{"id":2405,"date":"2010-09-08T10:48:00","date_gmt":"2010-09-08T10:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2405"},"modified":"2010-09-08T10:48:00","modified_gmt":"2010-09-08T10:48:00","slug":"nos-50-anos-dos-cursos-de-cristandade-o-meu-testemunho-de-gratidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/nos-50-anos-dos-cursos-de-cristandade-o-meu-testemunho-de-gratidao\/","title":{"rendered":"Nos 50 anos dos Cursos de Cristandade, o meu testemunho de gratid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Testemunho <!--more--> A minha Catequista<\/p>\n<p>At\u00e9 certa altura, a minha rela\u00e7\u00e3o com a Igreja n\u00e3o passava de ir assistir \u00e0 sa\u00edda das mi\u00fadas das missas, na Igreja da Miseric\u00f3rdia, com um grupo de amigos. At\u00e9 que comecei a andar mais frequentemente com uma mi\u00fada, contempor\u00e2nea no Liceu. Passou a ser, para al\u00e9m de outras coisas, a minha catequista. A minha evolu\u00e7\u00e3o, como crist\u00e3o, foi lenta, mas parece-me que segura. Exigiu muita paci\u00eancia da catequista, n\u00e3o s\u00f3 para ensinar e para me acompanhar na descoberta de Cristo, mas com certeza para aturar a irrever\u00eancia e talvez o atrevimento provocados pela minha total ignor\u00e2ncia. O esp\u00edrito crist\u00e3o e as bases s\u00f3lidas em que assentava o seu cristianismo foram conseguindo o milagre e principalmente o amor pelo aluno. A minha catequista era a Eneida, que teve de suportar a minha falta de sensibilidade para muitos assuntos da Igreja e, quantas vezes, os ditos inconvenientes do meu pai. Penso que ainda tenho escritos em bocadinhos de papel o Pai-Nosso e a Av\u00e9-Maria, a Confiss\u00e3o e o Acto de Contri\u00e7\u00e3o. E eu l\u00e1 ia acompanhando a mi\u00fada \u00e0 missa dominical. E o meu cora\u00e7\u00e3o abria-se ao mesmo tempo, e com igual intensidade, para Cristo e para a Eneida. Um dia, acompanhou-me a uma capelinha do Semin\u00e1rio, nas instala\u00e7\u00f5es das freiras, onde me confessei pela primeira vez ao Sr. P.e Jo\u00e3o Paulo Ramos. Teria uns dezoito anos. Logo a seguir, comunguei pela primeira vez. Por vezes, d\u00e1-me para pensar: que teria sido a minha vida sem a Eneida? Que caminhos teria eu percorrido? De que crit\u00e9rios me teria servido para, em todas as encruzilhadas da vida, poder escolher sempre o caminho do bem, da honra, da toler\u00e2ncia, do amor? Sei que muitas vezes n\u00e3o terei escolhido o caminho que Cristo estava \u00e0 espera que eu seguisse. Mas sei que tenho tido sempre o discernimento de reconhecer que o caminho n\u00e3o deveria ter sido aquele, e consegui ter a humildade de me penitenciar. Tudo o que fiz de mal na minha caminhada para Cristo foi por minha insufici\u00eancia. Tudo o que tenho feito de bom, devo-o a Cristo, a muitos amigos e \u00e0 Igreja. Mas no in\u00edcio e por todos os caminhos desta vida j\u00e1 com muitos anos esteve sempre a Eneida. Cas\u00e1mos na Igreja de Jesus, mesmo ao lado da nossa casa, fomos cumprindo com os preceitos mais rudimentares da Igreja, educ\u00e1vamos os nossos filhos como crist\u00e3os, e como crist\u00e3os lid\u00e1vamos com a vida e com as pessoas mais pr\u00f3ximas. Estou convencido de que mais tarde ou mais cedo me teria afastado da Igreja devido ao ram-ram em que a minha pr\u00e1tica crist\u00e3 se estava a tornar. \u00c9 verdade que eu tinha um p\u00e9 dentro da Igreja, na pr\u00e1tica dominical, na amizade com alguns sacerdotes, no conv\u00edvio com vizinhos que frequentavam a S\u00e9 ao Domingo. Mas ia sentindo cada vez mais que o resto do meu corpo estava fora.