{"id":2368,"date":"2010-07-14T17:37:00","date_gmt":"2010-07-14T17:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2368"},"modified":"2010-07-14T17:37:00","modified_gmt":"2010-07-14T17:37:00","slug":"mais-escola-ou-apenas-menos-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mais-escola-ou-apenas-menos-escolas\/","title":{"rendered":"Mais escola ou apenas menos escolas?"},"content":{"rendered":"<p>Tenho acompanhado, com aten\u00e7\u00e3o, o problema levantado \u00e0 volta do encerramento de escolas, sobretudo em meios rurais, dando-se como raz\u00e3o o diminuto n\u00famero de alunos. As raz\u00f5es do povo e das autarquias t\u00eam o seu peso e as do Governo tamb\u00e9m o t\u00eam, misturando raz\u00f5es pedag\u00f3gicas com exig\u00eancias de poupan\u00e7a nas despesas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 real. Recordo uma visita feita h\u00e1 anos a uma escola na serra. O autom\u00f3vel ficou longe porque n\u00e3o era poss\u00edvel chegar l\u00e1 acima. Uma escola modesta e pobre, sem condi\u00e7\u00f5es de qualquer ordem. Encontrei apenas a professora com dois alunos, um dos quais seu filho. Havia outro, ao todo eram tr\u00eas, que nesse dia ficara doente. Fiquei desolado. J\u00e1 sabia que era assim, mas vendo, o quadro era mais realista e preocupante. A professora estava j\u00e1 com os nervos esfrangalhados. O seu filho e o companheiro pareciam crian\u00e7as de outro planeta. Fal\u00e1mos muito e cada frase dela era fonte de novas preocupa\u00e7\u00f5es. Mais abaixo, a\u00ed uns tr\u00eas quil\u00f3metros, havia outra escola com mais gente. Visitei-a ao descer e conversei com o professor sobre a colega e a escola dela. Ficaram projectos de, semanalmente, se juntarem professores e alunos das duas escolas.<\/p>\n<p>Estas situa\u00e7\u00f5es multiplicaram-se. A natalidade desceu, as pessoas deixaram de se fixar nas aldeias, que a\u00ed n\u00e3o viram futuro. Alguns ficaram e tamb\u00e9m s\u00e3o cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a cresce com outras, joga com outras, aprende com as outras. Onde n\u00e3o h\u00e1 grupo, a educa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o se faz ou tem defici\u00eancias e enormes dificuldades. O direito de cada crian\u00e7a \u00e9 que se lhe proporcionem meios normais para se preparar para a vida.<\/p>\n<p>Como acontece em tantas outras coisas, saber fazer \u00e9 a maneira de fazer bem. As pessoas devem ser respeitadas e n\u00e3o o s\u00e3o quando se lhes fala de cima para baixo. N\u00e3o se legisla \u00e0 margem da sua vida concreta, sem lhes dar raz\u00f5es e sem ouvir as suas raz\u00f5es. As leis feitas em Lisboa, antes de promulgadas, necessitam de uma aceita\u00e7\u00e3o material, ou seja, de as pessoas atingidas sentirem a sua necessidade. Se estas n\u00e3o perceberem que a lei se faz para seu bem, s\u00e3o inevit\u00e1veis as tens\u00f5es e os conflitos. Assim com a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, as auto-estradas, os impostos em geral. Os arranjos partid\u00e1rios n\u00e3o se podem sobrepor aos interesses comuns dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Toda a gente compreende que na educa\u00e7\u00e3o h\u00e1 coisas que t\u00eam de mudar. Mas n\u00e3o compreende que uns tenham tudo \u00e0 m\u00e3o e outros n\u00e3o tenham nada que se possa apalpar, a n\u00e3o ser dificuldades e problemas. Menos se compreende uma escola massificada.<\/p>\n<p>Parece claro que menos escolas, s\u00f3 se aceita se houver mais escola, mais educa\u00e7\u00e3o. O ambiente tamb\u00e9m \u00e9 educativo, por isso, a paz entre as pessoas, o respeito que lhes \u00e9 devido, a igualdade de direitos, o di\u00e1logo com crit\u00e9rios claros, entre os interessados sobre o melhor caminho, j\u00e1 faz parte de uma melhor escola. N\u00e3o falta quem pense que a escola melhora com muitos computadores, muitas salas e sal\u00f5es, actividades em barda, que se sufocam umas \u00e0s outras sufocando tamb\u00e9m os alunos. N\u00e3o parece ser esse o principal caminho de solu\u00e7\u00e3o e de inova\u00e7\u00e3o educativa. O segredo \u00e9 outro.<\/p>\n<p>Trago da inf\u00e2ncia a grata experi\u00eancia de uma boa escola, apesar das defici\u00eancias, que eram realmente muitas. Meia centena de alunos, as quatro classes, uma s\u00f3 sala desaconchegada, um s\u00f3 professor\u2026 Escola de rapazes. Com as meninas acontecia o mesmo. Mas o meu professor foi sempre o mesmo, vivia no meio de n\u00f3s, conhecia bem os alunos e as suas fam\u00edlias, ensinava al\u00e9m do mais e de modo pr\u00e1tico regras de higiene e de respeito m\u00fatuo, prestava aten\u00e7\u00e3o \u00e0s capacidades de cada um, falava com os pais sobre o futuro dos alunos, trabalhava e fazia trabalhar, punha os mais velhos a ajudar os mais novos, transmitia o gosto por aprender e pela escola. Faltavam muit\u00edssimas coisas, \u00e9 certo, que hoje n\u00e3o podem faltar. Mas era uma escola que educava ensinando. Deu-me ferramenta para a vida. Respeitando, hoje, a exig\u00eancia do normal e do razo\u00e1vel para um bom ensino, as coisas, como \u00e9 \u00f3bvio, t\u00eam de ser de outra maneira. Por\u00e9m, fica de p\u00e9 que \u00e9 o professor que faz a escola. S\u00f3 com este bem motivado, a escola ser\u00e1 um lugar de educa\u00e7\u00e3o e de permanente e m\u00faltipla aprendizagem para a vida. O resto, ainda que muito importante, acabar\u00e1 por vir, mas ser\u00e1 sempre um acr\u00e9scimo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho acompanhado, com aten\u00e7\u00e3o, o problema levantado \u00e0 volta do encerramento de escolas, sobretudo em meios rurais, dando-se como raz\u00e3o o diminuto n\u00famero de alunos. As raz\u00f5es do povo e das autarquias t\u00eam o seu peso e as do Governo tamb\u00e9m o t\u00eam, misturando raz\u00f5es pedag\u00f3gicas com exig\u00eancias de poupan\u00e7a nas despesas. 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