{"id":23276,"date":"2011-08-31T11:00:00","date_gmt":"2011-08-31T11:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23276"},"modified":"2011-08-31T11:00:00","modified_gmt":"2011-08-31T11:00:00","slug":"queixinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/queixinhas\/","title":{"rendered":"Queixinhas"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Quantas vezes ocupamos reuni\u00f5es a dramatizar \u00abqueixinhas\u00bb, em vez de discutir a raz\u00e3o e o rem\u00e9dio poss\u00edvel? E quantas vezes n\u00e3o atiramos as culpas s\u00f3 para os outros ou para Deus \u2013 a quem n\u00e3o deixamos de correr para \u00abfazer queixinhas\u00bb?<\/p>\n<p>As leituras de hoje falam disso, abordando o delicado tema da den\u00fancia.<\/p>\n<p>No domingo passado, ao profeta Jeremias faltava-lhe a coragem de enfrentar a opini\u00e3o p\u00fablica, porque o que tinha a dizer era desagrad\u00e1vel. Mas\u2026 e se a sociedade sofre as consequ\u00eancias nefastas de n\u00e3o ter sido advertida corajosamente? A 1.\u00aa leitura de hoje \u00e9 inequ\u00edvoca: toda a sociedade sofrer\u00e1, porque Deus n\u00e3o anda por a\u00ed a remendar as nossas asneiras, mas pedir\u00e1 contas, severamente, a quem ao menos podia advertir e sugerir \u2013 e n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p>Mateus, com o seu esp\u00edrito de organizador das primeiras comunidades crist\u00e3s, desenvolve, baseado na cultura judaica a que pertencia, o princ\u00edpio da correc\u00e7\u00e3o fraterna. A forma simples \u00e9 dada por Lucas (17, 3): \u00abSe o teu irm\u00e3o te ofender, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe\u00bb (diz mesmo que devemos perdoar sempre, utilizando o simbolismo do n\u00famero sete). E Mateus (18,21-35) continua o evangelho de hoje com a par\u00e1bola do servo impiedoso, castigado por n\u00e3o querer perdoar ao seu colega de trabalho. \u00c9 preciso perdoar \u00absetenta vezes sete vezes\u00bb.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o cristianismo n\u00e3o pode ser um olhar permissivo sobre os defeitos de que enferma a sociedade, alegando que todos somos v\u00edtimas de maus ambientes. H\u00e1 de facto erros no sistema social \u2013 que devem ser eliminados, sendo por vezes imperioso substituir todo o sistema. Mas cada qual \u00e9 respons\u00e1vel pelas suas ac\u00e7\u00f5es, e o erro de muitos agentes transforma um sistema bom em mau.<\/p>\n<p> (As cartas de S. Paulo revelam a condena\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica de crist\u00e3os s\u00f3 de nome, de comportamento social reprov\u00e1vel ou de pensamento incompat\u00edvel com a mensagem de Jesus Cristo, como no cap\u00edtulo 5 da 1.\u00aa Carta aos Cor\u00edntios). <\/p>\n<p>Como a verdade n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio de ningu\u00e9m e n\u00e3o podemos julgar ingenuamente, S. Mateus, em caso de s\u00e9rio confronto entre indiv\u00edduos ou grupos, sublinha a necessidade de uma discuss\u00e3o a n\u00edvel comunit\u00e1rio, para que n\u00e3o degenere em conflito pessoal. \u00c9 assim enaltecida a fun\u00e7\u00e3o das comunidades locais: unir a terra e o c\u00e9u, trabalhar de tal modo na terra que o \u00abreino de Deus\u00bb deixe de ser uma miragem. <\/p>\n<p>Mas nem a comunidade est\u00e1 a salvo da pervers\u00e3o ou corrup\u00e7\u00e3o. Muito facilmente, deixamo-nos levar por quem fala melhor ou por quem promete mais coisas agrad\u00e1veis\u2026 ou simplesmente por quem tem mais for\u00e7a. Por isso, a 2.\u00aa leitura leva-nos ao cerne da quest\u00e3o: basta amar, porque o amor luta contra tudo o que \u00e9 mal. <\/p>\n<p>Ora o amor n\u00e3o pode ser regulamentado \u2013 actua como um gui\u00e3o a orientar os nossos \u00abdesenrascan\u00e7os\u00bb\u2026 (a contraproducente obsess\u00e3o com o \u00abpecado sexual\u00bb ter\u00e1 resultado de falta de coragem para aprofundar e defender o que \u00e9 o amor).<\/p>\n<p>O amor \u00e9 constante. Mas a const\u00e2ncia, sem amor, \u00e9 perversa e cruel: n\u00e3o quer ouvir os outros, talvez com medo de se ver obrigada a corrigir o pr\u00f3prio caminho. Ora s\u00f3 ouve bem os outros quem ama os outros \u2013 \u00e9 capaz de ouvir mesmo aquilo que \u00e9 amargo e esfor\u00e7a-se por penetrar o mais poss\u00edvel no ponto de vista do outro. Por outro lado, n\u00e3o tem medo de argumentar sobre o que ser\u00e1 mais perfeito, de apresentar opini\u00f5es contr\u00e1rias e discuti-las publicamente. E aceita at\u00e9 os erros pr\u00f3prios e o poss\u00edvel falhan\u00e7o \u2013 guardando sempre a esperan\u00e7a de que \u00aba verdade nos liberta\u00bb. <\/p>\n<p>A comunidade crist\u00e3 encontra-se em uni\u00e3o com Deus, quando procura o que \u00e9 mais certo e n\u00e3o foge \u00e0 responsabilidade de discutir o que chamamos moral social e como devemos eliminar as raz\u00f5es das nossas queixas.<\/p>\n<p>O texto do evangelho pode favorecer a ideia incorrecta de que Deus satisfaz todos os pedidos feitos \u00abem grupo\u00bb. O contexto, por\u00e9m, aponta para outro sentido: Deus encontra-se e d\u00e1 a sua for\u00e7a onde se procura a harmonia entre os seres humanos.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23276","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23276","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23276"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23276\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}