{"id":24727,"date":"2014-03-25T17:20:15","date_gmt":"2014-03-25T17:20:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=24727"},"modified":"2014-03-25T17:20:15","modified_gmt":"2014-03-25T17:20:15","slug":"gota-a-gota-aguar-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/gota-a-gota-aguar-a-vida\/","title":{"rendered":"Gota a gota, aguar a vida"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_24407\" aria-describedby=\"caption-attachment-24407\" style=\"width: 180px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-24407 \" alt=\"Joana Portela M\u00e3e e Revisora de Texto\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela.jpg\" width=\"180\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela.jpg 300w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24407\" class=\"wp-caption-text\">Joana Portela<br \/>M\u00e3e e Revisora de Texto<\/figcaption><\/figure>\n<p>Eu e \u00e1gua<\/p>\n<p>A \u00e1gua arrepiada pelo vento<br \/>\nA \u00e1gua e seu cochicho<br \/>\nA \u00e1gua e seu rugido<br \/>\nA \u00e1gua e seu sil\u00eancio<br \/>\nA \u00e1gua me contou muitos segredos<br \/>\nGuardou os meus segredos<br \/>\nRefez os meus desenhos<br \/>\nTrouxe e levou meus medos<br \/>\nGrande m\u00e3e me viu num quarto cheio d\u2019\u00e1gua<br \/>\nNum enorme quarto lindo e cheio d\u2019\u00e1gua<br \/>\nE eu nunca me afogava<br \/>\nO mar total e eu dentro do eterno ventre<br \/>\nE a voz de meu pai, voz de muitas \u00e1guas<br \/>\nDepois o rio passa<br \/>\nEu e \u00e1gua, eu e \u00e1gua, eu&#8230;<br \/>\nCachoeirinha, lago, onda, gota<br \/>\nChuva mi\u00fada, fonte, neve, mar<br \/>\nA vida que me \u00e9 dada, eu e \u00e1gua<br \/>\nA \u00e1gua lava as mazelas do mundo<br \/>\nE lava a minha alma, lava minha alma<\/p>\n<p><strong>Caetano Veloso, <\/strong><br \/>\n<strong>na voz de Maria Beth\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_24728\" aria-describedby=\"caption-attachment-24728\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/gota.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24728\" alt=\"\u00c1gua, Nizar, 2008\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/gota.jpg\" width=\"300\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/gota.jpg 300w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/gota-214x300.jpg 214w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24728\" class=\"wp-caption-text\">\u00c1gua, Nizar, 2008<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cPor vezes sentimos que aquilo que fazemos n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma gota de \u00e1gua no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.\u201d Esta sabedoria l\u00edmpida de Madre Teresa de Calcut\u00e1 seria um \u00f3ptimo bote para as mar\u00e9s de reflex\u00e3o que se esperam, com as crian\u00e7as, no pr\u00f3ximo Dia Mundial da \u00c1gua, a 22 de Mar\u00e7o. Al\u00e9m de ser, claro, um fecundo princ\u00edpio de vida a transmitir, de onde em onda, a esses orvalhos do amanh\u00e3.