{"id":23882,"date":"2012-07-04T15:40:00","date_gmt":"2012-07-04T15:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23882"},"modified":"2012-07-04T15:40:00","modified_gmt":"2012-07-04T15:40:00","slug":"encontros-e-desencontros-entre-o-imperio-do-meio-e-pais-das-uvas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/encontros-e-desencontros-entre-o-imperio-do-meio-e-pais-das-uvas\/","title":{"rendered":"Encontros e desencontros entre o Imp\u00e9rio do Meio e Pa\u00eds das Uvas *"},"content":{"rendered":"<p>Em bicos de p\u00e9s e de olhos em bico<\/p>\n<p>Jorge Tavares da Silva e Z\u00e9lia Breda (coordenadores)<\/p>\n<p>Mare Liberum Editora<\/p>\n<p>206 p\u00e1ginas<\/p>\n<p>\u201cOs meus alunos portugueses s\u00e3o uns \u00abmonstros\u00bb muito queridos. Estudam pouco, ali\u00e1s muito pouco, sobretudo em compara\u00e7\u00e3o com a maioria dos alunos chineses, muito disciplinados, que passam os primeiros 20 anos da vida s\u00f3 a estudar sem fazer mais nada, como ali\u00e1s aconteceu comigo. Estes jovens fazem quase tudo em cima do joelho, sem grande preocupa\u00e7\u00e3o, e parece tamb\u00e9m que n\u00e3o t\u00eam quaisquer planos no que respeita ao futuro. Ora, a\u00ed est\u00e1 o t\u00edpico esp\u00edrito portugu\u00eas \u2013 \u201cdepois logo se v\u00ea\u201d \u2013 personificado na sua mocidade\u201d.<\/p>\n<p>Ran Mai, a autora das frases anteriores, nasceu em Xangai e \u00e9 professora de L\u00edngua e Cultura Chinesa da Universidade de Aveiro (UA) desde setembro de 2003, pelo que j\u00e1 conhece bem os alunos portugueses e pode compar\u00e1-los com os seus compatriotas: \u201cOs alunos chineses s\u00e3o ensinados a absorver e organizar conhecimentos. N\u00e3o podem chegar atrasados ou faltar \u00e0s aulas sem justifica\u00e7\u00e3o reconhecida pelo docente. E tamb\u00e9m n\u00e3o devem falar nem fazer perguntas na aula sem permiss\u00e3o do professor.\u201d Os portugueses, por\u00e9m, \u201cs\u00e3o muito mais livres\u201d, \u201cgostam de exprimir as suas opini\u00f5es e fazer coment\u00e1rios acerca do tema\u201d, o que \u201ctorna o ambiente de aula mais vivo\u201d, e surpreendem os professores. Um exemplo: \u201cEnsinaram-me g\u00edrias e ditos populares; corrigiram-me erros de portugu\u00eas, apesar de muitos n\u00e3o saberem grande coisa da gram\u00e1tica portuguesa; e tentaram-me com palavr\u00f5es portugueses para aprender alguns em chin\u00eas\u2026\u201d (p\u00e1g. 40). Outro exemplo, agora pela m\u00e3o de Wang Suoying, que chegou a verter para chin\u00eas os discursos dos ministros Ant\u00f3nio Guterres e Mariano Gago, \u00e9 coautora de um dicion\u00e1rio Chin\u00eas-Portugu\u00eas e leciona na UA: \u201cEm novembro de 2008, estive t\u00e3o ocupada e preocupada que me esqueci completamente do anivers\u00e1rio do meu marido [invisual, tamb\u00e9m professor]. Estive fora todo o dia, mas ele foi recebendo telefonemas de \u00abParab\u00e9ns\u00bb. Dias depois, ao fim da tarde, quando cheg\u00e1mos para dar aulas a turmas diferentes, cerca de 70 alunos entraram todos numa sala com dois enormes bolos. Ap\u00f3s um aluno ter feito um discurso em chin\u00eas, que se encontrava previamente escrito no quadro, todos come\u00e7aram a cantar \u00abParab\u00e9ns\u00bb ao meu marido. Os meus olhos ficaram humedecidos\u2026 Os alunos n\u00e3o s\u00e3o apenas alunos, s\u00e3o tamb\u00e9m amigos e quase que fazem parte da fam\u00edlia\u201d (p\u00e1g. 92).<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 composto por nove relatos de autores chineses sobre Portugal e os portugueses e outros nove de portugueses sobre a China e seus habitantes \u2013 \u201cviv\u00eancias e conviv\u00eancias interculturais\u201d, como escrevem os coordenadores nas primeiras p\u00e1ginas. \u00c9 uma obra curios\u00edssima e \u00fatil, quer pelo passado, pois h\u00e1 uma hist\u00f3ria de meio mil\u00e9nio que nos liga ao Imp\u00e9rio do Meio (Jorge \u00c1lvares, em 1513, foi o primeiro portugu\u00eas e europeu a p\u00f4r os p\u00e9s na China, descontando as mirabol\u00e2ncias de Marco Polo), quer pelo futuro, j\u00e1 que a China se afigura como a grande pot\u00eancia das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Temos aqui as impress\u00f5es de professores, embaixadores, empres\u00e1rios, jornalistas, chinesas que se apaixonam por portugueses na China, chineses que encontram a cara-metade em Portugal\u2026 Um livro de encontro de culturas, economias, filosofias, vidas.