{"id":23292,"date":"2011-07-27T10:07:00","date_gmt":"2011-07-27T10:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23292"},"modified":"2011-07-27T10:07:00","modified_gmt":"2011-07-27T10:07:00","slug":"como-comprar-sem-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/como-comprar-sem-dinheiro\/","title":{"rendered":"Como comprar sem dinheiro"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> 1. Algu\u00e9m afirmou que a B\u00edblia \u00e9 mais uma quest\u00e3o de alimento do que de ora\u00e7\u00e3o. Isso at\u00e9 se verifica pela contagem de palavras. Pode depender do termo que se procura e da tradu\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, mas um manual b\u00edblico diz-me que, numa determinada vers\u00e3o da B\u00edblia, a palavra \u201cp\u00e3o\u201d aparece 361 vezes, enquanto a palavra \u201cora\u00e7\u00e3o\u201d (ainda que sem contar com variantes como \u201corar\u201d e \u201crezar\u201d) surge 114 vezes. \u00c9 natural que se pense mais naquilo que \u00e9 incerto e que pode faltar todos os dias. E o para\u00edso \u00e9 um grande banquete.<\/p>\n<p>Logo por aqui se v\u00ea a genialidade de Jesus. Inserido na grande tradi\u00e7\u00e3o judaica que tinha numa refei\u00e7\u00e3o, a da P\u00e1scoa, a grande celebra\u00e7\u00e3o anual, escolheu o p\u00e3o partilhado como gesto que o re-apresenta (volta a tornar presente) aos seres humanos. A sua d\u00e1vida, impag\u00e1vel, \u00e9 a melhor concretiza\u00e7\u00e3o do apelo de Isa\u00edas (1.\u00aa leitura): \u201cV\u00f3s que n\u00e3o tendes dinheiro, vinde, comprai e comei\u201d.<\/p>\n<p>2. Parece que Isa\u00edas fala (\u00e9 o Senhor que fala por Isa\u00edas) para o tempo de crise: \u201cV\u00f3s que n\u00e3o tendes dinheiro\u2026\u201d Num tempo em que tudo \u00e9 mercadoria, tudo tem valor econ\u00f3mico, at\u00e9 o corpo \u00e9 entendido como autopropriedade, temos dificuldade em aceitar a gratuidade. Se algu\u00e9m nos d\u00e1 algo gr\u00e1tis, ficamos a pensar que pode haver algum interesse inconfessado escondido. \u00c9 essa a pr\u00e1tica comercial, que s\u00f3 oferece algo em vista de neg\u00f3cios maiores no futuro. Experimente oferecer algo a um amigo n\u00e3o muito pr\u00f3ximo, fora da fam\u00edlia, por exemplo. Fa\u00e7a-lhe essa surpresa. Ele n\u00e3o evitar\u00e1 um \u201cporqu\u00ea?\u201d.<\/p>\n<p>Mas Isa\u00edas insiste (\u00e9 o Senhor que insiste por Isa\u00edas) na compra sem dinheiro. Onde j\u00e1 ouvimos isto? N\u00e3o \u00e9 a compra sem dinheiro, a cr\u00e9dito, o usufruo hoje e pago amanh\u00e3, tanto individual como coletivo, que est\u00e1 na origem da crise portuguesa? Ser\u00e1 que o esp\u00edrito de Isa\u00edas est\u00e1 na origem da crise? Na realidade, poder\u00edamos parafrasear o profeta (parafrasear o Senhor) e dizer: \u201cV\u00f3s que tendes o dinheiro todo do mundo, vinde, comprai e comei sem gastar um c\u00eantimo. O que alimenta e sacia n\u00e3o custa dinheiro. Ouvi-me com aten\u00e7\u00e3o e comereis o que \u00e9 bom; saboreareis manjares suculentos\u201d.<\/p>\n<p>Toda a gente sabe que o dinheiro n\u00e3o traz felicidade, mas est\u00e1 sempre pronta a dar-lhe uma nova oportunidade. Isa\u00edas real\u00e7a (\u00e9 o Senhor que real\u00e7a por Isa\u00edas) que os bens maiores (a amizade, o amor, a paz de consci\u00eancia, o sentido da vida, a vida em Deus, para s\u00f3 nomear alguns) n\u00e3o dependem das finan\u00e7as de cada um, mas da ades\u00e3o \u00e0 \u201calian\u00e7a eterna\u201d.