<br \/>\nComecemos por recordar a n\u00f3s mesmos que, neste Planeta Azul, 768 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel; que, em todo o mundo, 1400 crian\u00e7as morrem, a cada dia, de doen\u00e7as diretamente relacionadas com \u00e1gua contaminada; que em muitas regi\u00f5es do globo a \u00e1gua para beber \u00e9 mais cara que petr\u00f3leo. Lembremos que a procura mundial de \u00e1gua vai aumentar 55% em 2050, com mais de 40% da popula\u00e7\u00e3o a viver em bacias hidrogr\u00e1ficas amea\u00e7adas pelo stress h\u00eddrico. Que Portugal, com um consumo anual de 2505 metros c\u00fabicos per capita, tem uma das pegadas h\u00eddricas mais elevadas, ocupando a 6\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 140 pa\u00edses. No entanto, n\u00f3s, que vivemos neste \u201cjardim da Europa \u00e0 beira-mar plantado\u201d, aben\u00e7oado por frescas fontes e rios doces, nem sempre estamos cientes desta realidade: a \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 um bem escasso e limitado, que tantas vezes por dia jorra caudaloooosamente \u2013 mas n\u00e3o cautelosamente \u2013 pelas nossas torneiras fora.<br \/>\nMuitas vezes, os maus exemplos v\u00eam de cima. Na piscina municipal coberta que serve as crian\u00e7as e escolas do concelho onde resido, o desgovernado desperd\u00edcio de \u00e1gua \u00e9 profundamente deseducativo. Um aviso afixado na zona dos chuveiros adverte: \u201cDeixe correr a \u00e1gua durante 3 minutos antes de tomar duche\u201d. \u00c9 por quest\u00f5es de seguran\u00e7a, mas obviamente n\u00e3o podia ser esta a aquosa (dis)solu\u00e7\u00e3o. Os chuveiros n\u00e3o t\u00eam torneira de \u00e1gua fria! E a \u00e1gua quente jorra, nos longos minutos iniciais, a uma temperatura insuport\u00e1vel. \u00c0 vista nua e aprendiz das crian\u00e7as, desperdi\u00e7am-se, ralo abaixo, rios e rios de \u00e1gua quente \u2013 limpa, intoc\u00e1vel, perdul\u00e1ria. Num pa\u00eds que n\u00e3o nada em dinheiro, mas parece nadar em \u00e1gua ilimitada, acredito que os bons exemplos ter\u00e3o mesmo de vir de baixo, em contracorrente.<br \/>\nUma educa\u00e7\u00e3o para a \u00e1gua, orientada para os mais novos, pode fazer-se de muitas formas. E algumas s\u00e3o gestos bem simples, pois as crian\u00e7as s\u00e3o bastante perme\u00e1veis \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dos recursos, se iniciada desde cedo e de forma continuada. L\u00e1 em casa, os mi\u00fados levam muito a s\u00e9rio (e at\u00e9 com excesso de zelo) as suas fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas: o mais velho \u00e9 respons\u00e1vel por fechar todas as luzes desnecessariamente acesas; a mais nova, qual Quincas Berro d\u2019\u00c1gua, por gritar o alerta \u201ctanta \u00e1\u00e1\u00e1\u00e1\u00e1gua!\u201d quando as torneiras jorram mais do que o suficiente. Talvez uma gota a menos na torneira seja amanh\u00e3 uma gota a mais no mar de Madre Teresa.<br \/>\nUma reflex\u00e3o sobre a \u00e1gua, com as crian\u00e7as em idade escolar, poderia partir, por exemplo, do estudo\/c\u00e1lculo da pegada h\u00eddrica pessoal, nacional e mundial. Ou podemos levar a \u00e1gua ao moinho de outra forma, a partir do pr\u00f3prio verbo aguar: como verbo transitivo, significa \u201cencher de \u00e1gua, regar\u201d; como verbo intransitivo, significa \u201csentir grande desejo, desejar ardentemente comer ou beber alguma coisa\u201d. E, afinal, atrav\u00e9s do Estudo do Meio, da Matem\u00e1tica ou do Portugu\u00eas, desaguaremos na mesma conclus\u00e3o: o mundo divide-se entre aqueles que disp\u00f5em de tanta \u00e1gua que podem, gozosamente, regar a vida e aqueles que, ardentemente, continuam aguando por \u00e1gua, por vida. A vida que me \u00e9 dada, eu e \u00e1gua\u2026<br \/>\nA \u00e1gua lava as mazelas do mundo. Temos \u00e1gua, temos vida, temos gente. Que nos falta para lavar as mazelas do mundo? Vontade de ser gota? Sugiro que mergulhemos na Internet, com os mi\u00fados