{"id":23661,"date":"2012-02-15T15:48:00","date_gmt":"2012-02-15T15:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23661"},"modified":"2012-02-15T15:48:00","modified_gmt":"2012-02-15T15:48:00","slug":"para-falar-das-religioes-e-saber-do-que-se-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/para-falar-das-religioes-e-saber-do-que-se-fala\/","title":{"rendered":"Para falar das religi\u00f5es e saber do que se fala"},"content":{"rendered":"<p>Anselmo Borges<\/p>\n<p>Religi\u00e3o e Di\u00e1logo inter-religioso<\/p>\n<p>Imprensa da Universidade de Coimbra<\/p>\n<p>136 p\u00e1ginas<\/p>\n<p>Quando este livro saiu, em Setembro de 2010, Fr. Bento Domingues escreveu no \u201cP\u00fablico\u201d: \u201cAnselmo Borges acaba de publicar, sobre esta problem\u00e1tica [di\u00e1logo inter-religioso], um livrinho que \u00e9, verdadeiramente, uma obra-prima. Se me irrita o prazer que alguns jornalistas manifestam em situar Portugal na cauda da Europa, n\u00e3o escondo que tamb\u00e9m me irrita a ignor\u00e2ncia que observo, entre n\u00f3s, na abordagem do fen\u00f3meno religioso. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 desculpa. Gostaria que este livro de bolso fosse a companhia de todos os que desejam saber do que falam, quando falam de religi\u00e3o\u201d (12 de setembro de 2010).<\/p>\n<p>Quem diz jornalistas diz professores, catequistas, soci\u00f3logos, psic\u00f3logos e at\u00e9 te\u00f3logos ou outras pessoas minimamente atentas \u00e0 cultura \u2013 e n\u00e3o apenas \u00e0 religi\u00e3o \u2013, como justifica Umberto Eco num texto citado neste livro para defender a presen\u00e7a da religi\u00e3o, das religi\u00f5es em geral e n\u00e3o apenas do cristianismo \u2013 na escola p\u00fablica: \u201cNas escolas italianas, Homero \u00e9 obrigat\u00f3rio, C\u00e9sar \u00e9 obrigat\u00f3rio, Pit\u00e1goras \u00e9 obrigat\u00f3rio, s\u00f3 Deus \u00e9 facultativo. Se o ensino religioso se identificar com o do catecismo, cat\u00f3lico, no esp\u00edrito da Constitui\u00e7\u00e3o deve ser facultativo. S\u00f3 lamento que n\u00e3o exista um ensino da hist\u00f3ria das religi\u00f5es. Um jovem termina os seus estudos e sabe quem era Pos\u00e9idon e Vulcano, mas tem ideias confusas acerca do Esp\u00edrito Santo, pensando que Maom\u00e9 \u00e9 o deus dos mu\u00e7ulmanos e que os quacres s\u00e3o personagens de Walt Disney\u201d (p. 95).<\/p>\n<p>Compreende-se o entusiasmo de Bento Domingues. Este \u201cReligi\u00e3o e Di\u00e1logo inter-religioso\u201d \u00e9 uma magn\u00edfica s\u00edntese sobre o religioso e o sagrado, as pr\u00e1ticas religiosas e o ate\u00edsmo, o di\u00e1logo inter-religioso e a procura da paz, os fundamentalismos e a viol\u00eancia, a seculariza\u00e7\u00e3o e a religi\u00e3o na escola p\u00fablica, a verdade e a revela\u00e7\u00e3o em todas as religi\u00f5es, a exclusividade e complementaridade das religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s notar que a humanidade est\u00e1 num \u201cper\u00edodo axial\u201d (express\u00e3o de Karl Jaspers), de quatro grandes transforma\u00e7\u00f5es, Anselmo Borges, professor da Universidade de Coimbra e padre da Sociedade Mission\u00e1ria Boa Nova, real\u00e7a que \u201cnada indica que as religi\u00f5es estejam em vias de desaparecimento (p. 16). E d\u00e1 n\u00fameros. Apresenta de seguida diversas defini\u00e7\u00f5es de religi\u00e3o e caracteriza n\u00e3o s\u00f3 a pr\u00e1tica religiosa mas tamb\u00e9m o ate\u00edsmo, invocando o fil\u00f3sofo franc\u00eas A. Comte-Sponville. N\u00e3o \u00e9 irrelevante a particulariza\u00e7\u00e3o. Comte-Sponville, com