{"id":23309,"date":"2011-09-14T10:50:00","date_gmt":"2011-09-14T10:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23309"},"modified":"2011-09-14T10:50:00","modified_gmt":"2011-09-14T10:50:00","slug":"de-castigo-a-colaboracao-com-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/de-castigo-a-colaboracao-com-deus\/","title":{"rendered":"De castigo a colabora\u00e7\u00e3o com Deus"},"content":{"rendered":"<p>A \u201cLaborem exercens\u201d foi publicada no dia 14 de Setembro de 1981. Reflex\u00e3o nos 30 anos da enc\u00edclica de Jo\u00e3o Paulo II sobre o trabalho humano.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias o jornal \u201ci\u201d perguntava ao empres\u00e1rio Peter Villax, l\u00edder de uma importante empresa portuguesa do sector da sa\u00fade, se \u00e9 poss\u00edvel aumentar o n\u00famero de horas de trabalho. O empres\u00e1rio respondeu: \u201cN\u00e3o! N\u00f3s, por quest\u00f5es religiosas, n\u00e3o gostamos de trabalho. O trabalho foi o castigo por Ad\u00e3o e Eva terem cometido o pecado original. Hoje, o discurso extremou-se e o castigo tem que ser redimido com direitos e regalias sociais. Mas existe numa grande parte da nossa sociedade a ideia de que trabalhar, o menos poss\u00edvel! Safar-me ao trabalho, sempre que possa. O trabalho liberta-nos da pobreza!\u201d<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, o trabalho tira-nos da pobreza. Mas o resto baseia-se no velho preconceito de que o trabalho \u00e9 um castigo do pecado original, mesmo que hoje os te\u00f3logos discutam o tal pecado. A ordem divina de trabalhar (\u201ccultivar o jardim\u201d) \u00e9 anterior ao pecado de Ad\u00e3o e Eva. Eu diria antes: N\u00f3s, por quest\u00f5es religiosas, gostamos de trabalho.<\/p>\n<p>A enc\u00edclica \u201cLaborem excercens\u201d, de Jo\u00e3o Paulo II, sobre o trabalho humano, publicada faz hoje 30 anos (14 de Setembro de 1981) lembra precisamente que o trabalho, longe de ser um castigo, embora por vezes implique suor e cansa\u00e7o, \u00e9 uma forma de colabora\u00e7\u00e3o com Deus. Claro que o trabalho mais mental tamb\u00e9m \u00e9 trabalho, mas Jo\u00e3o Paulo II sabia do que falava por experi\u00eancia pr\u00f3pria, pois trabalhara numa f\u00e1brica da Solvay (ind\u00fastria qu\u00edmica e farmac\u00eautica).<\/p>\n<p>Num livro recente, o fil\u00f3sofo Alain de Botton, muito na moda, insiste que para os crist\u00e3os \u201cas agruras do trabalho constitu\u00edam os meios apropriados e imut\u00e1veis para se expiarem os pecados de Ad\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na realidade, o cristianismo mudou claramente o modo de pensar sobre o trabalho, ao contr\u00e1rio dos fil\u00f3sofos gregos, que consideravam o trabalho manual pr\u00f3prio dos escravos, enquanto os cidad\u00e3os deviam dedicar-se ao pensamento e, quando muito, ao com\u00e9rcio. Os maiores protagonistas do cristianismo nascente foram trabalhadores e n\u00e3o intelectuais. Os exemplos mais evidentes s\u00e3o os de Jesus Cristo, Pedro e Paulo. Jesus foi carpinteiro. Pedro e mais alguns ap\u00f3stolos eram pescadores. Paulo exortou que \u00e9 preciso trabalhar para n\u00e3o furtar e poder partilhar (Ef 4,28) e denunciou que quem n\u00e3o trabalha tamb\u00e9m n\u00e3o deve comer (2 Ts 3,10). Embora reconhecesse que o pregador tinha direito ao sustento, como grego que tamb\u00e9m era, optou por n\u00e3o dar esse peso \u00e0s comunidades, e foi fabricante de tendas (Act 18,3).<\/p>\n<p>Esta maneira de pensar crist\u00e3 levou, a longo prazo, \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura (n\u00e3o \u00e9 por acaso que acontece em contexto crist\u00e3o e liderada por pessoas com motiva\u00e7\u00f5es de f\u00e9). Os Padres da Igreja consideravam que o opus servile (trabalho servil) era simplesmente opus humanum (trabalho humano) (n.\u00ba 265 do Comp\u00eandio de Doutrina Social da Igreja). S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo (349-407) dizia que o \u00f3cio \u00e9 nocivo ao ser humano, enquanto a actividade favorece o seu corpo e o seu esp\u00edrito. Ambr\u00f3sio de Mil\u00e3o (340-397) dizia que cada trabalhador \u00e9 a m\u00e3o de Cristo que continua a criar e a fazer o bem. Bento de N\u00farsia (480-557) escolhe para lema da comunidade que funda ora et labora, \u201creza e trabalha\u201d. \u00c9 este lema, espalhado atrav\u00e9s das abadias beneditinas, que transforma a face da Europa, porque aben\u00e7oa a actividade humana.<\/p>\n<p>Escreve Thomas E. Woods Jr. (\u201cO que a civiliza\u00e7\u00e3o deve \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica\u201d, ed. Al\u00eatheia), exemplificando a mudan\u00e7a de mentalidade que os beneditinos introduziram no continente europeu: \u201cO papa S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno (590-604) conta-nos uma hist\u00f3ria significativa acerca do abade Equ\u00edcio, um mission\u00e1rio do s\u00e9culo VI de not\u00e1vel eloqu\u00eancia. Chegou ao mosteiro de Equ\u00edcio um enviado papal, que se dirigiu imediatamente ao scriptorium para falar com ele, pois esperava encontr\u00e1-lo entre os copistas. Mas o abade n\u00e3o estava ali; como lhe explicaram os caligrafistas, com toda a simplicidade: \u00abEst\u00e1 l\u00e1 em baixo, no vale, a cortar feno\u00bb\u201d.<\/p>\n<p>Nestes tempos inst\u00e1veis, de volatilidade financeira e altas taxas de desemprego, vale a pena regressar ao documento publicado h\u00e1 30 anos, que come\u00e7a assim: \u201cMediante o trabalho deve o ser humano ganhar o p\u00e3o de cada dia, contribuir para o progresso da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, e sobretudo para a incessante eleva\u00e7\u00e3o cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os outros irm\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u201cLaborem exercens\u201d foi publicada no dia 14 de Setembro de 1981. Reflex\u00e3o nos 30 anos da enc\u00edclica de Jo\u00e3o Paulo II sobre o trabalho humano. 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