mais velhos, para pesquisar a ac\u00e7\u00e3o de alguns adolescentes que, com os seus exemplos gota a gota, est\u00e3o a ser fonte de vida: Mariah Smiley (\u201cJovem de 18 anos leva \u00e1gua pot\u00e1vel a pa\u00edses pobres\u201d); Deepika Kurup (\u201cGarota de 14 anos inventa purificador de \u00e1gua revolucion\u00e1rio\u201d); Boyan Slat (\u201cJovem de 19 anos cria sistema que remove pl\u00e1stico dos oceanos\u201d). E, para aprofundar, lavemos todos a alma com o conto \u201cA cidade dos po\u00e7os\u201d, dispon\u00edvel no site \u201cHist\u00f3rias em Portugu\u00eas\u201d. Eu e \u00e1gua, eu e \u00e1gua, eu\u2026<br \/>\nCachoeirinha, lago, onda, gota \/ Chuva mi\u00fada, fonte, neve, mar e o ciclo da \u00e1gua a rimar com remar. Para os mais pequenos, duas sugest\u00f5es de leitura: A Menina Gotinha de \u00c1gua (Campo das Letras) e Amiga \u00c1gua, de Jos\u00e9 Jorge Letria e Andr\u00e9 Letria. Para os mais velhos, prescreve-se um copo de \u00c1gua com Humor (ASA), ao iniciar o dia. Para fam\u00edlias e escolas, o desafio de uma visita: ao Museu da \u00c1gua, em Lisboa; ao Pavilh\u00e3o da \u00c1gua, no Porto; ou ao Fluvi\u00e1rio de Mora, no Alentejo. E, na viagem, nada melhor que ouvir a senhora das \u00e1guas, Maria Beth\u00e2nia, cantando Dentro do Mar Tem Rio\u2026<br \/>\nA valoriza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua pode come\u00e7ar ainda mais a montante, atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o local e transdisciplinar da bacia hidrogr\u00e1fica. Com a Primavera acabada de chegar, que mi\u00fado n\u00e3o quer os p\u00e9s molhar? E, para deixar \u00e1gua na boca, aqui ficam dois document\u00e1rios inspiradores, de jovens portugueses, que bem podiam ter sido inclu\u00eddos no recente Plano Nacional de Cinema: o premiad\u00edssimo \u201cMondego\u201d, de Daniel Pinheiro, e o \u201cVale do Tua\u201d, de Ant\u00f3nio Castelo e Ant\u00f3nio Vasconcelos. Depois o rio passa e vemos \u00e0 transpar\u00eancia aquela verdade l\u00edquida do escritor Guimar\u00e3es Rosa: \u201cPerto de muita \u00e1gua, tudo \u00e9 feliz.\u201d<br \/>\nPara o Dia Mundial da \u00c1gua, o desafio para mi\u00fados e gra\u00fados \u00e9 este: ser feliz, \u00e0 beira-rio, \u00e0 beira-mar, \u00e0 beira-lago, ou \u00e0 chuva, escutando\u2026<br \/>\nA \u00e1gua arrepiada pelo vento<br \/>\nA \u00e1gua e seu cochicho<br \/>\nA \u00e1gua e seu rugido<br \/>\nA \u00e1gua e seu sil\u00eancio<br \/>\n\u2026 e sentindo crescer a sede de ser gota.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu e \u00e1gua A \u00e1gua arrepiada pelo vento A \u00e1gua e seu cochicho A \u00e1gua e seu rugido A \u00e1gua e seu sil\u00eancio A \u00e1gua me contou muitos segredos Guardou os meus segredos Refez os meus desenhos Trouxe e levou meus medos Grande m\u00e3e me viu num quarto cheio d\u2019\u00e1gua Num enorme quarto lindo e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-24727","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24727","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24727"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24727\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24729,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24727\/revisions\/24729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24727"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24727"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24727"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}