{"id":2504,"date":"2010-09-29T09:18:00","date_gmt":"2010-09-29T09:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2504"},"modified":"2010-09-29T09:18:00","modified_gmt":"2010-09-29T09:18:00","slug":"em-portugal-somos-poucos-a-tocar-instrumentos-de-corda-antigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/em-portugal-somos-poucos-a-tocar-instrumentos-de-corda-antigos\/","title":{"rendered":"&#8220;Em Portugal somos poucos a tocar instrumentos de corda antigos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Tiago Matias, professor de M\u00fasica na Escola de Artes da Bairrada e no Conservat\u00f3rio de Aveiro e maestro-adjunto do Coro da S\u00e9 de Aveiro, \u00e9 um dos poucos especialistas portugueses em instrumentos de corda antigos. Integra, por isso, o projecto musical Sete L\u00e1grimas, um grupo de m\u00fasica antiga com incurs\u00f5es pela m\u00fasica contempor\u00e2nea que lan\u00e7ou recentemente o quinto \u00e1lbum. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA \u2013 O grupo Sete L\u00e1grimas est\u00e1 sedeado em Lisboa. Como passou a integrar o colectivo?<\/p>\n<p>TIAGO MATIAS \u2013 O projecto existe h\u00e1 11 anos, primeiro com outro nome. Agora chama-se Sete L\u00e1grimas e j\u00e1 editou cinco discos. O nome foi retirado de uma composi\u00e7\u00e3o do m\u00fasico ingl\u00eas John Dowland (1563\u20131626), \u201cSeven tears\u201d. O grupo \u00e9 liderado por Filipe Faria e S\u00e9rgio Peixoto, directores art\u00edsticos do projecto. Ele entraram em contacto comigo para gravar o segundo disco, mas na altura n\u00e3o pude e n\u00e3o participei. A partir do terceiro disco, \u201cDi\u00e1spota.pt\u201d, j\u00e1 pude e fa\u00e7o um grande esfor\u00e7o para poder.<\/p>\n<p>Convidaram-no porque \u00e9 especialista em m\u00fasica antiga\u2026<\/p>\n<p>Tenho a sorte \u2013 ou melhor, n\u00e3o \u00e9 sorte, \u00e9 uma aposta minha \u2013 de estar a especializar-me  em instrumentos de m\u00fasica antiga. \u00c9 o caso da tiorba, do ala\u00fade e das guitarras antigas. Em Portugal seremos uns quatro a tocar estes instrumentos. Foi uma aposta boa porque j\u00e1 tinha estado a tocar com v\u00e1rios grupos de Lisboa. Eles viram-me e convidaram-me.<\/p>\n<p>Porqu\u00ea esse gosto por instrumentos antigos?<\/p>\n<p>Fiz o curso de Guitarra, acabado em 2005, mas desde o meio do curso que j\u00e1 sabia que iria enveredar pela m\u00fasica antiga, por quest\u00e3o de gosto e porque vi que era uma boa hip\u00f3tese de estar a tocar mais e a participar em mais projectos.<\/p>\n<p>Um dos instrumentos que toca \u00e9 a tiorba\u2026<\/p>\n<p>Sim, um instrumento que nasceu em It\u00e1lia, mas existiu em toda a Europa, inclusive em Portugal. V\u00e1rios manuscritos provam a exist\u00eancia do instrumento por c\u00e1. Era muito usado nos s\u00e9culos XVII e XVIII, entre 1600 e 1750\u2026<\/p>\n<p>O que \u00e9 espec\u00edfico da tiorba? As composi\u00e7\u00f5es para a guitarra s\u00e3o tamb\u00e9m para a tiorba?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Estamos a falar de instrumentos antepassados da guitarra. A guitarra que hoje conhecemos surgiu no s\u00e9c. XIX, por volta 1840. Houve v\u00e1rios instrumentos que lhe deram origem: o ala\u00fade, a tiorba, a violela\u2026 No caso da tiorba, a principal caracter\u00edstica \u00e9 que tem um \u00e2mbito muito grave e mais cordas: 14. \u00c9 um instrumento grande, d\u00e1 mais volume do que a guitarra.