{"id":23559,"date":"2012-02-15T15:53:00","date_gmt":"2012-02-15T15:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23559"},"modified":"2012-02-15T15:53:00","modified_gmt":"2012-02-15T15:53:00","slug":"ao-poeta-desconhecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/ao-poeta-desconhecido\/","title":{"rendered":"Ao poeta desconhecido"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> A sua fama corre apenas nos poemas de outros criadores, desde os tempos antigos e em todos os povos. \u00c9 considerado o poeta das grandes contradi\u00e7\u00f5es, que inspirou m\u00edsticos e fil\u00f3sofos, lan\u00e7ando sempre perguntas inquietas sobre o bem o mal, a luz e as trevas, a morte e a vida. Um poeta condenado a deixar apenas reflexos embaciados de si mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o falta quem diga que o ouviu sussurrar. Talvez. Mas um sussurro sem palavras percept\u00edveis, como um vento cabeleireiro das ondas ou maestro do rumor das folhagens. Um vento a que ora apetece dar a cara ora de repente nos obriga a fugir de pavor. H\u00e1 quem o acuse de ser caprichoso. N\u00e3o falta quem lhe dedique poemas quer de louvor quer de tro\u00e7a e vitup\u00e9rio. E todos ter\u00e3o raz\u00e3o, porque \u00e9 o poeta das grandes contradi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel abarcar a sua obra. <\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de 2500 anos, um profeta tamb\u00e9m sem nome maravilhou-se com estes paradoxos e surgiu o livro do \u00absegundo Isa\u00edas\u00bb \u2013 porque a sua inspira\u00e7\u00e3o lembrava a do profeta Isa\u00edas duzentos anos mais velho.<\/p>\n<p>(Ao \u00absegundo Isa\u00edas\u00bb se atribuem os cap\u00edtulos 40-55 do Livro de Isa\u00edas; aceita-se ainda um \u00abterceiro Isa\u00edas\u00bb, ligeiramente posterior, autor dos cap\u00edtulos 56-66, os \u00faltimos do Livro). <\/p>\n<p>A 1.\u00aa leitura deste domingo n\u00e3o transmite a for\u00e7a do seu contexto (43,16-44,15), inspirador da espiritualidade do pr\u00f3prio Jesus Cristo e da cultura crist\u00e3. Poderia ser assim resumido: <\/p>\n<p>\u00abAssim fala o Senhor: Deixai de olhar para os tempos em que vos libertei de tantos inimigos \u2013 porque novas maravilhas vos esperam. N\u00e3o as sentis a despontar? Vou encher o deserto de rios e caminhos \u2013 e tudo isto por causa do meu povo escolhido. S\u00f3 dele \u00e9 que receberei um verdadeiro louvor. Mas n\u00e3o julgues, \u00f3 meu povo, que consegues comprar o meu favor com o esplendor das tuas cerim\u00f3nias ou com a riqueza das tuas ofertas. Querias fazer de mim o teu servo? A verdade \u00e9 que eu me sinto como escravo, mas \u00e9 perante os teus comportamentos perversos. Por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m como eu para esquecer e at\u00e9 apagar a mem\u00f3ria da maldade. N\u00e3o tenhas medo: o meu Esp\u00edrito te acompanhar\u00e1 e \u00e0 tua descend\u00eancia, e com ele poder\u00e1s fazer surgir uma nova terra, em que a justi\u00e7a ven\u00e7a como rios que transformam o deserto\u00bb.<\/p>\n<p>Na religi\u00e3o judaica, pelo menos at\u00e9 ao tempo de Jesus, a ideia de \u00absalva\u00e7\u00e3o\u00bb aplica-se \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de qualquer situa\u00e7\u00e3o adversa, seja a doen\u00e7a e amea\u00e7a de morte, seja a guerra, a injusti\u00e7a e outras situa\u00e7\u00f5es de perigo. Implica a esperan\u00e7a numa interven\u00e7\u00e3o divina que restaure a paz e a grandeza do \u00abpovo escolhido\u00bb.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o basta aclamar um salvador. Todos temos que enriquecer os projectos de salva\u00e7\u00e3o com as ideias e capacidades de cada qual. <\/p>\n<p>Para tanto \u00e9 preciso ter f\u00e9 no projecto de salva\u00e7\u00e3o \u2013 um \u00ableit motiv\u00bb do \u00abPoeta desconhecido\u00bb. Ali\u00e1s, os relatos de milagres, como o de hoje, s\u00e3o manifestamente \u00abconstru\u00eddos\u00bb para mostrar como a f\u00e9 \u00e9 essencial, ao mesmo tempo que sublinham a cren\u00e7a no car\u00e1cter divino de Jesus e salientam como o \u00abreino de Deus\u00bb se vai construindo com firmeza. A forma definitiva do \u00abreino de Deus\u00bb \u00e9 o fim do reino do mal. \u00c9 o dom\u00ednio da Paz. E Jesus combateu o mal, sabendo a import\u00e2ncia dos pequenos gestos libertadores.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em causa a sa\u00fade integral \u2013 que tamb\u00e9m implica saber gerir o sofrimento e utiliz\u00e1-lo para um estado de equil\u00edbrio e de riqueza humana superiores. Mas o Homem n\u00e3o foi feito para o sofrimento. Jesus n\u00e3o dizia aos enfermos que tivessem paci\u00eancia e esperassem pela \u00abressurrei\u00e7\u00e3o\u00bb\u2026 Nem deixou partir o paral\u00edtico, depois de tanto trabalho e engenho para se aproximar e ser curado, s\u00f3 com a absolvi\u00e7\u00e3o dos pecados\u2026<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de Jesus pela sa\u00fade de cada indiv\u00edduo e de toda a sociedade, mesmo numa vida sujeita \u00e0 morte, permite mais claramente afirmar que caminhamos para uma nova vida onde a justi\u00e7a ou perfeito equil\u00edbrio quer de cada pessoa quer da sociedade no seu conjunto formam o mundo das \u00abcoisas novas que j\u00e1 come\u00e7am a aparecer, como rios a brotar do deserto\u00bb (1.\u00aa leitura). <\/p>\n<p>N\u00e3o consta que Jesus fizesse poemas. Mas apresentou-se como \u00edntimo do \u00abPoeta Desconhecido\u00bb. Tamb\u00e9m entusiasmou fil\u00f3sofos, m\u00edsticos, poetas e \u00abgente simples\u00bb. Por\u00e9m, nem os pr\u00f3prios evangelistas se preocuparam com deixar dele um retrato convencional:  foram sobretudo sens\u00edveis ao \u00abpoema escondido\u00bb na vida de Jesus.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23559","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23559","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23559"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23559\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}