{"id":23943,"date":"2012-09-26T16:13:00","date_gmt":"2012-09-26T16:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23943"},"modified":"2012-09-26T16:13:00","modified_gmt":"2012-09-26T16:13:00","slug":"a-forma-como-a-famlia-se-organiza-potencia-ruturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-forma-como-a-famlia-se-organiza-potencia-ruturas\/","title":{"rendered":"&#8220;A forma como a fam\u00b4lia se organiza potencia ruturas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Teresa Borges formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e exerce advocacia em Aveiro. Tem dois filhos, de 11 e 16 anos, e \u00e9 divorciada. Foi catequista na par\u00f3quia da Gl\u00f3ria e na Vera Cruz, em anos diferentes, e integrou a equipa diocesana de prepara\u00e7\u00e3o remota para o Matrim\u00f3nio. Colabora no Instituto Superior de Ci\u00eancias Religiosas (ISCRA), na \u00e1rea da Doutrina Social da Igreja.<\/p>\n<p>\u201cA sociedade e a forma como a fam\u00edlia se v\u00ea for\u00e7ada a organizar-se para sobreviver potenciam ruturas e conduzem normalmente a um caminho sem retorno, que termina em separa\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Teresa Borges, reconhecendo que se cuida pouco do relacionamento entre pessoas.<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; Recolheu dados sobre os div\u00f3rcios e recasamentos. Quais os n\u00fameros que lhe chamaram mais a aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Teresa Borges &#8211; Sim, recolhemos. Base\u00e1mo-nos nos  dados  do INE relativos ao per\u00edodo dos \u00faltimos 17 anos (entre 1995 e 2011), o que nos permitiu conhecer a evolu\u00e7\u00e3o do n\u00famero total de casamentos, do n\u00famero de casamentos cat\u00f3licos e civis,  o n\u00famero de recasados e o n\u00famero de divorciados (nestes \u00faltimos apenas at\u00e9 2010). Houve  resultados que corresponderam \u00e0s nossas expectativas, outros j\u00e1 n\u00e3o. <\/p>\n<p>Concretizando, em 1995 a maioria dos casamentos era cat\u00f3lico, enquanto em 2011 a maioria dos casamentos foi civil, n\u00e3o porque estes \u00faltimos tenham aumentado significativamente mas apenas porque o n\u00famero de casamentos cat\u00f3licos diminuiu drasticamente. Isto pode explicar-se parcialmente pelo facto de ter aumentado o n\u00famero de div\u00f3rcios, levando a que os segundos casamentos sejam obrigat\u00f3ria e exclusivamente civis. Mas outra surpresa foi o facto de que o n\u00famero destes segundos casamentos n\u00e3o ter crescido duma forma mais vis\u00edvel, nunca se afastando do valor de dez mil por ano. Aqui pode acontecer que as pessoas, em vez de recasarem passem a viver em uni\u00e3o de facto, especialmente nos centros urbanos. Encontramos poucos dados fidedignos sobre as uni\u00f5es de facto.  <\/p>\n<p>Fic\u00e1mos especialmente surpreendidos ao constatar que ao longo destes 16 anos, o n\u00famero de div\u00f3rcios, tomando em considera\u00e7\u00e3o o tipo de casamento realizado, civil ou cat\u00f3lico, se manteve constante, o que mostra que independentemente do tipo de casamento celebrado a percentagem do n\u00famero de  div\u00f3rcios correspondentes n\u00e3o difere entre si.