{"id":23551,"date":"2012-01-18T15:53:00","date_gmt":"2012-01-18T15:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23551"},"modified":"2012-01-18T15:53:00","modified_gmt":"2012-01-18T15:53:00","slug":"sentado-no-fundo-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/sentado-no-fundo-da-igreja\/","title":{"rendered":"Sentado no fundo da igreja&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> \u2026Ouvia molemente a sucess\u00e3o das tr\u00eas leituras. Pensei no percurso \u00e9pico do profeta Jonas, que levou tr\u00eas dias a atravessar a grande cidade de N\u00ednive, anunciando que Deus n\u00e3o podia permitir que durasse tanta iniquidade. Tr\u00eas dias? N\u00e3o era o n\u00famero simb\u00f3lico da perfei\u00e7\u00e3o? Tr\u00eas dias estivera Jonas preso no ventre de um monstro marinho, como tr\u00eas dias esteve Jesus na sepultura. H\u00e1 sempre a amea\u00e7a de um monstro para nos devorar. H\u00e1 sempre a promessa e o feliz sucesso de \u00abum dia perfeito\u00bb, em que a paz da justi\u00e7a vence a confus\u00e3o que cheira a morte. Gosto de Jonas \u2013 pensei. \u00c9 bom apreciar as suas aventuras, neste banco de igreja, como apreciamos, comodamente instalados num sof\u00e1, os mais convulsivos epis\u00f3dios de uma produ\u00e7\u00e3o televisiva.<\/p>\n<p>Que diria Jonas da segunda leitura? Estaria de acordo com o aparente convite a n\u00e3o se entregar a s\u00e9rio \u00e0quilo que fazemos, a n\u00e3o viver a s\u00e9rio sequer o nosso estado de solteiro, casado, ou de virgem por op\u00e7\u00e3o? \u00abOs que t\u00eam esposas como se as n\u00e3o tivessem; os que choram\u2026 os que andam alegres\u2026 os ricos ou os pobres\u2026 como se n\u00e3o fossem nada disto\u2026 porque o cen\u00e1rio deste mundo \u00e9 passageiro\u00bb (2.\u00aa leitura)? \u00c9 verdade que Jonas amea\u00e7ou com uma calamidade iminente, mas n\u00e3o foi com o fim do mundo, como S. Paulo acreditava estar mesmo a chegar \u2013 pelo menos o fim \u00abdeste mundo\u00bb, pois at\u00e9 desejava ardentemente \u00abo novo mundo\u00bb em que Jesus Cristo restauraria todas as coisas. <\/p>\n<p>(Em casa, fui conferir o contexto da 2.\u00aa leitura e n\u00e3o fiquei mais animado: insere-se num vasto programa de \u00abpr\u00f3s e contras\u00bb, frente a quest\u00f5es particulares da comunidade de Corinto; e mesmo quando parece dar conselhos ainda hoje em dia sensatos, bem depressa puxa a brasa para a sua sardinha, como \u00e9 o caso de chamar ao estado de virgem (que era o seu!) \u00abo mais perfeito\u00bb. Por\u00e9m, este \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo de que os trechos b\u00edblicos para a liturgia parecem escolhidos segundo um crit\u00e9rio question\u00e1vel\u2026 De resto, em abono da verdade se diga que a vida de S. Paulo dificilmente poderia ter sido mais arrojadamente aventureira. At\u00e9 a carta em quest\u00e3o refere o seu perfil de \u00abatleta\u00bb, no cap.9. E a 2.\u00aa carta aos Cor\u00edntios quase que faz o ponto das suas aventuras, nomeadamente nos cap\u00edtulos 6 e 11). <\/p>\n<p>O sacerdote presidente ao of\u00edcio eucar\u00edstico bem se esfor\u00e7ou por interpretar as palavras de S. Paulo: serviriam de aviso para que n\u00e3o nos deixemos afogar nas preocupa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia \u2013 que nos podem fazer esquecer o essencial, que \u00e9 seguir a Cristo. <\/p>\n<p>N\u00e3o fiquei muito convencido com a explica\u00e7\u00e3o. Jonas tamb\u00e9m tinha pouco tempo para percorrer N\u00ednive, e n\u00e3o teve outro rem\u00e9dio sen\u00e3o andar mais depressa e meter-se com toda a gente\u2026<\/p>\n<p>Valeu-me a passagem do evangelho de Marcos. Com o de Mateus e Lucas, s\u00e3o os mais directos, os mais ligados \u00e0 vida de todos os dias, para a qual o mundo nunca acaba, a n\u00e3o ser quando se morre ou se perde o emprego\u2026 <\/p>\n<p>O evangelho falava de mais convites de Jesus, que tinha o dom de intuir o valor de gente \u00absimples\u00bb (isto \u00e9, n\u00e3o \u00abcomplicada\u00bb, sem jogadas enganosas). Foram convites para trabalhar, sem falar em \u00abcomo se\u00bb, sem falar em casamento ou virgindade, sem p\u00f4r em quest\u00e3o o interesse no trabalho. Convidou-os para o ajudarem a realizar o seu projecto de chamar a aten\u00e7\u00e3o dos Homens para o \u00abreino de Deus\u00bb \u2013 que est\u00e1 sempre pr\u00f3ximo, sempre a chegar. Sendo um profeta extraordinariamente unido a Deus, lan\u00e7ou uma nova luz sobre a rela\u00e7\u00e3o entre Deus e os Homens. Em muitos outros relatos dos evangelhos, nomeadamente nas par\u00e1bolas, mostrou que a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um toque de magia: Deus s\u00f3 pode salvar o mundo se cada ser humano tamb\u00e9m o quiser, trabalhando a s\u00e9rio naquilo que tem a fazer, afinando os princ\u00edpios de ac\u00e7\u00e3o e interpretando os valores, \u00e0 medida que aprofunda o que \u00e9 a verdade, a justi\u00e7a, a exig\u00eancia, a alegria\u2026 virtudes inerentes ao famigerado e mal compreendido \u00abreino de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>Continuei no banco do fundo da igreja, pensando se Jesus me iria sacudir os ombros para me acordar. Preferi v\u00ea-lo sentar-se calmamente a meu lado, guardando sil\u00eancio durante largos momentos. E depois, passando-me o bra\u00e7o como um velho amigo: <\/p>\n<p>\u2013 Chatices com a vida, n\u00e3o \u00e9? Sabes bem que tamb\u00e9m as tive\u2026 e tamb\u00e9m andei atazanado com estas coisas do mundo, de Deus e das hierarquias religiosas\u2026 Quantas perguntas me fiz! At\u00e9 mesmo nos meus \u00faltimos momentos, lembras-te?<\/p>\n<p>E ap\u00f3s outra pausa: \u2013 Olha, retirava-me de vez em quando, como tu agora, para pensar e ouvir o nosso Pai (por acaso, se lhe chamares M\u00e3e vai dar ao mesmo). E n\u00e3o havia bancos de igreja\u2026 Mas eu sentia que muita gente se havia de interessar por mim e mostrar ser minha amiga, levando-me a s\u00e9rio. E como Jonas, atravessaram a grande cidade da vida (tamb\u00e9m sou poeta, n\u00e3o sabias?) sem desistirem do \u00abdia perfeito\u00bb\u2026  <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23551\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}