<\/p>\n<p>Mais do que a hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o Portugal-China este livro oferece-nos a pequena hist\u00f3ria, os choques e encontros pessoais, a admira\u00e7\u00e3o com o c\u00e9u azul de Lisboa (em Pequim, Xangai, Macau o c\u00e9u est\u00e1 sempre cinzento devido \u00e0 nuvens ou \u00e0 polui\u00e7\u00e3o), o achar os doces portugueses demasiado adocicados e o prato principal demasiado salgado (porque para os chineses costuma ser adocicado), a habitua\u00e7\u00e3o aos beijinhos na cara \u201csem os limpar inconscientemente\u201d (na China, mesmo na cara, s\u00e3o reservados aos maridos e namorados), o n\u00e3o ter que arrotar de prop\u00f3sito ap\u00f3s uma refei\u00e7\u00e3o nem ter de se assoar \u00e0s escondidas, como no Extremo Oriente&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o se l\u00ea uma p\u00e1gina deste livro sem nos divertirmos, pensarmos sobre n\u00f3s pr\u00f3prios enquanto povo e pa\u00eds ou aumentarmos a nossa cultura geral. Temos a adapta\u00e7\u00e3o aos costumes, alimentos, tradi\u00e7\u00f5es do outro, mas tamb\u00e9m temos a sabedoria chinesa. Mais exemplos. Existem mil maneiras de confecionar bacalhau \u2013 \u00e9 sabido. A fam\u00edlia Lu, que nunca tinha provado este peixe, arranjou a 1001.\u00aa, \u201cbacalhau com pur\u00e9 de batata \u00e0 fam\u00edlia Lu\u201d (a receita est\u00e1 na p\u00e1g. 89), e agora d\u00e1-a a outros chineses residentes em Portugal. Por seu turno, Ran Mai, que j\u00e1 deixou levar pauzinhos para restaurantes e cantinas, sabe agora que quando os carros t\u00eam fitas brancas nas antenas \u201cv\u00e3o festejar um belo casamento, e n\u00e3o um pesaroso funeral\u201d, j\u00e1 que no seu pa\u00eds de origem o branco \u00e9 para os funerais, enquanto os noivos v\u00e3o de vermelho. Exemplos da sabedoria chinesa chegam pela escrita de Ant\u00f3nio Gra\u00e7a de Abreu, um dos quatro portugueses que havia em toda a China, quando em 1979 Jo\u00e3o de Deus Ramos abriu a embaixada portuguesa em Pequim. Vale a pena reter o que o fil\u00f3sofo Han Feizi escreveu 240 anos antes de Cristo sobre governar atrav\u00e9s das leis: \u201cPodeis esperar, em geral, encontrar cerca de dez homens honestos em cada reino, o que \u00e9 uma m\u00e9dia excelente. Mas o Estado deve contar com uma centena de cargos. Da\u00ed resultar que tendes mais postos oficiais do que homens de bem para os ocupar, o que d\u00e1 dez homens honestos e noventa patifes para preencher os lugares do Estado. Pode-se portanto apostar que o resultado ser\u00e1 a desordem generalizada, mais do que um governo organizado. Eis porque o soberano sensato acredita num sistema pol\u00edtico e n\u00e3o nas capacidades individuais, tem f\u00e9 num m\u00e9todo e desconfia da probidade pessoal\u201d (p\u00e1g. 154).<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 publicado pela Mare Liberum Editora, ligada do ISCIA (Instituto Superior de Ci\u00eancias de Informa\u00e7\u00e3o e Administra\u00e7\u00e3o &#8211; Aveiro) e respons\u00e1vel pelas revistas cient\u00edficas \u201cGeopol\u00edtica\u201d e \u201cEstudos Aveirenses\u201d.<\/p>\n<p>* Os chineses chamam ao seu pa\u00eds \u201cZhong-guo\u201d, que quer dizer \u201cpa\u00eds do meio\u201d ou \u201cdo centro\u201d, revelando assim uma vis\u00e3o sinoc\u00eantrica; para eles, Portugal \u00e9 \u201cPutoya\u201d, que quer dizer \u201cpa\u00eds das uvas\u201d.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em bicos de p\u00e9s e de olhos em bico Jorge Tavares da Silva e Z\u00e9lia Breda (coordenadores) Mare Liberum Editora 206 p\u00e1ginas \u201cOs meus alunos portugueses s\u00e3o uns \u00abmonstros\u00bb muito queridos. 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