<\/p>\n<p>O Conc\u00edlio <\/p>\n<p>e os Cursos de Cristandade<\/p>\n<p>Tive a felicidade de participar em dois enormes tremores de terra que abanaram a Igreja desde os seus mais profundos alicerces e que me fizeram andar aos saltos como uma bilharda batida por potente bast\u00e3o. Dois tremores de terra quase coincidentes no tempo. O primeiro foi a abertura  do Conc\u00edlio Vaticano Segundo, a 11 de Outubro de 1962. Passados cerca de dois anos, Cristo pegou em mim e atirou-me para o n\u00facleo do outro tremor de terra: o terceiro Curso de Cristandade da Diocese de Aveiro, de 10 a 13 de Junho de 1964. E nunca mais nada foi como era: a minha vida, a nossa vida, passou a ser um turbilh\u00e3o. \u00c0s vezes at\u00e9 t\u00ednhamos dificuldade para respirar. O Conc\u00edlio veio dizer-me que os padres conciliares \u201creconhecem perfeitamente quanto os leigos contribuem para o bem de toda a Igreja. (\u2026). Aos leigos compete, por voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, buscar o reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus. (\u2026) Os leigos s\u00e3o chamados, de modo especial, a tornar presente e operante a Igreja naqueles lugares e circunst\u00e2ncias onde Ela s\u00f3 por meio deles pode vir a ser sal da terra. Assim, todo o leigo por virtude dos dons que recebeu, \u00e9 testemunha e ao mesmo tempo instrumento vivo da pr\u00f3pria miss\u00e3o da Igreja, segundo a medida do dom de Cristo\u201d.<\/p>\n<p>E muito mais. Comecei a entender e a assumir que n\u00e3o estava e n\u00e3o estou na Igreja para ser tolerado. Para ser tolerado pelo Bispo ou pelos sacerdotes, e muito menos para os reverenciar servilmente. Estava e estou na Igreja porque fa\u00e7o parte dela. A minha miss\u00e3o na Igreja sou eu que a tenho de desempenhar. O que eu tenho que fazer na Igreja e no mundo, se n\u00e3o o fizer, ficar\u00e1 eternamente por fazer. Mas sei que aquilo que Deus quer que eu fa\u00e7a eu sou capaz de o fazer. E \u00e0 medida que fui compreendendo a minha fun\u00e7\u00e3o na Igreja de Cristo passei a estar dentro dela com os dois p\u00e9s, com todo o corpo, com o cora\u00e7\u00e3o inteiro. <\/p>\n<p>Depois do princ\u00edpio do terramoto, o Conc\u00edlio, veio o golpe final, os Cursos de Cristandade. Um dia um amigo convidou-me a participar num Curso de Cristandade. Depois de ter usado de todos os argumentos para provar que n\u00e3o precisava de participar em tal curso, algo foi mais forte do que eu. Quando dei por ela, l\u00e1 estava eu no 3.\u00ba Curso de Cristandade da Diocese de Aveiro, numa casa de religiosas na Praia de Mira. Tinha 28 anos. Estava casado havia tr\u00eas anos. Praticava desporto ainda intensamente. Estava metido e comprometido no mundo, no meio dos homens. Considerava-me um homem, muito homem. O desporto tinha-me dado uma maneira de ser de grande dom\u00ednio das situa\u00e7\u00f5es e uma personalidade muito forte. A Igreja era para as mulheres, ou para homens um pouco efeminados\u2026 Passei os tr\u00eas dias do Curso carregado de d\u00favidas e com um agu\u00e7ad\u00edssimo esp\u00edrito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a tudo que se ia passando. Que raio estou aqui a fazer? N\u00e3o sei quando, nem sei como. S\u00f3 sei que, aos poucos, por fases, fui descobrindo que ser crist\u00e3o era para homens e mulheres, com letra grande. Ser verdadeira e autenticamente qualquer coisa exige grande capacidade de discernimento, muita coragem para se impor no meio em que se vive. S\u00f3 um banana, dizendo que sim aqui e que n\u00e3o acol\u00e1 sobre o mesmo assunto, n\u00e3o sendo capaz de impor as ideias em que acredita, n\u00e3o sente a mais pequena dificuldade. Acabaram-se os tr\u00eas dias. A Eneida e eu fomos conversando. Fui assentando ideias, e aos poucos comecei a entender que foi Cristo que me marcou para ir a um Curso de Cristandade. Fui