{"id":23665,"date":"2012-02-15T15:51:00","date_gmt":"2012-02-15T15:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23665"},"modified":"2012-02-15T15:51:00","modified_gmt":"2012-02-15T15:51:00","slug":"anna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/anna\/","title":{"rendered":"Anna"},"content":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 94 <!--more--> Era o seu nome. Simplesmente Anna. M\u00e3e de um sacerdote que serviu durante mais de 13 anos a Diocese de Aveiro e que regressar\u00e1 para Portugal um dia. Morreu numa manh\u00e3 g\u00e9lida de domingo. L\u00e1 fora o term\u00f3metro marcava 17 graus negativos. A sua alma subia para o Grande Sol que ela amou durante os 78 anos da sua vida. Dizia que tinha a doen\u00e7a do seu amado Papa Jo\u00e3o Paulo II, natural da sua Crac\u00f3via. Tamb\u00e9m ela nascera nesta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Viveu a invas\u00e3o do nazismo no seu pa\u00eds. Era pequena. Mas j\u00e1 trabalhava nos campos. O seu pai foi levado para para Auschwitz, onde morreu na c\u00e2mara de g\u00e1s. Para a vi\u00fava s\u00f3 enviaram um sapato. N\u00e3o eram judeus, mas havia dias em que os soldados gostavam de brincar a dizimar as fam\u00edlias polacas. Hoje, naquela deslumbrante paisagem do sul de Crac\u00f3via, custa imaginar tantos gritos de dor. O campo de exterm\u00ednio n\u00e3o ficava longe. O comunismo chegou e expulsou os alem\u00e3es da antiga Pr\u00fassia. Os polacos regressaram \u00e0 regi\u00e3o, chamada Sil\u00e9sia. Tinham de ocupar as casas e as terras devolutas que passavam sucessivamente de polacos para alem\u00e3es e vice-versa. Para a\u00ed foi Anna, j\u00e1 casada, e a\u00ed nasceram os seus dois filhos. Viveu com restri\u00e7\u00f5es e luta. Nunca fome. Mas trabalhava-se muito. Havia festa quando, uma vez por ano, se conseguia comprar uma laranja, que logo seria bolo de laranja para toda a fam\u00edlia comer a laranja. At\u00e9 as cascas se aproveitavam. O regime da \u00e9poca permitia uma vida sossegada.<\/p>\n<p>A f\u00e9 era imensa. N\u00e3o havia certas liberdades, mas a escravid\u00e3o era menor do que a que vemos hoje nos homens presos ao consumismo que invadiu a Pol\u00f3nia livre. Os filhos tinham escola, curso de teatro, possibilidade de entrar na universidade. A sua fam\u00edlia tinha casa e campos para o sustento. N\u00e3o havia supermercados, nem refrigerantes, mas as dispensas enchiam-se no ver\u00e3o com compotas feitas para o inverno. A fam\u00edlia reunia-se para a missa de domingo. De tarde, a m\u00e3e tinha sempre um bolo para animar a festa de uma fam\u00edlia que vivia o dia do Senhor conversando e passeando de bicicleta pelos campos.<\/p>\n<p>O filho mais velho ordenou-se sacerdote. A m\u00e3e Anna ajudava nas despesas da par\u00f3quia, muito pobre, pois n\u00e3o havia sal\u00e1rio para padres nem subs\u00eddios para obras de igreja. O filho quis ser mission\u00e1rio. A m\u00e3e Anna sofreu, mas apoiou, e, silenciosa, desfiava seu ter\u00e7o pelo \u00eaxito pastoral de seu mission\u00e1rio nos Andes do Peru, de onde veio doente, quase a morrer\u2026 na Venezuela, no Porto Rico, e em Portugal.<\/p>\n<p>Nos seus l\u00e1bios, sempre um sorriso. Para cada filho uma m\u00e3o estendida. Casou o outro. Abrigou-os em sua casa. Ensinou a nora a cozinhar, pois era muito nova. Acolheu cada neto como um dom. Nunca entendeu que os homens tivessem de ser maus: os que mataram seu pai; os que controlavam a agricultura do seu filho mais novo, por vezes com certa tirania, diante da qual todos se calavam; ou os que perseguiam o seu filho padre e mission\u00e1rio; n\u00e3o entendia que houvesse problemas em sua casa. Como m\u00e3e, tudo tentava conciliar. Assim s\u00e3o as verdadeiras m\u00e3es, e em Anna eu vejo a minha m\u00e3e e a de todos os nossos queridos sacerdotes. A doen\u00e7a foi fazendo nela um lento processo \u201cken\u00f3tico\u201d. Encontrou ref\u00fagio na ora\u00e7\u00e3o e no seu ros\u00e1rio adquirido em F\u00e1tima, o qual quis levar com ela no caix\u00e3o. Companheiro insepar\u00e1vel de alegrias e tristezas\u2026<\/p>\n<p>Uma vida igual a tantas, mas mais uma vida de \u201cfiat\u201d permanente, que fez de seu funeral, cheio de padres e pessoas agradecidas, uma celebra\u00e7\u00e3o de louvor a Deus. A m\u00e3e Anna partiu\u2026 e juntou-se ao coro das m\u00e3es de padres e bispos, a maioria sa\u00edda do meio do povo simples, o que n\u00e3o as impediu de passarem para os seus filhos, padres, ou n\u00e3o, a sabedoria da vida e da f\u00e9.<\/p>\n<p>Uma homenagem para m\u00e3e Anna, que adorava visitar Aveiro e que levou Portugal bem gravado no seu cora\u00e7\u00e3o. Nela, uma homenagem carinhosa para as m\u00e3es dos nossos padres e bispos, e um pedido a Deus de b\u00ean\u00e7\u00e3os para as suas vidas e que, no C\u00e9u, gozem da Vida de Amor, que t\u00e3o bem nos souberam legar como heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Vitor Espadilha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 94<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23665","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23665\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}