<\/p>\n<p>3. S\u00e3o Paulo, insepar\u00e1vel do \u201camor de Deus em Cristo Jesus\u201d, desafiava sem temor os seus inimigos: a tribula\u00e7\u00e3o, a ang\u00fastia, a persegui\u00e7\u00e3o, a fome, a nudez, o perigo, a espada. Destes perigos, n\u00e3o havendo em Portugal persegui\u00e7\u00e3o religiosa, nem, apesar de tudo, carestia generalizada, talvez s\u00f3 se fa\u00e7am sentir dois deles: alguma tribula\u00e7\u00e3o, mais mental do que f\u00edsica, e ang\u00fastia. Ang\u00fastia dos que est\u00e3o s\u00f3s. Dos que perderam o gosto pela vida. Dos que n\u00e3o t\u00eam horizontes de sentido. Dos que perderam o emprego e se sentem in\u00fateis. Dos desorientados. Dos idosos abandonados pela fam\u00edlia. Contra a ang\u00fastia, o que temos feito? A ang\u00fastia surge tamb\u00e9m pelo consumo coisas que \u201cn\u00e3o alimentam\u201d e pelo gasto de energias em coisas que \u201cn\u00e3o saciam\u201d (1.\u00aa leitura). Ora, h\u00e1 dias, dizia em F\u00e1tima um respons\u00e1vel da Igreja que muitos fi\u00e9is \u201ct\u00eam dificuldade em rezar nas celebra\u00e7\u00f5es\u201d. Ser\u00e1 poss\u00edvel? O ant\u00eddoto da ang\u00fastia n\u00e3o faz efeito?<\/p>\n<p>4. O evangelho fala do milagre da divis\u00e3o dos p\u00e3es e dos peixes. Se \u00e9 milagre, n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 milagre s\u00f3 pelo facto extraordin\u00e1rio. Na B\u00edblia, esse \u00e9 o aspecto secund\u00e1rio do milagre. O principal \u00e9 a mensagem. E a\u00ed, al\u00e9m da ideia de que a partilha e a divis\u00e3o \u00e9 que multiplicam os bens (coisa que um economista poder\u00e1 sempre objectar que n\u00e3o se aplica aos bens transacion\u00e1veis; mas aqui a economia \u00e9 a da salva\u00e7\u00e3o), real\u00e7a-se que o p\u00e3o e os peixes s\u00e3o especialmente saciantes quando se elevam ao C\u00e9u e se recita a b\u00ean\u00e7\u00e3o. O p\u00e3o tem nome de pessoa.<\/p>\n<p>5. \u201cCristo \u00e9 o nosso p\u00e3o. N\u00e3o podemos pedi-lo sen\u00e3o para agora. Porque ele est\u00e1 sempre a\u00ed, \u00e0 porta da nossa alma, na qual quer entrar, mas n\u00e3o viola o consentimento. Se consentimos que ele entre, ele entra; assim que n\u00e3o o queremos mais, imediatamente se vai. (&#8230;) O p\u00e3o \u00e9-nos necess\u00e1rio. Somos seres que retiram continuamente a sua energia do exterior, porque \u00e0 medida que a recebemos esgotamo-la nos nossos esfor\u00e7os. Se a nossa energia n\u00e3o \u00e9 quotidianamente renovada, ficamos sem for\u00e7as e incapazes de movimento\u201d.<\/p>\n<p>Simone Weil (1909-1943), excerto da explica\u00e7\u00e3o do Pai-Nosso, in \u201cEspera de Deus\u201d, Ass\u00edrio &#038; Alvim, p\u00e1g. 219.<\/p>\n<p>6. \u201cTu \u00e9s, \u00f3 Cristo, o Reino dos c\u00e9us\/ e a terra prometida aos mansos,\/ tu o prado do para\u00edso, a sala do divino banquete,\/ tu o t\u00e1lamo das n\u00fapcias, mesa aberta a todos,\/ tu o p\u00e3o da vida, tu a bebida inaudita,\/ tu ao mesmo tempo a talha para a \u00e1gua e a \u00e1gua da vida,\/ tu tamb\u00e9m a l\u00e2mpada inextingu\u00edvel para cada um dos santos,\/ tu o h\u00e1bito e a coroa, e aquele que distribui as coroas,\/ tu a alegria e o repouso, tu as del\u00edcias e a gl\u00f3ria,\/ tu a alegria, tu a felicidade, \u00f3 meu Deus!\u201d<\/p>\n<p>Excerto de uma ora\u00e7\u00e3o de Sim\u00e3o, o Novo Te\u00f3logo, que viveu em Tessal\u00f3nica (actual Sel\u00e2nik ou Salonika, na Gr\u00e9cia), no s\u00e9c. XI.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23292","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}