{"id":23996,"date":"2012-10-17T16:29:00","date_gmt":"2012-10-17T16:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=23996"},"modified":"2012-10-17T16:29:00","modified_gmt":"2012-10-17T16:29:00","slug":"um-osso-duro-de-roer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-osso-duro-de-roer\/","title":{"rendered":"Um osso duro de roer"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> \u00abSete c\u00e3es a um osso\u00bb \u2013 bem se podia aplicar \u00e0 1.\u00aa parte da leitura do evangelho. \u00c9 o osso do poder (econ\u00f3mico, pol\u00edtico, religioso\u2026) que atrai naturalmente o ser humano, e n\u00e3o seria mal nenhum se as pessoas n\u00e3o agissem como c\u00e3es raivosos, que se atacam uns aos outros para ver quem rouba o poder, ou que se juntam para devorar \u00abirm\u00e3mente\u00bb quem lhes n\u00e3o pode fugir das garras. Tiago e Jo\u00e3o apenas quereriam meter uma cunha a Jesus, para que tivessem os lugares principais quando Jesus alcan\u00e7asse todo o \u00abpoder messi\u00e2nico\u00bb. Mas Jesus tinha outro conceito de \u00abpoder\u00bb, n\u00e3o se prestava a manobras e deixou bem claro que s\u00f3 fica a seu lado quem tem coragem para enfrentar momentos dif\u00edceis. Enfim, podia ter dito que se tratava de \u00abum osso duro de roer\u00bb. <\/p>\n<p>A 1.\u00aa leitura deste domingo refere-se de novo ao \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb \u2013 figura misteriosa que os pr\u00f3prios exegetas n\u00e3o conseguem identificar: s\u00edmbolo do \u00abPovo escolhido\u00bb, no seu conjunto? S\u00edmbolo de todos aqueles que trabalham com Deus? Ou ser\u00e1 a representa\u00e7\u00e3o de algum profeta, rei ou qualquer outra personalidade, cuja ac\u00e7\u00e3o \u00e9 da maior import\u00e2ncia para o projecto da salva\u00e7\u00e3o da Humanidade?  \u00c9 prov\u00e1vel esta \u00faltima hip\u00f3tese \u2013 sem se aplicar necessariamente ao Messias. Como quer que seja, a miss\u00e3o do \u00abservo\u00bb \u00e9 proclamar o direito e a justi\u00e7a em toda a terra, mesmo que tenha que enfrentar persegui\u00e7\u00f5es, torturas e a morte. Proclama a certeza do sucesso final e que ficar\u00e1 para sempre \u00abjunto\u00bb do Deus vivo. <\/p>\n<p>Marcado pelo sofrimento e pelo aparente abandono de Deus, o \u00abservo\u00bb lembra um pouco o sofrimento de Job \u2013 que n\u00e3o compreende a raz\u00e3o do seu sofrimento. Deus apenas lhe faz sentir que \u00abos caminhos de Deus n\u00e3o s\u00e3o os nossos caminhos\u00bb (Isa\u00edas 55,8) e que a nossa raz\u00e3o n\u00e3o penetra o que \u00e9 Deus (Job 42,3).<\/p>\n<p>Os quatro \u00abc\u00e2nticos do servo\u00bb, dispersos nas cr\u00f3nicas do profeta Isa\u00edas, apresentam-no uma pessoa silenciosa, s\u00edmbolo da tremenda inquieta\u00e7\u00e3o sobre o sentido de toda a vida humana. Como unir Deus e Humanidade? Que realidades s\u00e3o estas? Para a linguagem humana, poderiam ser os expoentes, de um lado, da pura vida sem sofrimento, sem morte, sem limita\u00e7\u00e3o alguma; do outro, o da consci\u00eancia da despropor\u00e7\u00e3o entre essa vida perfeita e a dos seres que se transformam continuamente, de morte em morte, de dor em dor, mas tamb\u00e9m de alegria em alegria, de amor em amor, de vida em vida.<\/p>\n<p>O \u00abhomem das dores\u00bb da 1.\u00aa leitura \u00e9 o mesmo sobre quem Deus \u00abfez repousar o seu esp\u00edrito para que leve \u00e0s na\u00e7\u00f5es a verdadeira justi\u00e7a\u00bb (Isa\u00edas 42,1). Ser\u00e1 preciso tanto sofrimento para que a justi\u00e7a se realize?<\/p>\n<p>Jesus Cristo, que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 identificou ao \u00abservo de Jav\u00e9\u00bb, mostrou que o sacrif\u00edcio aut\u00eantico \u00e9 darmos a vida (o trabalho de todos os dias!) pela constru\u00e7\u00e3o de um mundo de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele nunca se apresentou como sacerdote (e muito menos como \u00absumo sacerdote\u00bb), nunca exerceu essas fun\u00e7\u00f5es nem as prop\u00f4s aos seus seguidores. E critica a organiza\u00e7\u00e3o do sacerd\u00f3cio demasiado semelhante \u00e0 dos correntes poderes pol\u00edticos e econ\u00f3micos. Instituiu, isso sim, e com todo o vigor, um pequeno grupo propagador de Vida e Justi\u00e7a. <\/p>\n<p>Demarca-se da solenidade e import\u00e2ncia terrena. Fala com todos e aproveita as vistas curtas dos pr\u00f3prios ap\u00f3stolos para dar li\u00e7\u00f5es profundas aplic\u00e1veis (por vezes, de que maneira!) a todos os \u00absucessores dos ap\u00f3stolos\u00bb: \u00abSabeis que os que s\u00e3o considerados como chefes das na\u00e7\u00f5es exercem dom\u00ednio sobre elas, e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. N\u00e3o deve ser assim entre v\u00f3s. Quem de v\u00f3s quiser tornar-se grande, tem de mostrar que est\u00e1 mesmo ao servi\u00e7o dos outros\u00bb. <\/p>\n<p>E n\u00e3o abdicou de se refugiar no carinho de gente amiga. Precisamos de treinar aquelas manifesta\u00e7\u00f5es de apre\u00e7o, aquela companhia amiga, aqueles di\u00e1logos onde h\u00e1 cr\u00edticas e sugest\u00f5es\u2026 que favorecem a forma\u00e7\u00e3o de pessoas suficientemente corajosas para proclamar e construir um mundo novo. Teimosos perante o osso mais duro de roer. <\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n<p>m.alteveiga@netcabo.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-23996","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23996"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23996\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}