{"id":23707,"date":"2012-03-07T15:55:00","date_gmt":"2012-03-07T15:55:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23707"},"modified":"2012-03-07T15:55:00","modified_gmt":"2012-03-07T15:55:00","slug":"o-deus-estraga-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-deus-estraga-vidas\/","title":{"rendered":"O Deus \u00abestraga-vidas\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Mandou reunir o \u00abpovo escolhido\u00bb para proclamar as leis a que teriam que se sujeitar \u2013 dez mandamentos que assegurassem a ordem social daquele tempo (1.\u00aa leitura). Mas esta proclama\u00e7\u00e3o estava a ser feita num ambiente de tal modo aterrorizante, que o povo pediu a Mois\u00e9s que os deixasse longe desse Deus, que s\u00f3 atrapalhava o dia-a-dia dos neg\u00f3cios, dos amores, das lutas e conv\u00edvios, enfim, o dia-a-dia das complexas rela\u00e7\u00f5es humanas. A interven\u00e7\u00e3o de Deus na nossa vida parece dar mais confus\u00e3o do que proveito\u2026<\/p>\n<p>E, s\u00e9culos mais tarde (evangelho), Jesus, que se apresentou a si pr\u00f3prio como \u00abmanso e humilde de cora\u00e7\u00e3o\u00bb, n\u00e3o \u00e9 que surge no templo de Jerusal\u00e9m a estragar o dia normal dos negociantes? N\u00e3o contente com agredi-los com palavras, t\u00ea-los-\u00e1 corrido \u00e0 chicotada enquanto destru\u00eda as bancas dos vendedores.<\/p>\n<p>Poucos anos depois, S. Paulo (2.\u00aa leitura) confunde as ideias de toda a gente: por um lado, chocando sobretudo os Judeus, anuncia que o Messias \u00e9 aquele Jesus, arredado das pol\u00edticas e neg\u00f3cios do templo, de vida humilde e at\u00e9 marginal, e que foi condenado \u00e0 mais humilhante e cruel morte, pr\u00f3pria do mais vil malfeitor; por outro lado, chocando sobretudo o racionalismo hel\u00e9nico, apresenta como modelo do \u00abhomem novo\u00bb esse mesmo Jesus, que afinal continuava vivo e nos faria partilhar da sua vida eterna. Como encaixar esta mensagem estranha na nossa vida? <\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 verdade: temos medo do desconhecido. E Deus \u00e9 muitas vezes referido como \u00abo grande desconhecido\u00bb \u2013 n\u00e3o porque as pessoas n\u00e3o ou\u00e7am falar dele ou n\u00e3o pensem nele ou n\u00e3o O sintam no espanto perante o universo, mas porque \u00e9 aquela realidade que est\u00e1 para al\u00e9m e por dentro da nossa realidade. <\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio da nossa dignidade humana procurar sempre, porque temos o dom de saber que \u00abpor dentro das coisas \u00e9 que as coisas s\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Arriscar no desconhecido, por vezes duramente, \u00e9 tido como um dos segredos de sucesso. Por\u00e9m, os piores enganos devem-se ao esquecimento do valor central: o amor da pr\u00f3pria Vida, que se exprime na vontade em contribuir para que todos \u2013 mas todos \u2013 tenham \u00abvida em abund\u00e2ncia\u00bb, seja qual for a sua origem ou ideologia. Se com o nosso crescimento os outros crescem, ent\u00e3o \u00e9 sinal de que estamos no caminho certo. <\/p>\n<p>Na 1.\u00aa leitura, o povo sentiu que podia sofrer terr\u00edveis castigos, se n\u00e3o se empenhasse em preservar o ambiente saud\u00e1vel para o crescimento, a n\u00edvel social, higi\u00e9nico e religioso. Se queremos trabalhar bem, com o entusiasmo de ajudar a humanidade a crescer, temos que saber descansar. Como dizia um verdadeiro psic\u00f3logo portugu\u00eas, \u00abpor amor dos outros, temos que descansar dos outros\u00bb (Evaristo de Vasconcelos). O pr\u00f3prio Deus descansou da sua obra criada com tanto entusiasmo. O \u00abdia do descanso\u00bb \u00e9 institu\u00eddo para que as pessoas se lembrem que elas s\u00e3o infinitamente mais do que aquilo que podem realizar exteriormente. E deste modo, lembram-se do verdadeiro motivo da Vida, para que n\u00e3o sejam tentadas pelo \u00abeixo do mal\u00bb, o eixo da destrui\u00e7\u00e3o dos outros. <\/p>\n<p>No Evangelho, \u00e9 de novo a preserva\u00e7\u00e3o deste ambiente que est\u00e1 em jogo. Por isso, n\u00e3o podemos misturar o \u00abtemplo do descanso\u00bb com o neg\u00f3cio \u2013 e pior do que sermos \u00abvendilh\u00f5es do templo\u00bb \u00e9 sermos \u00abvendilh\u00f5es de Deus\u00bb. O radical de tempo e templo \u00e9 o mesmo \u2013 \u00abtem\u00bb \u2013 que significa separar, cortar. Se n\u00e3o sabemos ter um tempo para descansar, Deus n\u00e3o se diverte connosco nas bodas de Can\u00e1. Se n\u00e3o sabemos dar tempo para nos juntarmos ou estar a s\u00f3s perante Deus, os nossos neg\u00f3cios n\u00e3o ser\u00e3o feitos com justi\u00e7a e amor da Vida. <\/p>\n<p>Em Jesus, Deus revelou o seu \u00abpoder e sabedoria\u00bb (2.\u00aa leitura) e mostrou-se solid\u00e1rio com o nosso trabalho, o nosso sofrimento, a nossa morte, a nossa alegria. Mostrou que \u201cpor dentro da vida \u00e9 que est\u00e1 a Vida\u201d \u2013 mas isto s\u00f3 descobre quem se d\u00e1 tempo para ir ao templo. <\/p>\n<p>Onde est\u00e1 este templo? As diferentes culturas constru\u00edram \u00abespa\u00e7os separados\u00bb, especialmente prop\u00edcios ao ambiente de encontro com a fonte da vida, que podemos chamar Deus. Mas Jesus foi bem claro com a Samaritana: est\u00e1 dentro de cada qual o verdadeiro templo do Deus que n\u00e3o \u00e9 \u00abestraga-vidas\u00bb \u2013 basta dar-lhe tempo.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt   <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23707","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23707\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}