{"id":23968,"date":"2012-10-10T16:45:00","date_gmt":"2012-10-10T16:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23968"},"modified":"2012-10-10T16:45:00","modified_gmt":"2012-10-10T16:45:00","slug":"leituras-perigosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/leituras-perigosas\/","title":{"rendered":"Leituras perigosas?"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> H\u00e1 poucas semanas, um biblista portugu\u00eas alertava para os perigos de ler a B\u00edblia sem conhecer o porqu\u00ea e como se formaram as suas \u00abhist\u00f3rias\u00bb, poemas e \u00abvis\u00f5es\u00bb. Por isso \u00e9 que, na B\u00edblia, s\u00e3o t\u00e3o importantes as introdu\u00e7\u00f5es e notas. Como estas podem ser tendenciosas, manipuladas por uma dada perspectiva religiosa (ofendendo por vezes outras perspectivas), t\u00eam surgido excelentes tradu\u00e7\u00f5es ecum\u00e9nicas (ou interconfessionais) da B\u00edblia, atentas ao tesouro comum das tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, ortodoxas e protestantes, sem descurar o significado dos textos dependente do momento hist\u00f3rico em que foram escritos e atendendo \u00e0 influ\u00eancia de culturas muito diversas.<\/p>\n<p>O autor do Livro da Sabedoria, que viveu pelos anos 75 a.C., p\u00f5e as suas palavras na boca do rei-s\u00e1bio Salom\u00e3o, que j\u00e1 tinha morrido h\u00e1 quase 900 anos. Escrito em grego, \u00e9 influenciado pelo pensamento filos\u00f3fico da antiga Gr\u00e9cia (sobretudo o que surgiu a partir dos anos 400 a.C.), para o qual a riqueza significa tanto a abund\u00e2ncia de bens materiais como espirituais e que a riqueza material s\u00f3 \u00e9 boa na medida em que contribui para o bem da comunidade. Os \u00abricos\u00bb s\u00e3o portanto respons\u00e1veis pelo progresso social \u2013 o que \u00e9 imposs\u00edvel se menosprezam a sabedoria. Ali\u00e1s, os bens materiais s\u00e3o necess\u00e1rios para criar condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento pleno da personalidade. Tamb\u00e9m j\u00e1 se reconhece como a riqueza material (sem a espiritual) \u00e9 fonte de ansiedade, aprisiona o ser humano e conduz ao dom\u00ednio opressivo dos demais.<\/p>\n<p>No A. T., a riqueza \u00e9 recompensa da fidelidade a Deus, mas \u00e9 muito atacada, sobretudo nos profetas e livros sapienciais, como tenta\u00e7\u00e3o para o ego\u00edsmo e opress\u00e3o dos \u00abpobres\u00bb \u2013 os desprotegidos, um conceito que ganhou extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia, do ponto de vista religioso. Os \u00abpobres\u00bb s\u00e3o aqueles que s\u00f3 p\u00f5em a sua seguran\u00e7a em Deus e n\u00e3o levantam obst\u00e1culos \u00e0 justi\u00e7a (atributo de Deus). <\/p>\n<p>Este sentido \u00e9 explorado por Jesus: os pobres s\u00e3o \u00abbem-aventurados\u00bb na medida em que Deus \u00e9 para eles a \u00fanica \u00abrocha s\u00f3lida\u00bb sobre que vale a pena construir. E os ataques de Jesus aos ricos visam sobretudo a obsess\u00e3o pelos bens materiais, que impede a justi\u00e7a do \u00abreino de Deus\u00bb. Os que n\u00e3o conseguem ver al\u00e9m dos bens materiais n\u00e3o podem compreender o sentido da miss\u00e3o de Jesus, que deu a vida para que haja mais Vida (n\u00e3o s\u00f3 a vida eterna, mas j\u00e1 a deste mundo).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil compreender o significado da hist\u00f3ria do homem rico: este, reconhecidamente cidad\u00e3o exemplar e atento \u00e0 palavra de Deus, queria ter a certeza da melhor estrat\u00e9gia de investimento para alcan\u00e7ar o prazer garantido de viver. Faltaria alguma coisa? N\u00e3o, n\u00e3o faltava. Na opini\u00e3o de Jesus, at\u00e9 tinha a vida muito bem orientada. Mas n\u00e3o estava satisfeito. Ent\u00e3o, Jesus lan\u00e7ou-lhe uma proposta arrojada \u2013 que acabou por ser demasiado estranha ao sentir e ao pensar do homem rico.<\/p>\n<p>Na catequese tradicional, este epis\u00f3dio era muitas vezes apresentado como liminar condena\u00e7\u00e3o da riqueza, em contraste com o desprendimento de Pedro &#038; Companhia (na verdade custa muito deixar tudo o que temos, seja um pal\u00e1cio ou um casebre\u2026).<\/p>\n<p>Houve interpreta\u00e7\u00f5es abusivas, quer castigando os ricos com o inferno quer consolando os pobres com o c\u00e9u, quer justificando a riqueza adquirida por alguns que \u00ababandonaram tudo\u00bb \u2013 mas para receber muito mais j\u00e1 neste mundo\u2026 <\/p>\n<p>Jesus n\u00e3o condenou a riqueza (n\u00e3o era Jesus sustentado pela riqueza dos seus amigos &#8722; homens e mulheres?): apontou como o apego aos bens deste mundo ou \u00e0s v\u00e1rias formas de poder \u00e9 um empecilho para promover a justi\u00e7a do \u00abreino de Deus\u00bb. <\/p>\n<p>Todo o ser humano procura ser rico, por tend\u00eancia natural, que s\u00f3 \u00e9 boa ou m\u00e1 conforme o bom ou mau uso dessa tend\u00eancia. \u00c9 uma for\u00e7a que nos \u00ab\u00e9 imposs\u00edvel\u00bb aniquilar, mas que j\u00e1 nos ensina a abdicar de um bem para atingir outro maior. Por\u00e9m, pondo Deus acima de tudo, descobrimos a sabedoria de que o maior bem de todos n\u00e3o pode ser comprado por dinheiro, mas pela preocupa\u00e7\u00e3o pelo \u00abreino de Deus e sua justi\u00e7a\u00bb, e que este \u00e9 o melhor investimento poss\u00edvel dos bens materiais \u2013 o que pode exigir a \u00abhipoteca\u00bb de coisas que nos custa muito deixar (Marcos 9,43-49). Ent\u00e3o j\u00e1 \u00ab\u00e9 poss\u00edvel\u00bb a salva\u00e7\u00e3o plena.<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt  <\/p>\n<p>(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23968"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23968\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}