{"id":23779,"date":"2012-05-30T16:33:00","date_gmt":"2012-05-30T16:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23779"},"modified":"2012-05-30T16:33:00","modified_gmt":"2012-05-30T16:33:00","slug":"da-me-um-beijo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/da-me-um-beijo\/","title":{"rendered":"D\u00e1-me um beijo"},"content":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 108 <!--more--> Estar \u00e0 frente de um lar de idosos tem muitos desafios. \u00c9 como uma par\u00f3quia dentro de outra par\u00f3quia. Funcion\u00e1rios, utentes, seus familiares, a comunidade, com tudo o que a vida de rela\u00e7\u00e3o implica. Os idosos est\u00e3o fragilizados. A sua vida ali manifesta o que foi sua vida antes de ali chegar. Muitas vezes, s\u00e3o eles que o querem e sentem-se integrados. Outros entendem as impossibilidades familiares que levam as pessoas a ali deixarem os seus pais, por vezes com o sofrimento de n\u00e3o os poderem acolher. Mas muitos, simplesmente, despejam-nos ali. N\u00e3o os visitam. Gozam da sua heran\u00e7a, fruto de uma vida de trabalho. Os idosos definham de saudades. Vi alguns morrerem de tristeza e tenho casos desses, ainda hoje.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias um filho foi levar o pai. Vive mesmo ali ao lado. Nem o conduziu ao quarto. N\u00e3o quis saber como ficaria. Pousou a mala, cumprimentou e saiu. Deixou o pai, consternado, ali, no \u201chall\u201d de entrada. L\u00e1 fora deve ter respirado, alegre, por se ver livre do fardo. Tamb\u00e9m \u00e9 pai e at\u00e9 av\u00f4. N\u00e3o invejo em nada aquilo que o espera.<\/p>\n<p>Por vezes, esse trato corresponde a muitos traumas de filhos que n\u00e3o foram suficientemente amados e cuja f\u00e9 \u00e9 demasiado pequena para perdoar e esquecer. Tamb\u00e9m entendo. Uma filha assim, mal tratada quando nova, quando lhe fal\u00e1mos do pai que precisava de a ver, ela perguntou se aquele \u201clixo\u201d ainda n\u00e3o tinha morrido. Chocou-nos imenso. Hist\u00f3rias como esta multiplicam-se. Temos medo de julgar pois nada sabemos dos bastidores. Mas o certo \u00e9 que nos perturba e cansa, a n\u00f3s, que jamais sujeitar\u00edamos os nossos pais a uma vida que eles n\u00e3o escolheram. Viveram toda a vida em fam\u00edlia a organizarem as suas vidas e as nossas, por vezes com intromiss\u00f5es que nos incomodaram. Mas creio que o fizeram muitas vezes movidos pelo amor, embora haja casos gritantes de tirania paterna-maternal. Ali os idosos andam sujeitos ao toque da campainha como se estivessem num convento.<\/p>\n<p>Uma vez vi uma idosa muito triste e perguntei-lhe se ela queria algo e ela disse que queria estar na casa do seu filho. Ele nunca a visitava. Mas h\u00e1 bem pouco tempo emocionei-me muito. Uma idosa conhecida por ser muito dif\u00edcil gritava imenso na hora do deitar. Estava na cadeira de rodas. Fui ter com ela e perguntei-lhe por que gritava e ela queixou-se de querer ir para a cama e n\u00e3o a virem buscar. Tentei explicar que as funcion\u00e1rias estavam a deitar outras e j\u00e1 viriam. Ent\u00e3o ela olhou-me com um olhar muito vivo e brilhante pela emo\u00e7\u00e3o e disse-me: \u201cEnt\u00e3o, d\u00ea-me um beijo!\u201d Ela tem 12 filhos. Beijei a sua testa com o carinho dos doze filhos juntos, que bem podiam visit\u00e1-la mais vezes, sendo uma grande aus\u00eancia. Ela acalmou. Dormiu bem toda a noite. Eu retirei-me para chorar. Pensei na minha m\u00e3e\u2026 Como a deixariam ali assim t\u00e3o s\u00f3? Ela, bem l\u00e1 no fundo, s\u00f3 queria um carinho de um filho. Um beijo. Apenas um beijo para poder dormir em paz. Um beijo que ela deu nos seus doze beb\u00e9s, embora fosse uma mulher dura do campo, que n\u00e3o convivia com a mediocridade. Um beijo para aquecer o seu cora\u00e7\u00e3o. Um beijo para se sentir amada e a mais importante mulher do mundo. Um beijo que aliviaria suas dores, sentada numa cadeira de rodas e depois de lhe ter sido extra\u00eddo um dos olhos.<\/p>\n<p>Um beijo de um filho vale mais que tudo no mundo e compensa todas as dores. Compensa todos os sofrimentos. At\u00e9 aquela solid\u00e3o de estar ali s\u00f3, considerada mulher dif\u00edcil, porque, bem l\u00e1 no fundo, ela grita e \u00e9 impaciente, porque o que ela anseia, n\u00e3o \u00e9 a comida, mas um beijo que encha o seu cora\u00e7\u00e3o de um amor de quem tanto se deu e t\u00e3o pouco recebe\u2026<\/p>\n<p>Depois de ler este artigo, v\u00e1 ter com o seu pai ou m\u00e3e e cubra-os de beijos\u2026 Compense-os pelo muito que vos deu, e aproveitem para lhes dizer, ainda em vida, o quanto s\u00e3o amados por voc\u00eas, e perdoem o que tiverem feito de mal, pois ningu\u00e9m entrou na vida sabendo viver e a n\u00e3o errar. Aproveitem para homenagear os vossos enquanto eles vos podem agradecer com o sorriso e a l\u00e1grima de felicidade.<\/p>\n<p>Vitor Espadilha<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de Jacob &#8211; 108<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23779","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23779"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23779\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}