{"id":23828,"date":"2012-07-04T14:48:00","date_gmt":"2012-07-04T14:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23828"},"modified":"2012-07-04T14:48:00","modified_gmt":"2012-07-04T14:48:00","slug":"quando-as-pessoas-se-juntam-ate-sobre-as-aguas-caminhamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/quando-as-pessoas-se-juntam-ate-sobre-as-aguas-caminhamos\/","title":{"rendered":"&#8220;Quando as pessoas se juntam, at\u00e9 sobre as \u00e1guas caminhamos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Uma escola de surf, as Florinhas do Vouga e o Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura  juntaram-se para ensinar surf a jovens do Bairro de Santiago na Praia da Barra. Relato de Pedro Neto, que coordenou a iniciativa.<\/p>\n<p>O Francisco \u00e9 um rapaz dos seus catorze anos. Levanta-se cedo todos os dias para ir para a escola. Vai sempre a p\u00e9. A casa onde vive n\u00e3o fica longe e o bairro \u00e9 amig\u00e1vel, as pessoas conhecidas. N\u00e3o vive com muito. Vive com o essencial, no essencial. Vai estudando, vai-se esfor\u00e7ando por ter notas para passar, com positiva a tudo, para saltar bem para o ano letivo seguinte, ainda que n\u00e3o seja das suas coisas preferidas, o estudo.<\/p>\n<p>A primeira vez que o vi, tinha o rosto t\u00edmido, pr\u00f3prio de quem tem um mundo dentro dele e muitas vezes se entret\u00e9m a\u00ed dentro. N\u00e3o \u00e9 imagin\u00e1rio nem de sonho, s\u00f3 por si, daqueles que n\u00e3o t\u00eam nada que ver com a realidade. Porque o que ele ali pensa e imagina s\u00e3o os sonhos e as possibilidades com que a vida se pode pintar no futuro. Futebolista, m\u00e9dico, professor. Tantas coisas, que o dif\u00edcil ser\u00e1 mesmo escolher, focar-se e ir direito ao assunto. Tem tempo ainda para isso. Por agora, a rotina segura de cada dia, junto com a fam\u00edlia e os s\u00edtios por onde passa. Esses s\u00e3o os esteios da sua vida.<\/p>\n<p>O surf nunca lhe tinha passado pela cabe\u00e7a como me disse nos \u00faltimos dias, mas viu-se no mar, de uma semana para a outra, a deslizar ondas fora, com uma sensa\u00e7\u00e3o de magia indescrit\u00edvel, como se tivesse todo o poder do mundo e nada lhe fosse imposs\u00edvel de fazer. Ficou-lhe ali uma depend\u00eancia saud\u00e1vel. Se pudesse vinha todos os dias.<\/p>\n<p>Somos dois.<\/p>\n<p>Ao fim do dia, \u00e9 no percurso entre a escola e a Menin\u2019arte, o atelier das Florinhas do Vouga no Bairro de Santiago, que o Francisco vai pensando e sonhando. Todas as tardes dos dias de escola, o trabalho acaba por ali, at\u00e9 \u00e0 hora do jantar, sensivelmente. Com os dias grandes da Primavera, era mais dif\u00edcil, com tanta coisa boa para fazer l\u00e1 fora na rua. Estuda e tem explica\u00e7\u00f5es, acompanhado de estudantes universit\u00e1rios, volunt\u00e1rios do Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura. Tamb\u00e9m eles, j\u00e1 universit\u00e1rios v\u00e3o passar ali dois fins de tarde cada um, por semana, numa roda de gente que mant\u00e9m com a Rosa Maria, das Florinhas, o centro aberto todos os fins de tarde com actividades pedag\u00f3gicas, estudo acompanhado, explica\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m sai dali com trabalhos de casa por fazer. Isso dava outra hist\u00f3ria. Continuemos por aqui, perto do mar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso fazer estes mi\u00fados sonhar em grande, pens\u00e1mos. Nada melhor para alavancar isso que o contacto com o mar, deslizar das ondas, numa certa harmonia com a natureza e a montanha de energia que desliza em forma de \u00e1gua, a cada onda, nunca nenhuma igual a outra. Alguma coisa que os fizesse superar-se.<\/p>\n<p>Quando as pessoas se juntam, s\u00f3 pode dar em milagre.<\/p>\n<p>Foi numa conversa de caf\u00e9 com o Leonel \u201cColas\u201d, o pai carinhoso de uma menina de ano e meio, que escolheu para si uma vida tranquila. No ver\u00e3o anima um pequeno bar dos apoios de praia e uma escola de surf, a Surf\u2019Aqui. No Inverno conserta as pranchas de surf que por ali se d\u00e3o no mar maior, de ondas grandes e friorentas para que \u00e9 preciso ter paix\u00e3o, uma boa dose de f\u00e9 e coragem misturada com a inconsci\u00eancia de quem se testa no seu limite.<\/p>\n<p>A alcunha de colas n\u00e3o vem de colar pranchas, como toda a gente pensa. Quando era mais novo e come\u00e7ou a surfar, tinha um jeito peculiar de se colar \u00e0 t\u00e1bua sob os p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Para esses mi\u00fados, at\u00e9 fazemos isso de borla, p\u00e1. \u2013 Foi coloquial a frase m\u00e1gica que tornou poss\u00edvel este pequeno projeto.