{"id":2358,"date":"2010-09-01T12:03:00","date_gmt":"2010-09-01T12:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2358"},"modified":"2010-09-01T12:03:00","modified_gmt":"2010-09-01T12:03:00","slug":"uma-lingua-varias-linguas-sempre-a-mesma-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-lingua-varias-linguas-sempre-a-mesma-lingua\/","title":{"rendered":"Uma l\u00edngua, v\u00e1rias l\u00ednguas, sempre a mesma l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o vou ser mais um a opinar sobre o acordo ortogr\u00e1fico. J\u00e1 nem sei como isso ficou, tantos foram os s\u00e1bios e n\u00e3o s\u00e1bios a pronunciarem-se sem se ouvirem uns aos outros.<\/p>\n<p>Pensando nos diversos pa\u00edses onde o portugu\u00eas \u00e9 assumido como l\u00edngua pr\u00f3pria, aproveitei os dias de f\u00e9rias para ler escritores de v\u00e1rios deles. Li do mo\u00e7ambicano Mia Couto \u201cA Varanda do Frangipani\u201d, do angolano Pepetela \u201cPar\u00e1bola do C\u00e1gado Velho\u201d, do brasileiro Jorge Amado \u201cO Pa\u00eds do Carnaval\u201d. De alguns deles j\u00e1 havia lido outros escritos, nomeadamente de Mia Couto e de Jorge Amado. Pepetela s\u00f3 agora me foi poss\u00edvel l\u00ea-lo e vou continuar. A seguir, j\u00e1 esperam de Germano Almeida (Cabo Verde) \u201cOs dois irm\u00e3os\u201d, de Filinto de Barros (Guin\u00e9 Bissau) \u201cKikia Matcho\u201d, de Luis Cardoso (Timor) \u201cCr\u00f3nica de Uma Travessia\u201d. Para confronto, reli tamb\u00e9m agora, de Alexandre Herculano, \u201cA dama dos P\u00e9s de Cabra\u201d do seu livro \u201cLendas e Narrativas\u201d. Um prazer que compensa.<\/p>\n<p>Para quem gosta de ler, sabe o valor da leitura e n\u00e3o quer deixar as f\u00e9rias a tresandar de vazio, de rotina e de banalidade, a leitura, mais do que um simples passatempo, \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o enriquecedora. Nem sequer dispendiosa, porque, em boa hora, v\u00e1rios jornais di\u00e1rios v\u00eam distribuindo livros aos seus leitores, e permitem, gratuitamente ou a baixo custo, o acesso a escritores conhecidos e desconhecidos, portugueses e de outros pa\u00edses que n\u00e3o se leriam facilmente, sem esta oferta regular. Eu sou dos que aproveitam a d\u00e1diva ou a promo\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>\u00c9 preocupante ver hoje crian\u00e7as trocando o livro pelo telem\u00f3vel e pela playstation. E  n\u00e3o o \u00e9 menos ouvir dizer que o importante para triunfar n\u00e3o \u00e9 tanto o saber ler\u2026 O facto de sermos o pa\u00eds com mais telem\u00f3veis e de disporem computadores os alunos do ensino b\u00e1sico, e at\u00e9 j\u00e1 os dos jardins-de-inf\u00e2ncia, faz c\u00f3cegas ao nosso orgulho. As novas tecnologias, por si, e eu tamb\u00e9m n\u00e3o dispenso algumas, podem nem humanizar, nem enriquecer culturalmente, mas apenas, para quem as usa sem crit\u00e9rios, constituir um aumento das depend\u00eancias evit\u00e1veis. Ser\u00e1 que saber que a gente nova l\u00ea cada vez menos, pode tranquilizar quem manda, pais, professores e governantes? Ser\u00e1 que menos escolas abertas no pa\u00eds, como luzes que se apagam em terras onde se soube criar o sol, se vai traduzir em maior acesso \u00e0 cultura, mais amor \u00e0 leitura e mais educa\u00e7\u00e3o qualificada?<\/p>\n<p>As leituras de f\u00e9rias permitiram-me reflectir sobre o d\u00e9fice cultural provocado pela ignor\u00e2ncia, a import\u00e2ncia da l\u00edngua portuguesa, que integra diversas l\u00ednguas, iguais mas diferentes, que a enriquecem como l\u00edngua m\u00e3e, pela criatividade inovadora, o confronto de culturas, a capacidade descritiva e uma aprendizagem sem conta do muito que \u00e9 bom saber. As palavras originais de cada pa\u00eds lus\u00f3fono v\u00e3o-se cruzando na narra\u00e7\u00e3o com as que todos falamos, traduzem conceitos que as de c\u00e1 n\u00e3o exprimiriam, seja dos pa\u00edses africanos, seja do imenso Brasil. Tudo isto vai passando, hoje como ontem, ao lado de gera\u00e7\u00f5es que come\u00e7am. Deliciei-me a ler o \u201cdesconseguiram\u201d de Pepetela e tantas outras express\u00f5es, criadas ou aconchegadas, agora mais conhecidas, por via de talentosos e desinibidos escritores lus\u00f3fonos, n\u00e3o acomodados nem nas ideias, nem na l\u00edngua, mas fi\u00e9is \u00e0 sua p\u00e1tria e ao viver e ao falar do seu povo. Herculano, o mestre, ex\u00edmio burilador da l\u00edngua portuguesa, que se l\u00ea sempre com gosto e proveito, tamb\u00e9m escreveu \u201cdescavalgou\u201d e usou muitas outras palavras, que os s\u00e1bios computadores, incluindo o Magalh\u00e3es, horrorizados por classificarem de erros, logo sublinham a vermelho. Outra reflex\u00e3o me surgiu ao ver em narrativas do viver concreto, o respeito pelas tradi\u00e7\u00f5es, a consci\u00eancia clara de que um povo sem refer\u00eancias ao seu passado ou n\u00e3o respeitando nem valorizando as que tem, \u00e9 povo que anda \u00e0 deriva e a tombar para um nada que nada diz. Pela literatura e pouco mais, vamos conhecendo da \u00c1frica e do Brasil o que s\u00e9culos de presen\u00e7a nos ocultaram. Andar por l\u00e1, e eu tamb\u00e9m andei, sem olhos curiosos e de admira\u00e7\u00e3o, pode deixar-nos ignorantes, mesmo regressando a falar de tudo e de todos. <\/p>\n<p>Acertar a ortografia pode ser importante, mas tornar apaixonadas as novas gera\u00e7\u00f5es pela sabedoria que a hist\u00f3ria nos lega, abrir-se a horizontes novos, dar-lhes crit\u00e9rios que lhe permitam na vida saber discernir, ajud\u00e1-las a emergir da banalidade reinante, mostrar-lhes a riqueza e o valor da leitura que traduz vida e saber, n\u00e3o \u00e9 menos importante. E, certamente, \u00e9 investimento com maior futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o vou ser mais um a opinar sobre o acordo ortogr\u00e1fico. J\u00e1 nem sei como isso ficou, tantos foram os s\u00e1bios e n\u00e3o s\u00e1bios a pronunciarem-se sem se ouvirem uns aos outros. 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