{"id":23542,"date":"2011-12-21T10:34:00","date_gmt":"2011-12-21T10:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23542"},"modified":"2011-12-21T10:34:00","modified_gmt":"2011-12-21T10:34:00","slug":"deus-comunica-comunicando-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/deus-comunica-comunicando-se\/","title":{"rendered":"Deus comunica comunicando-se"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> 1. H\u00e1 um prov\u00e9rbio chin\u00eas que diz que quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo. Na l\u00f3gica do prov\u00e9rbio, n\u00e3o devemos confundir os embrulhos, os copos e os meios com os conte\u00fados, as bebidas e as finalidades. Da\u00ed que a primeira frase que Isa\u00edas nos apresenta na primeira leitura da Missa do Dia de Natal aparentemente n\u00e3o fa\u00e7a sentido. Os p\u00e9s do mensageiro s\u00e3o os mesmos, nem mais nem menos belos, sempre com muito p\u00f3 dos caminhos semides\u00e9rticos, quer traga uma boa, quer uma m\u00e1 nova. E no entanto, qual o\/a amante que n\u00e3o teve vontade de beijar o carteiro, no tempo em que as cartas de amor n\u00e3o tinham a forma de sms e eram entregues pelo mensageiro, a p\u00e9 ou de bicicleta? Como n\u00e3o recompensaria o pai misericordioso quem trouxesse not\u00edcias do filho pr\u00f3digo? Os p\u00e9s do mensageiro s\u00e3o belos, mesmo que feridos pelas longas caminhadas, porque a mensagem \u00e9 ainda mais bela e tudo contagia pelo facto de ser proclamada. \u201cO teu Deus \u00e9 rei\u201d, diz o mensageiro. A mensagem \u00e9 proclamada entre o povo cativo em Jerusal\u00e9m e significa isto: \u201cDeus \u00e9 quem manda, vence os \u00eddolos e vai repor a ordem nos poderes do mundo (atrav\u00e9s de Ciro). Acabou o tempo de \u00abo teu rei \u00e9 deus\u00bb. Em breve o povo regressar\u00e1 a Jerusal\u00e9m, \u00e0 sua p\u00e1tria, ao seu lar\u201d. Para o exilado n\u00e3o h\u00e1 palavra mais doce do que p\u00e1tria. E era a isso que Deus soava para os judeus no cativeiro.<\/p>\n<p>2. N\u00e3o \u00e9 preciso ser muito pessimista para conceber que a humanidade est\u00e1 num cativeiro. Basta ler ou ver as not\u00edcias de todos os dias. Est\u00e1 num cativeiro em que \u00e9 cativa de si pr\u00f3pria, dos seus erros e ilus\u00f5es, da sua cegueira, da sua vontade incontrolada, da sua liberdade mal usada, das suas assimetrias de rendimentos, dos seus abusos de poder. A crise \u00e9 apenas mais um epis\u00f3dio da s\u00e9rie dolorosa. O diagn\u00f3stico \u00e9 reservado. Cura? Liberta\u00e7\u00e3o? Uns dir\u00e3o que \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo, que a humanidade ainda n\u00e3o atingiu o estado adulto. Outros dir\u00e3o que se trata do desequil\u00edbrio pr\u00f3prio de quem caminha, que a humanidade tem em si mesma a salva\u00e7\u00e3o. A B\u00edblia diz algo diferente. Diz que a salva\u00e7\u00e3o bem de fora, ainda que n\u00e3o nos seja estranha. \u201cNestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, [Deus] falou-nos por ser Filho\u201d, diz Heb 1,2. Cansado de mandar mensageiros continuamente ignorados, enviou o seu Filho, que \u00e9 tamb\u00e9m a sua Palavra, o Logos, o Verbo, que \u00e9 Deus com Ele. Comunicou comunicando-se. Diz o Evangelho que \u201co Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus\u201d (Jo 1,1), para depois dar o salto do maior gesto comunicativo de sempre, ainda maior do que a poderosa palavra genes\u00edaca dos primeiros dias da Cria\u00e7\u00e3o (porque, como diz Hebreus, tamb\u00e9m foi pelo Filho que o universo foi criado), um salto que dividiu a hist\u00f3ria em duas parte e continua a ser pedra de toque para muitas vidas: \u201cO Verbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>A humanidade que n\u00e3o se iluda. Se n\u00e3o se abrir \u00e0 Palavra que vem do alto mas n\u00e3o \u00e9 exterior a ela, porque se fez carne, parecer\u00e1 sempre como o tolo do Bar\u00e3o de Munchausen, que estando a afundar-se num p\u00e2ntano, salvou-se puxando-se a si mesmo pelos cabelos. Tolo e mentiroso.