<\/p>\n<p> Numa an\u00e1lise mais sociol\u00f3gica, remetendo tamb\u00e9m para a sua experi\u00eancia de advogada, quais as principais causa dos div\u00f3rcios de casais cat\u00f3licos? <\/p>\n<p>As principais causas s\u00e3o comuns a todos os casais, sejam cat\u00f3licos ou n\u00e3o. As dificuldades financeiras s\u00e3o desde h\u00e1 largos anos uma das causas imediatas e recorrentes para a rutura entre o casal, no entanto, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o nem a \u00fanica nem a principal causa de div\u00f3rcio. A sociedade em que hoje vivemos e a forma como a fam\u00edlia se v\u00ea for\u00e7ada a organizar-se para \u201csobreviver\u201d potenciam ruturas e conduzem normalmente a um caminho sem retorno, que inevitavelmente termina em separa\u00e7\u00e3o. As queixas que habitualmente nos chegam t\u00eam a ver com a falta de prepara\u00e7\u00e3o das pessoas para se relacionarem umas com as outras e para gerirem os conflitos inerentes.<\/p>\n<p>O div\u00f3rcio aparece como uma sa\u00edda f\u00e1cil para as complica\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>A falta de esp\u00edrito de sacrif\u00edcio, a tend\u00eancia para seguir o caminho mais f\u00e1cil e o ego\u00edsmo t\u00eam como consequ\u00eancia natural e expect\u00e1vel que em situa\u00e7\u00e3o de conflito dentro de um casal, o caminho a seguir seja o do div\u00f3rcio. Por outro lado, havemos de perceber que a tend\u00eancia para casar mais tarde, \u201cquando as condi\u00e7\u00f5es o permitem\u201d, gera normalmente uma ideia de independ\u00eancia entre os membros do casal, que deixam de partilhar a vida, para passar a partilhar espa\u00e7os, coisas e d\u00edvidas. A aus\u00eancia de projetos de vida a n\u00edvel individual \u00e9 tamb\u00e9m outra causa que merece ser analisada, pois que impede a constru\u00e7\u00e3o de um projeto comum, que permita manter unidas duas pessoas. A ideia de que a uni\u00e3o faz a for\u00e7a tem-se dissipado, num mundo em que \u201cvale tudo\u201d e em que o \u201ceu\u201d supera o \u201cn\u00f3s\u201d. O individualismo crescente \u00e9 comum a todos, cat\u00f3licos ou n\u00e3o, e deve constituir um desafio para mudarmos a forma\u00e7\u00e3o das pessoas. Investimos na educa\u00e7\u00e3o, apenas para fornecer conhecimento e conceder graus acad\u00e9micos, quando dever\u00edamos pensar em formar, antes do mais, pessoas. Este \u00e9 para mim, enquanto cat\u00f3lica e profissional, o cerne da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O seu compromisso apost\u00f3lico \u00e9 conhecido na comunidade crist\u00e3, tal como a sua condi\u00e7\u00e3o de divorciada. Sente-se abandonada pela Igreja?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o posso afirmar que me sinto ou alguma vez senti abandonada pela Igreja. Sinto alguma tristeza por perceber que na maior parte das vezes,  s\u00e3o tratadas de forma igual, ou semelhante, situa\u00e7\u00f5es, na sua origem bem diferentes. Penso que a Igreja acolhe, na maior parte dos casos, e tenta ser m\u00e3e, mas considero que h\u00e1 ainda um longo caminho a percorrer, e que nomeadamente a aceita\u00e7\u00e3o de um segundo casamento, em algumas situa\u00e7\u00f5es deveria poder ser admitida. Claro que a tristeza que sinto n\u00e3o me faz questionar a minha f\u00e9, ou sequer me afastou\/afasta da Igreja. Tornou apenas mais evidente que existem quest\u00f5es pertinentes a debater e a alterar, resultantes da constata\u00e7\u00e3o que hoje a Igreja tem de fazer de que o ideal que proclama, nem sempre tem correspond\u00eancia na realidade dos nossos dias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresa Borges formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e exerce advocacia em Aveiro. Tem dois filhos, de 11 e 16 anos, e \u00e9 divorciada. Foi catequista na par\u00f3quia da Gl\u00f3ria e na Vera Cruz, em anos diferentes, e integrou a equipa diocesana de prepara\u00e7\u00e3o remota para o Matrim\u00f3nio. 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