{"id":25040,"date":"2014-06-11T09:41:17","date_gmt":"2014-06-11T09:41:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25040"},"modified":"2014-06-11T09:41:17","modified_gmt":"2014-06-11T09:41:17","slug":"os-sonhos-de-novos-e-velhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-sonhos-de-novos-e-velhos\/","title":{"rendered":"Os sonhos de novos e velhos"},"content":{"rendered":"<p>Era bem not\u00f3ria, a desajeitada linguagem de pescador impetuoso e inculto, e com experi\u00eancia directa de que \u00abum peixe fora da \u00e1gua\u00bb n\u00e3o dura muito tempo\u2026<br \/>\nSegundo os \u00abActos dos Ap\u00f3stolos\u00bb, S. Pedro n\u00e3o podia escolher melhor data para produzir \u00aba primeira enc\u00edclica\u00bb: aproveitou uma das tr\u00eas principais festas do juda\u00edsmo (\u00caxodo 23,13-19) \u2013 todas elas marcando os momentos mais importantes da actividade agr\u00edcola: o in\u00edcio (\u00abP\u00e3es \u00e1zimos\u00bb), o fim da ceifa e a colheita (\u00abfesta das tendas\u00bb).<br \/>\nAo princ\u00edpio, a 1.\u00aa festa n\u00e3o tinha liga\u00e7\u00e3o directa com a P\u00e1scoa: com efeito, a oferta de p\u00e3es \u00e1zimos significava apenas a oferta da colheita do trigo \u00abna sua pureza natural\u00bb, sem a interven\u00e7\u00e3o humana do fermento. A data\u00e7\u00e3o a partir do dia de P\u00e1scoa firmou-se com a primeira fus\u00e3o de datas entre a festa dos \u00c1zimos e a da P\u00e1scoa, a que se juntou o sentido da celebra\u00e7\u00e3o da entrega da Lei a Mois\u00e9s.<br \/>\nSete semanas depois (ou 7 semanas depois da P\u00e1scoa), vinha a ceifa, tamb\u00e9m chamada a \u00abfesta das semanas\u00bb. A estes 7&#215;7 dias, seguia-se o dia da festa rija, \u00abo quinquag\u00e9simo (pentekoste, em grego) dia\u00bb, donde o nome de \u00abPentecostes\u00bb.<br \/>\n(Na \u00abfesta das tendas\u00bb, j\u00e1 no Outono, dava-se a apanha das uvas e da azeitona: vivia-se festivamente em cabanas de ramos verdes, lembrando o modo de vida de Israel no deserto).<br \/>\nO Livro do \u00caxodo admoestava todos os israelitas a que n\u00e3o faltassem a estas tr\u00eas grandes peregrina\u00e7\u00f5es. A multid\u00e3o tornava-se t\u00e3o imensa e diversificada, que S. Lucas n\u00e3o teve dificuldade em fazer uma lista quase exaustiva dos povos \u00e0 volta, com l\u00ednguas e costumes diversos. Com muita arte e sabedoria, preparou o cen\u00e1rio em que S. Pedro iria fazer a primeira \u00abcomunica\u00e7\u00e3o universal\u00bb. S. Lucas n\u00e3o hesita em criar um ambiente quase fant\u00e1stico, com os tradicionais s\u00edmbolos de presen\u00e7a divina: l\u00ednguas de fogo, vento, estrondo, e a novidade maravilhosa de as l\u00ednguas humanas falarem o fogo e a aragem de Deus (profecia de Joel, referida em Actos 2,17-21).<br \/>\nO evangelista n\u00e3o poupou as tintas mais fortes para gravar o essencial: a universalidade da miss\u00e3o dos disc\u00edpulos de Jesus Cristo; a supera\u00e7\u00e3o das barreiras lingu\u00edsticas e culturais; a afirma\u00e7\u00e3o de uma comunidade \u00abde esp\u00edrito novo\u00bb perante \u00abo mundo inteiro\u00bb; a ascens\u00e3o de Jesus, lembrando a subida de Mois\u00e9s ao Monte Sinai, mas como Messias chamado por Deus \u00abpara se sentar \u00e0 sua direita\u00bb. E por isso, \u00abo Esp\u00edrito de Jesus\u00bb \u00e9 \u00abo mesmo Esp\u00edrito de Deus\u00bb (2.\u00aa leitura) que, em cada um de n\u00f3s, permite que o dia a dia de cada qual, com seus dissabores, alegrias, \u00f3dios e amores, trabalho e descanso\u2026 anuncie a quantos se cruzam connosco por que \u00e9 que vale a pena viver. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o dos \u00absonhos de novos e velhos\u00bb (Actos 2,17-18), em que todos os seres humanos, sem distin\u00e7\u00e3o, comunicam livremente com Deus, vendo nele a fonte inspiradora da vida com que sonhamos.<br \/>\nS. Pedro falou como um \u00abexpert\u00bb duramente formado na \u00abescola\u00bb de Jesus Cristo, e depois de tra\u00e7ar uma breve mem\u00f3ria da vida e morte do \u00abMestre\u00bb, termina assim: \u00abFoi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto n\u00f3s somos testemunhas. Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai o Esp\u00edrito Santo prometido e derramou-o como vedes e ouvis\u00bb (Actos 2,32-33). O evangelho de Jo\u00e3o, escrito mais tarde, ilustra perfeitamente esta s\u00edntese doutrin\u00e1ria.<br \/>\nMuitos \u00abexperts\u00bb dos v\u00e1rios ramos do saber, especialmente da religi\u00e3o e teologia, t\u00eam tentado explicar o inexplic\u00e1vel, enfrentando os remoinhos da raz\u00e3o, misticismo e sentimentos. N\u00e3o foi em v\u00e3o esse trabalho: no esfor\u00e7o de cada vez mais amplo conhecimento, de cada vez mais raz\u00f5es articuladas, foi-se confirmando como todos os modos de vida humana e todos os pensamentos honestos, por muito dissonantes que pare\u00e7am, nascem do mesmo Esp\u00edrito e com ele alcan\u00e7am a beleza da harmonia.<\/p>\n<p><strong>Manuel Alte da Veiga<\/strong><br \/>\nm.alteveiga@netcabo.pt<br \/>\n(Este texto n\u00e3o segue o novo Acordo Ortogr\u00e1fico)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era bem not\u00f3ria, a desajeitada linguagem de pescador impetuoso e inculto, e com experi\u00eancia directa de que \u00abum peixe fora da \u00e1gua\u00bb n\u00e3o dura muito tempo\u2026 Segundo os \u00abActos dos Ap\u00f3stolos\u00bb, S. 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