<\/p>\n<p>Os Sete L\u00e1grimas editaram h\u00e1 dois meses \u201cPedra Irregular\u201d e preparam-se para lan\u00e7ar \u201cVento\u201d, em Novembro. \u00c9 necess\u00e1rio um grande esfor\u00e7o para conciliar carreiras individuais com um projecto colectivo\u2026<\/p>\n<p>Somos todos m\u00fasicos de profiss\u00e3o. H\u00e1 um n\u00facleo central dos dois fundadores, depois um grupo mais alargado de tr\u00eas ou quatro que participa em todos os projectos, em que me incluo, e depois h\u00e1 m\u00fasicos que v\u00eam de fora, tudo gente ligada \u00e0 m\u00fasica, incluindo um ingl\u00eas e um ucraniano, residentes em Portugal.<\/p>\n<p>Trabalhamos em fun\u00e7\u00e3o de projectos. Vamos ter uma semana de ensaios antes de irmos a Espanha, em Dezembro, e depois trabalhamos duas semanas em Janeiro para gravar o sucessor de \u201cVento\u201d. O trabalho \u00e9 feito em Lisboa, mas o projecto tem m\u00fasicos de Braga, Porto e de Aveiro \u2013 o meu caso. \u00c9 um grupo nacional, embora com sede em Lisboa.<\/p>\n<p>\u201cDi\u00e1spora.pt\u201d foi o primeiro CD em que participou, em 2008. Depois saiu \u201cSil\u00eancio\u201d, em 2009, e \u201cPedra Irregular\u201d, este ano. Segue-se \u201cVento\u201d, em Novembro, e \u201cEn tus brazos una noche\u201d, em 2011. H\u00e1 uma componente religiosa em alguns destes discos\u2026<\/p>\n<p>Dos cinco discos que j\u00e1 sa\u00edram, os dois \u00faltimos e o que vai sair em Novembro s\u00e3o de m\u00fasica exclusivamente religiosa. Todos os discos seguem um conceito. O \u00faltimo disco, \u201cPedra Irregular\u201d, \u00e9 composto por m\u00fasica de compositores portugueses do s\u00e9c. XVIII, sendo Carlos Seixas o mais conhecido. Chama-se \u201cPedra Irregular\u201d, porque \u00e9 isso que significa a palavra portuguesa \u201cbarroco\u201d, que deu nome a este per\u00edodo musical e art\u00edstico dos s\u00e9culos XVII e XVIII.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo disco, \u201cVento\u201d, \u00e9 uma Missa de Pentecostes de Jo\u00e3o Madureira (n. 1971), um compositor contempor\u00e2neo portugu\u00eas. Mas o disco que vamos gravar em Janeiro de 2011, j\u00e1 n\u00e3o tem este car\u00e1cter. Baseia-se na m\u00fasica de um compositor portugu\u00eas do s\u00e9c. XVII, Manuel Machado.<\/p>\n<p>E quanto a \u201cSil\u00eancio\u201d e \u201cDi\u00e1spora.pt\u201d?<\/p>\n<p>\u201cSil\u00eancio\u201d \u00e9 um projecto muito interessante porque \u00e9 com m\u00fasica de tr\u00eas autores de pa\u00edses diferentes: Jo\u00e3o Madureira (n.1971), portugu\u00eas, cat\u00f3lico; Ivan Moody (n. 1964), ortodoxo; e Andrew Smith (n. 1970), protestante. Baseia-se em textos religiosos populares e em textos da Paix\u00e3o e dos livros b\u00edblicos do G\u00e9nesis e das Lamenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cDi\u00e1spora.pt\u201d \u00e9 um disco com m\u00fasica que os portugueses inspiraram por onde passaram: Brasil, Cabo Verde, \u00cdndia, Timor\u2026 Trata-se de m\u00fasica dos s\u00e9culos XVII, XVIII e XIX, cantada com as pron\u00fancias dos respectivos pa\u00edses. Temos sempre um conceito por tr\u00e1s de cada disco. N\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica feita \u00e0 press\u00e3o.<\/p>\n<p>Diz-se que os CD vendem-se cada vez menos, por causa das c\u00f3pias ilegais e dos downloads ilegais da Internet. Os discos dos \u201cSete L\u00e1grimas\u201d vendem bem?