{"id":23666,"date":"2012-02-29T16:54:00","date_gmt":"2012-02-29T16:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23666"},"modified":"2012-02-29T16:54:00","modified_gmt":"2012-02-29T16:54:00","slug":"preciosos-e-raros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/preciosos-e-raros\/","title":{"rendered":"Preciosos e raros"},"content":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o dos Leitores <!--more--> Ao meu av\u00f4.<\/p>\n<p>S\u00e3o preciosos! E s\u00e3o raros\u2026 T\u00e3o raros que a ningu\u00e9m cabem em sorte mais de quatro. S\u00e3o um tesouro a que nenhuma ag\u00eancia de nota\u00e7\u00e3o est\u00e1 atenta ou consegue atribuir nota adequada, porque escapam a toda a classifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o ouro do mais puro quilate, diamantes que nenhum outro material consegue riscar. A tudo resistem e com o tempo se apuram na sua preciosidade. Quando est\u00e3o mais puros e enriquecidos, vem um ladr\u00e3o que no-los toma sem licen\u00e7a. E \u00e9 ent\u00e3o que despertamos para a riqueza com que todos os dias f\u00f4ramos brindados sem que a soub\u00e9ssemos justamente avaliar. <\/p>\n<p>Eles n\u00e3o s\u00e3o de metal nem de carbono, nem muito menos de pedra mesmo que preciosa. S\u00e3o o sangue e a carne de que nos fizemos e que levam vantagem de tempo sobre n\u00f3s. S\u00e3o os nossos av\u00f3s, de quem mais cedo do que tarde fomos privados e de quem n\u00e3o soubemos guardar a suficiente reserva de mem\u00f3ria. <\/p>\n<p>Quando se v\u00e3o, fica a vincada recorda\u00e7\u00e3o dos muitos momentos passados juntos, a \u00abdestinar\u00bb vida em conjunto, a trazer ao presente de cada noite ao borralho os nomes de gentes e lugares de quem mais nada sabemos do que o seu significado para a constru\u00e7\u00e3o das nossas identidades. <\/p>\n<p>Ficou a mem\u00f3ria de hist\u00f3rias e mnem\u00f3nicas, de lendas e lugares, de pessoas e de rezas que se v\u00e3o apagando com o fechar dos olhos de cada um. <\/p>\n<p>No seu fechar de olhos, muitos mundos se apagaram para sempre. Mundos que eles levaram consigo, imensos de vida e ricos de tempo. Mas que a nossa surdez fez emudecer para sempre. <\/p>\n<p>Quando se fecham os seus olhos, h\u00e1 um mundo de mundos que deixa de existir e de poder ser olhado com a dist\u00e2ncia do tempo j\u00e1 vivido.<\/p>\n<p>\u00c9 quando os seus olhos se fecham que vemos que j\u00e1 n\u00e3o vemos, pois falta-nos o olhar distante de quem j\u00e1 viveu. Quando pod\u00edamos tomar o seu olhar, o ladr\u00e3o que \u00e9 a morte se acercou de n\u00f3s para nos tomar a fortuna e levar-no-los para a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Resta-nos, ent\u00e3o, come\u00e7ar a construir sobre as suas mem\u00f3rias poss\u00edveis toda uma vida que honre, na nossa pobreza, a riqueza que eles eram.<\/p>\n<p>Nestes tempos sem tempo, sem mem\u00f3ria e tantas vezes vazio de olhares, os av\u00f3s s\u00e3o essa reserva de humano que continua a dizer-nos que, mesmo fr\u00e1geis e d\u00e9beis, h\u00e1 em n\u00f3s uma chama roubada aos deuses mas com a dignidade de um Deus, que nos confere um nome \u00fanico e irrepet\u00edvel em terra de an\u00f3nimos. S\u00e3o os nossos av\u00f3s que nos brindam o dom de sermos pessoas, de termos mem\u00f3ria, de podermos erguer o olhar porque vimos de algures e nos erguemos para al\u00e9m.<\/p>\n<p>Quem apaga a mem\u00f3ria dos que trouxeram o mundo e o tempo at\u00e9 si contrai d\u00edvida de gratid\u00e3o que o desumaniza.<\/p>\n<p>Obrigado, av\u00f4!<\/p>\n<p>Lu\u00eds Manuel Pereira da Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o dos Leitores<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-23666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espaco-comum"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23666\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}