<\/p>\n<p>Quando as pessoas se juntam&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed a uma reuni\u00e3o de pais, foi um passo e o Francisco estava nela. T\u00edmido como \u00e9 o seu estar normal, mas de olhar muito atento. S\u00f3 abriu a boca quando a m\u00e3e, depois de todas os esclarecimentos sobre como tudo ia decorrer, lhe perguntou se ele queria ir, num tom meio de ralhar, meio de orgulho, como todas as m\u00e3es sabem fazer. Disse que sim, envergonhado. E a m\u00e3o assinou o papel. A\u00ed abriu muitos os olhos e deu um sorriso daqueles, que depois repetiu a primeira vez que se meteu de p\u00e9, sobre a \u00e1gua, com uma prancha debaixo dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio parecia-lhe dif\u00edcil, remar deitado na prancha, passar para l\u00e1 das ondas, at\u00e9 chegar ao s\u00edtio certo onde esperar por ela, pela certa. \u00c9 sempre uma arte esperar e reconhecer a onda certa. O desequil\u00edbrio era constante, a \u00e1gua era estranha, vinha de um lado, do outro. N\u00e3o parava.<\/p>\n<p>Com esfor\u00e7o, virou-se a elas e a espuma ia-o empurrando. Daqui a tentar meter-se de p\u00e9 foi outro ros\u00e1rio de tentativas, mas ao segundo dia, o milagre de caminhar sobre a \u00e1gua aconteceu.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca podemos desistir das ondas \u2013 dizia ele no \u00faltimo dia j\u00e1 do curso. J\u00e1 a timidez era uma mem\u00f3ria distante e o riso permanente.<\/p>\n<p>O Bruno e a Raquel s\u00e3o mais novos que o Francisco. Estudam diariamente na Menin\u2019arte tamb\u00e9m e com bons resultados. S\u00e3o um pouco mais competitivos que o easygoing life do Francisco. Sempre concentrados desde os exerc\u00edcios na areia ainda na primeira aula do primeiro dia. <\/p>\n<p>Impressiona, t\u00e3o focados que mi\u00fados, apenas mi\u00fados, est\u00e3o naquilo que fazem. N\u00f3s adultos, descuramos tantas vezes esse potencial deles porque estamos ocupados mais com formas que com conte\u00fados, mais com pap\u00e9is que em pessoas.<\/p>\n<p>Tanto um como outro n\u00e3o deixaram sequer chegar o segundo dia de aulas para se meterem de p\u00e9 e deslizar onda fora. Foi ao primeiro. A mim, que demorei uns anos frios de Inverno a consegui-lo, num tempo em que n\u00e3o havia escolas de surf, mistura-se-me a irrita\u00e7\u00e3o com o orgulho.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha a princ\u00edpio, porque n\u00e3o estamos habituados a ver o mar aos p\u00e9s, t\u00e3o baixo. A perspetiva \u00e9 diferente de l\u00e1 de cima, parece que somos muito mais altos e conseguimos correr em cima da \u00e1gua. Foi muito bom. \u2013 T\u00e3o concentrado como eloquente, o Bruno contagia de entusiasmo. N\u00e3o p\u00e1ra um segundo dentro da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Porque ser\u00e1 que dizemos tantas vezes \u201cn\u00e3o consigo\u201d, quando o natural parece ser mesmo o conseguirmos?<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos mais pequenos, havia outros de dezasseis para cima. Alunos da Escola Secund\u00e1ria Homem Cristo, vieram ajudar. O Ricardo, nos seus dezoito anos, al\u00e9m da escola e das obriga\u00e7\u00f5es, sempre que pode \u2013 mar. Surfar. Ele como os colegas vieram ajudar a escola de surf a apoiar na areia e na \u00e1gua, cada um conforme o que soubesse e pudesse. Ao primeiro dia, quando cheguei \u00e0 praia, j\u00e1 estava l\u00e1 \u00e0 espera. Ao segundo dia disse-me que ia tirar o curso de professor de surf. Dizia que a satisfa\u00e7\u00e3o dos mi\u00fados a aprenderem e a conseguirem era uma coisa impag\u00e1vel. Ensinar algu\u00e9m a surfar, para ele, era dar aos outros aquilo que de mais precioso tinha. Dava o melhor de si mesmo, dava-o aos outros, com tudo o que tinha e sabia. Notava-se a calma com que explicava as coisas dentro de \u00e1gua enquanto cuidava da seguran\u00e7a de quem aprendia dele. Tem muito de voca\u00e7\u00e3o isto o que notava no rapaz, sem medos e sem limita\u00e7\u00f5es. O n\u00e3o conseguir n\u00e3o vinha ali no dicion\u00e1rio dele e parecia querer mesmo ensinar isso aos outros.<\/p>\n<p>Tem muito de F\u00e9 tamb\u00e9m, de acreditar, de Amor este processo de persist\u00eancia. Um pai que encaminha um filho nos primeiros passos. Aqui a diferen\u00e7a era o meio,  a \u00e1gua. A paciente persist\u00eancia e encorajamento eram em tudo semelhantes ao resto que temos a alcan\u00e7ar na vida.<\/p>\n<p>Doze pequenos surfistas nasceram nestes dias. Num baptismo de \u00e1gua salgada, aprenderam que nunca se pode desistir das ondas, como dizia um, da vida, como entenderam todos. Persist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a li\u00e7\u00e3o do Francisco, do Bruno e da Raquel, da Liliana, da Maria e do Daniel e de mais alguns que durante uma semana se desafiaram a si mesmos e com dedica\u00e7\u00e3o tit\u00e2nica conseguiram o pequeno milagre. Agora acreditam que podem tamb\u00e9m fazer magia das suas vidas mais, ou menos, privilegiadas, deslizar sobre ela, como fizeram no mar. Quando as pessoas se juntam&#8230; at\u00e9 sobre a \u00e1gua caminhamos&#8230; quanto mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma escola de surf, as Florinhas do Vouga e o Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura juntaram-se para ensinar surf a jovens do Bairro de Santiago na Praia da Barra. Relato de Pedro Neto, que coordenou a iniciativa. O Francisco \u00e9 um rapaz dos seus catorze anos. 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