percebendo que se eu fosse melhor, o mundo seria melhor, os meus amigos poderiam ser melhores, as equipas onde eu praticava desporto poderiam ser melhores, os meus colegas poderiam ser melhores, a minha mulher, os meus filhos, toda a fam\u00edlia poderia ser melhor. Aos poucos fui assumindo que Cristo esperava muito de mim. E como diz uma can\u00e7\u00e3o em voga, \u201centreguei-me todo a Cristo\u201d. E entreguei-me todo a Cristo, exactamente como sou: fazendo um esfor\u00e7o di\u00e1rio por ser melhor  e mais cumpridor, \u00e9 verdade, mas sempre com a preocupa\u00e7\u00e3o de usar de toda a frontalidade com as pessoas, e por isso sendo muitos vezes injusto e arrogante com as pessoas. Sempre com a preocupa\u00e7\u00e3o de ser verdadeiro at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, mas faltando \u00e0s vezes \u00e0 caridade para com os outros. Entreguei-me todo a Cristo, com a alma muitas vezes amargurada por ter a consci\u00eancia de errar tantas vezes e de nem sempre fazer tudo para deixar de errar com tanta frequ\u00eancia. Mas tenho a certeza de que Cristo ter\u00e1 sempre os bra\u00e7os abertos para me receber. Ao transmitir-vos agora estas recorda\u00e7\u00f5es, ao rebuscar no ba\u00fa das minhas mem\u00f3rias, estou a fazer uma esp\u00e9cie de balan\u00e7o \u00e0 minha vida. Penso e espero que o saldo seja positivo.<\/p>\n<p>As minhas preocupa\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas<\/p>\n<p>Algum tempo depois do meu Curso de Cristandade, a Eneida fez o dela. N\u00e3o se realizavam ainda Cursos para Senhoras em Aveiro, pelo que fez o seu no Porto. Pouco tempo depois chamaram-nos, aos dois, para a escola de dirigentes dos Cursos de Cristandade e pass\u00e1mos a fazer parte das equipas orientadoras. Fui dirigente, pel primeira vez, no 10.\u00ba curso. Se n\u00e3o me engano, a Eneida fez o primeiro curso como dirigente ao 17.\u00ba. E depois perdi-lhes a conta: como dirigente e como reitor.Estivemos os dois no Secretariado Diocesano dos C.C. e depois, durante uma s\u00e9rie de anos, fui chamado para Presidente do Secretariado Diocesano. Entretanto fomos assumindo compromissos de v\u00e1ria ordem a chamamento do Bispo, do P\u00e1roco, de sacerdotes de outras par\u00f3quias e tamb\u00e9m de outras organiza\u00e7\u00f5es da Igreja. Colabor\u00e1mos activamente na nossa par\u00f3quia com o P.e Arm\u00e9nio e o P.e Jo\u00e3o Gon\u00e7alves. Tantas vezes estes dois sacerdotes me ajudaram a ultrapassar d\u00favidas e arrependimentos! Foram dois grandes amigos. Com eles passei, pass\u00e1mos por todos os servi\u00e7os paroquiais imagin\u00e1veis: o arranque dos cortejos do Carnaval, as comiss\u00f5es fabriqueiras, as obras, as catequeses, os conv\u00edvios de Ver\u00e3o, os cursos de prepara\u00e7\u00e3o para o Matrim\u00f3nio a remodela\u00e7\u00e3o da catedral com o P.e Arm\u00e9nio, a constru\u00e7\u00e3o da resid\u00eancia paroquial. E fui treinador de andebol de uma equipa do Semin\u00e1rio. E que boa equipa conseguimos fazer! E andei por toda a Diocese a \u201cpregar\u201d a mando de D. Manuel de Almeida Trindade. Este senhor bispo ouviu-me tantas vezes nos tempos conturbad\u00edssimos do p\u00f3s 25 de Abril. <\/p>\n<p>Nestes 50 anos dos Cursos de Cristandade, n\u00e3o pude deixar de recordar o que tem sido a minha vida. E n\u00e3o posso deixar de ter um sentimento de gratid\u00e3o para com Cristo, que um dia me atirou para um Curso de Cristandade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Testemunho<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-2405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2405"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2405\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}