<\/p>\n<p>N\u00f3s apostamos num nicho que \u00e9 o da m\u00fasica antiga e contempor\u00e2nea tocada em instrumentos antigos, tiorbas, ala\u00fades, violas de gamba. A especificidade do grupo \u00e9 essa. Podemos dizer que os discos vendem bem. \u201cDi\u00e1spora.pt\u201d esteve em n\u00famero dois do top de Fnac, na vertente jazz e cl\u00e1ssica, cerca de meio ano, o que \u00e9 muito bom. Mas \u00e9 preciso notar que o projecto \u201cSete L\u00e1grimas\u201d tem o apoio financeiro do Minist\u00e9rio da Cultura.<\/p>\n<p>\u00c0 partida as pessoas que ouvem este tipo de m\u00fasica n\u00e3o fazem downloads ilegais\u2026<\/p>\n<p>Isso \u00e9 verdade. \u00c9 um p\u00fablico que se preocupa em comprar o CD. Por falar em Internet, temos um s\u00edtio em www.setelagrimas.com.<\/p>\n<p>O jornal \u201cP\u00fablico\u201d escreveu sobre o projecto o seguinte: \u201cA filia\u00e7\u00e3o dos Sete L\u00e1grimas n\u00e3o \u00e9 a das interpreta\u00e7\u00f5es historicamente informadas, ainda que os seus membros tenham forma\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea e usem instrumentos antigos. \u00c9 antes a da experimenta\u00e7\u00e3o e da proposta de um olhar pr\u00f3prio, como o grupo tem demonstrado atrav\u00e9s de uma original discografia (\u2026)\u201d. Concorda?<\/p>\n<p>Isso est\u00e1 correcto e temos no\u00e7\u00e3o disso. Todos temos conhecimentos de forma a podermos fazer as coisas de um modo \u201chistoricamente informado\u201d. Mas n\u00f3s temos a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fazer assim. Temos uma base, mas seguimos uma liberdade que s\u00f3 se pode ter quando se tem um certo n\u00edvel de conhecimento. No fundo, sabemos como \u00e9, mas escolhemos n\u00e3o fazer desse modo. Mas aten\u00e7\u00e3o que estamos a falar de coisas m\u00ednimas. Temos um grande rigor de partitura. Isto passa-se ao n\u00edvel da escolha de um ou outro instrumento, ou em tocar com a diferen\u00e7a de uma oitava. Mas temos um estilo pr\u00f3prio, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os seus gostos musicais, cl\u00e1ssicos e populares?<\/p>\n<p>Acima de tudo, Bach. Ou\u00e7o mais m\u00fasica antiga, essencialmente barroca. Tamb\u00e9m gosto muito de Monteverdi. Do s\u00e9culo XX, gosto de Mahler, em termos sinf\u00f3nicos, apesar de, com uma guitarra, nunca participar numa sinfonia.<\/p>\n<p>Quando anda de autom\u00f3vel, por exemplo, ouve m\u00fasica pop, ou vai sempre sintonizado na erudita Antena 2?<\/p>\n<p>Ou\u00e7o a TSF, a Renascen\u00e7a, a Antena 1, principalmente por causa da informa\u00e7\u00e3o. Como estou sempre a dar aulas e a estudar m\u00fasica, de carro n\u00e3o ou\u00e7o nem quero ouvir m\u00fasica. S\u00f3 ou\u00e7o a Antena 2 quando h\u00e1 algo que, antecipadamente, sei que quero ouvir.<\/p>\n<p>Nada de m\u00fasica pop?<\/p>\n<p>Gosto de Sting e de Police. Toco baixo num quarteto jazz. Bowling Quartet, c\u00e1 de Aveiro. Jazz cl\u00e1ssico. \u00c9 um gosto em paralelo, para o qual n\u00e3o tenho muito tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tiago Matias, professor de M\u00fasica na Escola de Artes da Bairrada e no Conservat\u00f3rio de Aveiro e maestro-adjunto do Coro da S\u00e9 de Aveiro, \u00e9 um dos poucos especialistas portugueses em instrumentos de corda antigos. 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