{"id":24176,"date":"2013-02-21T12:02:00","date_gmt":"2013-02-21T12:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=24176"},"modified":"2013-02-21T12:02:00","modified_gmt":"2013-02-21T12:02:00","slug":"a-mercearia-do-senhor-samico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-mercearia-do-senhor-samico\/","title":{"rendered":"A mercearia do senhor Samico"},"content":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 8 <!--more--> N\u00e3o sei se se poderia chamar de bairro da Fonte dos Amores ao conjunto de casas e seus habitantes que rodeavam aquele lugar m\u00e1gico da minha meninice. H\u00e1 fotografias desse s\u00edtio t\u00e3o bonito: a fonte propriamente dita onde se ia buscar a \u00e1gua para consumo dom\u00e9stico, transportada em c\u00e2ntaros de barro vermelho \u00e0 cabe\u00e7a de donairosas jovens; os tanques onde se lavava a roupa de meia-Aveiro; o relvado, sempre verdinho, onde se punha a roupa a corar.<\/p>\n<p>A casinha da dona Carolina, em cuja soleira eu me sentava a ver a rapaziada a brincar, a correr, a planear a \u201cpenhora\u201d da melhor fruta das redondezas. A casinha dos pais do meu amigo Jos\u00e9 J\u00falio, por detr\u00e1s da fonte. A correnteza de t\u00e9rreas casinhas, caiadinhas de branco, cada uma com a sua porta pintada de cor garrida e cada janela emoldurada a condizer, na travessa da Fonte dos Amores, conforme ainda hoje se pode ler numa sua esquina.<\/p>\n<p>Eram fam\u00edlias humildes, com um enorme orgulho na sua humildade. A vizinhan\u00e7a era mais do que viver paredes-meias; era solidariedade na sua forma mais sublime, mais acabada. Foi neste cadinho de emo\u00e7\u00f5es em que as necessidades de subsist\u00eancia mais b\u00e1sicas eram argamassadas, que a minha fam\u00edlia, sob a batuta segur\u00edssima da sua matriarca, a minha av\u00f3 Joaninha, a vi\u00fava do senhor Gaspar, me foi moldando. Os meus irm\u00e3os, o Zeca e a Joaninha, herdeira do nome da nossa av\u00f3, viveram a maior parte desse tempo em Lisboa, com a minha m\u00e3e Mariazinha, enquanto o meu pai andou ao mar. Durante o per\u00edodo da segunda grande guerra, o meu pai foi mobilizado para a marinha de guerra, prestando servi\u00e7o com base no Alfeite; depois, come\u00e7ou a andar em navios do com\u00e9rcio. Mas n\u00e3o por muito tempo. Quando o meu pai \u201cdeu o salto\u201d, em Nova Iorque, como emigrante ilegal, a minha m\u00e3e e os meus irm\u00e3os voltaram para Aveiro, para a \u00fanica casa que a todos podia abrigar: a da senhora Joaninha do Gaspar, a nossa av\u00f3. Eu tinha nove anos.<\/p>\n<p>\u00c9 do per\u00edodo em que fiquei sozinho, sem os meus irm\u00e3os, que eu guardo as melhores recorda\u00e7\u00f5es. Foi o tempo da minha escola prim\u00e1ria. Era o neto que estava \u00e0 m\u00e3o, pau para todos os recados, mas tamb\u00e9m objeto de carinhos que se n\u00e3o distribu\u00edam por mais nenhum neto ou sobrinho.<\/p>\n<p>Isto de ter um pai ausente tem o que se lhe diga. A minha m\u00e3e nunca teve aquilo a que pode chamar de casa pr\u00f3pria. Eu nasci no beco das Galinheiras, na Travessa de S. Sebasti\u00e3o, possivelmente na mesma casa onde, anteriormente, ter\u00e1 nascido o meu grande amigo, o artista pl\u00e1stico Jeremias Bandarra. O meu irm\u00e3o Jos\u00e9 Lu\u00eds, j\u00e1 veio a nascer na Rua Direita, oficialmente na rua dos Combatentes da Grande Guerra. E a minha irm\u00e3 Joana, na rua de \u00cdlhavo, atualmente rua do Dr. M\u00e1rio Sacramento, mesmo em frente ao posto da Pol\u00edcia de Via\u00e7\u00e3o e Tr\u00e2nsito, hoje desaparecido. Isto tudo, sempre debaixo da telha da av\u00f3 Joaninha, e sempre, todos n\u00f3s, pela m\u00e3o da mesma parteira: a Dona Ang\u00e9lica. <\/p>\n<p>Aqueles meus cinco anos da Fonte dos Amores, dos quatro aos nove anos, quase que fizeram de mim filho \u00fanico, neto \u00fanico. E a conviv\u00eancia que consegui estabelecer com a rapaziada daquele meu bairro \u00e9, sem d\u00favida, a que mais me marcou. Muitas hist\u00f3rias ainda poderei recuperar, bem significativos da vida de pen\u00faria que se teve de suportar.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias, encontrei a Dra. Aurora Breda, neta do sr. Samico, dono da melhor mercearia do bairro. E aquela senhora, que eu conheci beb\u00e9, lembrou-me quanto avan\u00e7ada para a \u00e9poca era a mercearia do seu av\u00f4. Os sacos de papel pardo onde se metiam os artigos j\u00e1 levavam impressa apelativa publicidade que ela me fez recordar. A legenda da gravura de uma patroa a puxar a orelha \u00e0 criada rezava assim: \u201cOh Joaquina! Eu n\u00e3o te disse para ires fazer as compras ao Samico, onde tudo \u00e9 bom e mais barato?!\u201d <\/p>\n<p>Era nessa mesma mercearia que a minha av\u00f3 tamb\u00e9m se aviava e, normalmente, era eu que ia l\u00e1 buscar o que era necess\u00e1rio para o governo da casa. Nunca levava dinheiro; era tudo para assentar no livro, isto \u00e9, tudo fiado. Contas, contas, era com a minha tia Florize que ao fim do m\u00eas l\u00e1 ia pagar o que se devia. Quando a minha irm\u00e3 nasceu, todos ficaram espantados. O beb\u00e9 era grande e rechonchudo. A minha tia foi logo pes\u00e1-la na balan\u00e7a do sr. Samico e, para g\u00e1udio de todos os presentes, a crian\u00e7a valia 5,750 kg! <\/p>\n<p>A not\u00edcia correu de boca em boca e quase que houve festa no bairro.<\/p>\n<p>Enfim: coisas pequenas essas que se transformavam em grande alegria capaz de fazer esquecer, ainda que momentaneamente, as amarguras desses dias t\u00e3o dif\u00edceis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolores &#8211; 8<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-24176","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}