<\/p>\n<p>3. Ouvir no dia de Natal o pr\u00f3logo do Evangelho de S. Jo\u00e3o, para quem n\u00e3o foi \u00e0 Missa do Galo ou \u00e0 da Aurora, \u00e9 capaz de gerar uma ligeira sensa\u00e7\u00e3o de vazio. Onde est\u00e1 o relato do Natal? O Menino? Os anjos? Os pastores? Mas este \u00e9 um dos textos mais belos do Novo Testamento, um hino, uma medita\u00e7\u00e3o escrita quando os crist\u00e3os j\u00e1 tinham dado um salto dos factos incertos (que Jesus nasceu, sem d\u00favida que nasceu, mas onde?) para os s\u00edmbolos (a cidade de David \u00e9 Bel\u00e9m, que quer dizer \u201ccasa do P\u00e3o\u201d; se Jesus \u00e9 o messias e p\u00e3o da vida, s\u00f3 pode ter nascido em Bel\u00e9m) e dos s\u00edmbolos para o sentido mais profundo da f\u00e9 (na P\u00e1scoa da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus revela-se como o Messias que sempre foi desde o nascimento e ainda antes do nascimento, porque quem \u00e9 Deus \u00e9 sempre Deus).<\/p>\n<p>O Evangelho de Jo\u00e3o olha para Jesus de outra maneira. Se os tr\u00eas sin\u00f3pticos como que s\u00e3o uma subida para chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que Jesus \u00e9 o Cristo-Deus, com Jo\u00e3o o percurso \u00e9 inverso: o Verbo, que desde sempre esteve com Deus, desce \u00e0 humanidade. \u00c9 comunica\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o Evangelho para quem j\u00e1 percebeu que em Jesus o mensageiro e a mensagem coincidem porque \u00e9 o Verbo de Deus. Quando o dedo aponta, n\u00e3o somos tolos se olharmos para o dedo e dermos com o dedo de Jesus. Ele \u00e9 a \u00faltima e definitiva mensagem. N\u00e3o \u00e9 o dedo que aponta, mas a m\u00e3o estendida do encontro de Deus com a humanidade.<\/p>\n<p>4. Por Ele marcharam <\/p>\n<p>os passos dos legion\u00e1rios,<\/p>\n<p>As velas dos barcos <\/p>\n<p>por Ele se tinham estendido<\/p>\n<p>Por ele os grandes barcos de Outono<\/p>\n<p>tinham luzido,<\/p>\n<p>Por ele se dobraram as velas <\/p>\n<p>nos estu\u00e1rios.<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p>Os passos de D\u00e1rio <\/p>\n<p>tinham marchado por Ele,<\/p>\n<p>Era por Ele que esperavam <\/p>\n<p>no fundo da P\u00e9rsia,<\/p>\n<p>Era por Ele que esperavam <\/p>\n<p>numa alma dispersa,<\/p>\n<p>Ele \u00e9 o Senhor de ontem e de hoje.<\/p>\n<p>E os passos de Alexandre <\/p>\n<p>por Ele tinham marchado<\/p>\n<p>Do pal\u00e1cio paternal <\/p>\n<p>\u00e0s margens do Eufrates.<\/p>\n<p>E por Ele o \u00faltimo sol tinha luzido<\/p>\n<p>Sobre a morte de Arist\u00f3teles <\/p>\n<p>e a morte de S\u00f3crates.<\/p>\n<p>(\u2026)<\/p>\n<p>As regras de Arist\u00f3teles <\/p>\n<p>tinham marchado por Ele<\/p>\n<p>Do cavalo de Alexandre <\/p>\n<p>\u00e0s \u00e9pocas escol\u00e1sticas.<\/p>\n<p>E o ascetismo e a regra luziram por Ele<\/p>\n<p>Das regras de Epicuro <\/p>\n<p>at\u00e9 \u00e0s regras mon\u00e1sticas.<\/p>\n<p>(Excerto de um poema de Charles P\u00e9guy)<\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23542","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23542"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23542\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}