{"id":23377,"date":"2011-09-07T10:27:00","date_gmt":"2011-09-07T10:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23377"},"modified":"2011-09-07T10:27:00","modified_gmt":"2011-09-07T10:27:00","slug":"como-nos-perdoamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/como-nos-perdoamos\/","title":{"rendered":"Como n\u00f3s perdoamos"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> \u00c9 cren\u00e7a geral que como o fizermos assim nos far\u00e3o. Uma cren\u00e7a sustentada nitidamente pelas grandes religi\u00f5es do mundo, mas que se encontra sobretudo entre todos os homens (crentes e n\u00e3o crentes) \u00abde boa vontade\u00bb. Como heran\u00e7a cultural, esta cren\u00e7a deve muito ao desenvolvimento espiritual gerado pelos grandes movimentos religiosos, como o judeo-cristianismo que tamb\u00e9m inspirou o islamismo.<\/p>\n<p>A sabedoria da vida ensina que \u00e0 nossa atitude de perdoar n\u00e3o corresponde sempre o perd\u00e3o por parte dos outros. V\u00ea-se assim que a raz\u00e3o de perdoar n\u00e3o pode ser o perd\u00e3o dos outros, embora uma atitude de \u00abperd\u00e3o\u00bb tenha um efeito salutar de bola de neve. \u00c9 um facto social: o perd\u00e3o desempenha um papel de primeira import\u00e2ncia na organiza\u00e7\u00e3o da sociedade, prevenindo e eliminando conflitos, aumentando o n\u00edvel de confian\u00e7a na \u00abbondade\u00bb dos outros, criando uma comunidade em que n\u00e3o somos lobos uns para os outros e fortificando, pelo exerc\u00edcio continuado, a nossa capacidade de dom\u00ednio sobre as situa\u00e7\u00f5es adversas e a nossa persist\u00eancia em n\u00e3o perdermos de vista a comunidade ideal.<\/p>\n<p>As leituras de hoje centram-se no Deus que perdoa \u00abporque\u00bb n\u00f3s perdoamos (\u00e9 a express\u00e3o de S. Lucas 11,4, que evita assim medir o perd\u00e3o de Deus pelo nosso). O nosso acto de perdoar, por muito imperfeito que seja, \u00e9 apresentado nos evangelhos (intimamente ligado ao princ\u00edpio universal de \u00abama os outros como a ti mesmo\u00bb) como a melhor prova de abertura ao esp\u00edrito de Deus.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o religiosa junta em Deus a justi\u00e7a e a \u00abmiseric\u00f3rdia\u00bb (conceito ligado, em v\u00e1rias l\u00ednguas, ao de \u00abentranhas maternas\u00bb). Sem justi\u00e7a e miseric\u00f3rdia, n\u00e3o h\u00e1 amor. O acto de perdoar \u00e9 poss\u00edvel na medida em que alimentamos a nossa disposi\u00e7\u00e3o para sermos sens\u00edveis \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de vida dos outros.<\/p>\n<p>S\u00e3o sugestivas as conota\u00e7\u00f5es etimol\u00f3gicas de \u00abperdoar\u00bb nas principais l\u00ednguas: libertar da culpa, ter paci\u00eancia, suportar, n\u00e3o considerar, conhecer o outro interiormente, estar de acordo, encontrar-se, ir com o outro, deixar, libertar, desatar, permitir, conceder, renunciar, etc. \u00c9 not\u00e1vel o sentido de conhecimento \u00edntimo do outro e de recria\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o humana, como que dando oportunidade a uma nova vida.<\/p>\n<p>O termo grego mais utilizado na B\u00edblia para \u00abperdoar\u00bb (aph\u00edemi) pode indicar, tanto na esfera religiosa como na profana,  libertar algu\u00e9m de uma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, como do v\u00ednculo matrimonial, duma d\u00edvida, da pris\u00e3o\u2026 Para que um acto conden\u00e1vel n\u00e3o traga consequ\u00eancias negativas para o pr\u00f3prio, \u00e9 preciso como que \u00abpassar uma esponja\u00bb sem deixar o m\u00ednimo tra\u00e7o do sucedido \u2013 um acto s\u00f3 poss\u00edvel a Deus, mas que pretendemos imitar.<\/p>\n<p>Nem o amor se dissocia da justi\u00e7a nem h\u00e1 perd\u00e3o se houver rancor. O que est\u00e1 mal e o que se fez de mal deve ser honestamente identificado. S\u00f3 assim uma experi\u00eancia negativa pode dar frutos bons, alertando-nos para o que \u00e9 realmente melhor e exercitando a capacidade de correc\u00e7\u00e3o. Deste modo, tamb\u00e9m mais facilmente secamos as ra\u00edzes do rancor.\t<\/p>\n<p>A antiga cultura greco-romana j\u00e1 se debru\u00e7ava sobre o tema do perd\u00e3o, por vezes dif\u00edcil de conjugar com a justi\u00e7a. A indulg\u00eancia era vista como capacidade superior de compreens\u00e3o do outro, que s\u00f3 aplica o castigo como uma medicina \u2013 era uma virtude fundamental para a conviv\u00eancia harmoniosa entre os \u00abhomens livres\u00bb.<\/p>\n<p>O Deus da B\u00edblia \u00e9 um Deus de perd\u00e3o. S\u00f3 o amor persiste em conhecer as raz\u00f5es que levam os outros a determinadas ac\u00e7\u00f5es, transformando o perd\u00e3o num acto de confian\u00e7a no outro. <\/p>\n<p>O perd\u00e3o traduz a vontade de defender uma civiliza\u00e7\u00e3o cheia de esperan\u00e7a; em as dificuldades agu\u00e7am a arte de criar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 discuss\u00e3o do que \u00e9 bom ou mau, procurando a verdade e realizando o melhor poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A palavra \u00abperd\u00e3o\u00bb deriva de \u00abdar\u00bb. \u00abDar por interesse\u00bb j\u00e1 \u00e9 vender. O prefixo \u00abper\u00bb intensifica o sentido de \u00abdoar\u00bb, indicando que se trata de um n\u00edvel de ac\u00e7\u00e3o eminentemente generoso, resistente \u00e0 indelicadeza e at\u00e9 trai\u00e7\u00e3o.\t<\/p>\n<p>Jesus Cristo pede um dific\u00edlimo acto de f\u00e9: o de, com Deus, \u00abjogar ao perd\u00e3o\u00bb. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23377","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23377\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}