a raz\u00e3o de afirmar que cr\u00ea que Deus n\u00e3o existe (escreve Borges citando o fil\u00f3sofo franc\u00eas: \u201cSe algu\u00e9m disser que sabe que Deus n\u00e3o existe, \u00abn\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil\u00bb, do mesmo modo que, se algu\u00e9m disser que sabe que Deus existe, \u00ab\u00e9 um imbecil que toma a sua f\u00e9 por um saber\u00bb. Cada um com as suas raz\u00f5es, tanto o ateu como o crente, t\u00eam f\u00e9\u201d), \u00e9 exemplo daqueles que procuram uma espiritualidade sem Deus, \u201cno quadro de um certo tipo de experi\u00eancia m\u00edstica, feito de evid\u00eancia, de plenitude, sil\u00eancio, experi\u00eancia oce\u00e2nica, simplicidade, eternidade\u201d.<\/p>\n<p>A segunda parte deste livrinho (136 p\u00e1ginas de pequeno formato) ser\u00e1 possivelmente a mais \u00fatil numa sociedade globalizada como a nossa, em que se coloca mais a quest\u00e3o inter-religiosa (di\u00e1logo entre religi\u00f5es) do que a ecum\u00e9nica (di\u00e1logo entre confiss\u00f5es crist\u00e3s). Na realidade, todos os dias chegam pela TV quer not\u00edcias de confrontos que t\u00eam por base o fundamentalismo religioso, principalmente isl\u00e2mico, quer o fasc\u00ednio pelas espiritualidades e filosofias orientais. Mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer problema com as confiss\u00f5es crist\u00e3s, cuja desuni\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o mais de hierarquias do que de bases crentes.<\/p>\n<p>Apresentando tr\u00eas modelos de relacionamento entre religi\u00f5es (o exclusivismo, que diz que s\u00f3 uma religi\u00e3o \u00e9 verdadeira; o inclusivismo, que sustenta que s\u00f3 uma \u00e9 verdadeira, mas as outras t\u00eam elementos da verdade e da salva\u00e7\u00e3o; e o pluralismo, que diz que todas as religi\u00f5es participam da salva\u00e7\u00e3o de Deus), o autor opta pelo terceiro, reconhecendo evidentemente que o di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. No di\u00e1logo, valer\u00e1 principalmente o princ\u00edpio: \u201cTodas as religi\u00f5es, desde que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se oponham ao Humanum, mas, pelo contr\u00e1rio, o afirmem e promovam, s\u00e3o reveladas e verdadeiras\u201d (103), que \u00e9, no fundo, o que vem no cap\u00edtulo 25 de Mateus (\u201cQuanto te viemos com fome e te demos de comer?\u201d) A este prop\u00f3sito, Anselmo Borges recorda com dois m\u00edsticos crist\u00e3os o que dever\u00e1 ser importante em qualquer religi\u00e3o. Disse Mestre Eckhart (1260-1328), frade dominicano: \u201cSe algu\u00e9m estivesse num \u00eaxtase como S. Paulo e soubesse que um enfermo precisava que lhe levasse um pouco de sopa, eu consideraria muito melhor que por amor abandonasse o \u00eaxtase, servindo o necessitado com um amor maior\u201d. E Ruysbroek (1293-1381), outro m\u00edstico, um pouco depois, afirmou: \u201cSe est\u00e1s em \u00eaxtase e o teu irm\u00e3o precisa de um rem\u00e9dio, deixa o \u00eaxtase e vai levar o rem\u00e9dio ao ter irm\u00e3o; o Deus que deixas \u00e9 menos seguro que o Deus que encontras\u201d.  <\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anselmo Borges Religi\u00e3o e Di\u00e1logo inter-religioso Imprensa da Universidade de Coimbra 136 p\u00e1ginas Quando este livro saiu, em Setembro de 2010, Fr. Bento Domingues escreveu no \u201cP\u00fablico\u201d: \u201cAnselmo Borges acaba de publicar, sobre esta problem\u00e1tica [di\u00e1logo inter-religioso], um livrinho que \u00e9, verdadeiramente, uma obra-prima. 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