, implicitamente, o pensamento de Zagrebelsky, o ex-presidente do supremo tribunal de justi\u00e7a italiano, que defende que existem democracias cr\u00edticas e democracias n\u00e3o-cr\u00edticas.<\/p>\n<p>A for\u00e7a da cr\u00edtica de Nussbaum est\u00e1 em denunciar que, sabendo que a educa\u00e7\u00e3o molda as consci\u00eancias, a matriz que se reproduz pela educa\u00e7\u00e3o vai repercutir-se no tempo. E, se o paradigma da educa\u00e7\u00e3o assenta na ideia de que vale o conhecimento que for \u00fatil, considerando-se desnecess\u00e1rio e prescind\u00edvel o saber que n\u00e3o tiver uma utilidade imediata e evidente, ent\u00e3o, a sociedade que estamos a construir \u00e9, tamb\u00e9m ela, sustentada na ideia de que \u00e9 v\u00e1lido o que for \u00fatil\u2026 At\u00e9 \u00e0 machadada final que ser\u00e1 julgar os homens e mulheres pela sua utilidade. <\/p>\n<p>Com efeito, este salto n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o gigante como possa parecer. Basta olhar em redor\u2026 Quem, ainda, tem tempo para o tempo in\u00fatil? Quem tem tempo para os que j\u00e1 n\u00e3o produzem? Quem reconhece dignidade aos que j\u00e1 n\u00e3o desempenham uma fun\u00e7\u00e3o? Quem ainda respeita de igual modo quem \u00e9 rico e quem \u00e9 pobre, quem \u00e9 nobre e quem \u00e9 plebeu?<\/p>\n<p>Estamos ref\u00e9ns da raz\u00e3o instrumental, com que a modernidade se prop\u00f4s superar a raz\u00e3o contemplativa medieval. Os modernos, que muito trouxeram de importante, v\u00e1lido e leg\u00edtimo, introduziram, por\u00e9m, uma estrutura de pensamento que confinou o conhecimento ao \u00e2mbito da ci\u00eancia transformada em t\u00e9cnica. O conhecimento, a verdade s\u00e3o, para a modernidade, o que se pode medir, quantificar, utilizar. O que escapar a estes crit\u00e9rios \u00e9 preterido como mentira e falsidade. Mas, curiosamente, s\u00f3 fica fora destes crit\u00e9rios o que \u00e9, humanamente, mais importante. Quanto pesa o amor? Quanto mede a amizade? Quanto custa a confian\u00e7a? Qual o s\u00edmbolo qu\u00edmico da solid\u00e3o? Qual a equa\u00e7\u00e3o do sentido da vida?<\/p>\n<p>Obrigado, Nussbaum, e a quem nos apresentou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos na \u00e9poca das cerejas e at\u00e9 as conversas se deixam embalar de outro modo. 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