{"id":23674,"date":"2012-02-22T15:37:00","date_gmt":"2012-02-22T15:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23674"},"modified":"2012-02-22T15:37:00","modified_gmt":"2012-02-22T15:37:00","slug":"etty-hillesum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/etty-hillesum\/","title":{"rendered":"Etty Hillesum"},"content":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 95 <!--more--> Na Hist\u00f3ria dos homens, incont\u00e1vel \u00e9 o n\u00famero dos que vivem sua vida ordin\u00e1ria de modo extraordin\u00e1rio. Compensam, na sociedade, a malvadez de outros tantos. Ao lado de pessoas que se distinguiram e n\u00e3o quiseram desaparecer sem deixar o seu legado \u00e0 humanidade, encontramos Etty Hilesum. Est\u00e1 a interessar o mundo todo na \u00faltima d\u00e9cada, pelo facto de o seu di\u00e1rio, acabado de escrever \u00e0s portas de Auschwitz, onde morreu em 1943, s\u00f3 agora ter sido publicado. Quis ser testemunha de que Deus continua a existir apesar dos horrores produzidos pela maldade dos homens e artimanhas do dem\u00f3nio.<\/p>\n<p>Judia de ra\u00e7a, sem religi\u00e3o institucional na pr\u00e1tica da sua vida, com uma vida sexual bem cheia de aventuras, c\u00e9tica por natureza, intelectual, ela foi descobrindo com a ajuda de um amigo que seguia a escola de Jung uma forma de espiritualidade que residia na descoberta de Deus a partir do descobrir-se a si mesma. \u00c9 considerada um sinal para as religi\u00f5es institucionais, \u00e0s quais ela n\u00e3o se vinculou, de que mais que do que nos interrogarmos sobre quem \u00e9 Deus, dever\u00edamos chegar a\u00ed pela descoberta de quem sou eu\u2026 Bebeu de v\u00e1rios autores, tamb\u00e9m do Antigo e do Novo Testamento, de Santo Agostinho, entre outros, mas sobretudo da an\u00e1lise do seu interior, numa caminhada magn\u00edfica feita ao longo dos seus dois \u00faltimos anos de vida.<\/p>\n<p>Morreu com 29 anos\u2026 No seu interior, come\u00e7ou a descobrir que o melhor que havia dentro dela tinha nome, e chamou de Deus a esse melhor. Um dia, cansada das restri\u00e7\u00f5es que os nazis iam fazendo \u00e0 vida dos judeus de Amsterd\u00e3o, onde vivia, viu-se, de repente, no tapete da casa de banho, dobrada sobre si mesma, impulsionada a estar de joelhos, para descobrir-se habitada por uma presen\u00e7a que a amava e a estimulava a ver o melhor da vida, o melhor do mundo e o melhor dos homens, ainda que esses fossem agressivos soldados da Gestapo. Come\u00e7ou a encantar-se com a sua descoberta, e, tamb\u00e9m com base em S. Paulo, o judeu Paulo, como ela o chamava, no cap\u00edtulo 13 de Cor\u00edntios, decidiu recusar-se a odiar e a ter medo e passou a viver s\u00f3 de amor. Descobriu ent\u00e3o a maravilha de estar acompanhada por si mesma como a melhor das companhias, porque dentro dela habitava Deus. Cada coisa que a rodeava era uma b\u00ean\u00e7\u00e3o Dele para o seu momento presente, pelo que come\u00e7ou a ver uma nova poesia na vida, um saber estar, preparando-se na viv\u00eancia desse momento para os que se seguiriam, ainda que, como ela sabia, fosse levada para a terra enlameada e ensaguentada de um campo de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ler seu di\u00e1rio, ler o livro agora publicado pelas Paulinas, em portugu\u00eas e \u00e0 venda na Livraria Santa Joana, em Aveiro, \u00e9 embarcar com ela numa aventura que nos convida a ter continuidade na nossa pr\u00f3pria descoberta do interior e fazer a\u00ed e a partir da\u00ed uma viagem sem regresso, ao longo da qual, como ela dizia, vamos contemplando a nossa pr\u00f3pria paisagem da alma. Podemos assim ver que o que nos encanta na natureza e na vida, podemos gozar dentro de n\u00f3s. Podemos perceber que o sentirmo-nos livres, leves e soltos \u00e9 poss\u00edvel, mesmo que estejamos num vag\u00e3o com 70 pessoas rumo \u00e0s c\u00e2maras de g\u00e1s de Auschwitz\u2026<\/p>\n<p>Impressionaram-me frases dela como a que dirigiu a uma amiga que a convidava a fugir ou a esconder-se. Ela respondeu que n\u00e3o tinha de fugir das garras deles, pois se sentia nas m\u00e3os de Deus.<\/p>\n<p>Como Edith Stein, com quem ela se cruzou no campo holand\u00eas de Westerbork, sentia-se solid\u00e1ria com o destino do seu povo e n\u00e3o poderia fugir sabendo que outros n\u00e3o o conseguiram fazer. Se, al\u00e9m de ajudar os outros a sobreviverem a cada momento, ela pudesse testemunhar que Deus habitava ali, onde parecia que n\u00e3o estava, a sua miss\u00e3o estaria cumprida.<\/p>\n<p>Disseram de Edith Stein que quando passou dois dias nesse campo de concentra\u00e7\u00e3o parecia que um anjo andava pelo campo. Etty viveu ali quase meio ano, numa dedica\u00e7\u00e3o absoluta aos velhinhos e crian\u00e7as, especialmente. Diz ela no seu \u00faltimo escrito que entrou com a sua fam\u00edlia nos vag\u00f5es da morte cantando. Penso que \u00e9 nestes limites do absurdo que a f\u00e9 se manifesta mais pura e mais aut\u00eantica.<\/p>\n<p>Leiam Etty. Ela est\u00e1 tamb\u00e9m abundantemente documentada na Internet. E aprendamos com ela a chorar de gratid\u00e3o pelos dons de Deus, agarrada ao arame farpado de um campo depois de ter presenciado o comboio que levava para a morte mais de mil judeus naquele dia\u2026<\/p>\n<p>Deixo esse testemunho recolhido do seu di\u00e1rio, \u00e0 luz do arco-\u00edris de que falamos h\u00e1 dias. Descobrir Etty \u00e9 um dom de Deus. Saboreai-o. Carta a Maria. Agosto de 1942: \u201cQuerida Maria, esta manh\u00e3 havia um arco-\u00edris sobre o campo, e o sol brilhou sobre as po\u00e7as de lama. Quando me dirigi aos barrac\u00f5es-hospital, algumas mulheres gritaram: \u00abRecebeu boas not\u00edcias? Parece t\u00e3o alegre\u2026\u00bb. Na resposta eu n\u00e3o conseguiria satisfazer essas mulheres, falando-lhes do arco-\u00edris, pois n\u00e3o? No entanto, essa era a \u00fanica raz\u00e3o da minha alegria\u201d.<\/p>\n<p>Vitor Espadilha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 95<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23674","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23674","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23674"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23674\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23674"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}