{"id":25042,"date":"2014-06-11T09:46:12","date_gmt":"2014-06-11T09:46:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25042"},"modified":"2014-06-11T09:46:12","modified_gmt":"2014-06-11T09:46:12","slug":"os-numeros-do-aborto-depois-de-2007-todos-somos-sobreviventes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/os-numeros-do-aborto-depois-de-2007-todos-somos-sobreviventes\/","title":{"rendered":"Os n\u00fameros do aborto &#8211; Depois de 2007, todos somos sobreviventes"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-thumbnail wp-image-25043\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-150x150.jpg\" alt=\"LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o  da ADAV - Aveiro\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/>Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o<br \/>da ADAV &#8211; Aveiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na minha rua, existe uma casa sem janelas. E as portas, disfar\u00e7adas com a cor da madeira que as envolve, at\u00e9 essas parece n\u00e3o ter. Um perfeito castelo inexpugn\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em cada manh\u00e3, na rotina do rumo di\u00e1rio que me leva ao trabalho, rotina que me liberta o pensamento, olho para aquela casa como met\u00e1fora. Met\u00e1fora densa, mas interpelante.<br \/>\nNa verdade, vivemos como se a moradia que \u00e9 a nossa vida n\u00e3o tivesse rua e ningu\u00e9m nela se passeasse. Parecemos padecer de uma doen\u00e7a de nome \u00abisolite\u00bb.<br \/>\nUm dos mais dram\u00e1ticos sintomas desta doen\u00e7a, a \u00abisolite\u00bb, doen\u00e7a dos isolados do mundo, \u00e9 a j\u00e1 habitual comunica\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros do aborto que, por esta altura, a dire\u00e7\u00e3o geral de sa\u00fade faz sair a p\u00fablico. Em 2013, os registos guardaram a dolorosa refer\u00eancia de 17414 abortos realizados a pedido da mulher, representando 97% do total de abortos realizados em Portugal. Reunidos n\u00fameros, desde 2007, data da realiza\u00e7\u00e3o do referendo de 11 de fevereiro, atingimos a incr\u00edvel cifra de 119077 abortos realizados a pedido da mulher. Os dados permitem, ainda, verificar que 27,8% dos abortos praticados s\u00e3o repetidos, consolidando a convic\u00e7\u00e3o de que esta \u00e9 uma pr\u00e1tica que vai sendo adotada como se de um contracetivo (p\u00f3s-concetivo, bem certo!) se tratasse.<br \/>\nA cad\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o, comunicada ao ritmo dos tempos de um compasso bin\u00e1rio (dado que h\u00e1, todos os anos, duas comunica\u00e7\u00f5es de n\u00fameros, pois s\u00e3o sempre revistos em alta, l\u00e1 mais para final do ano), vai gerando na sociedade uma insensibilidade perigosa. Faz lembrar as oportunas palavras atribu\u00eddas ao Pastor protestante Martin Niem\u00f6ller: \u201cQuando os nazis levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu n\u00e3o era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu n\u00e3o era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu n\u00e3o protestei, porque, afinal, eu n\u00e3o era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu n\u00e3o protestei, porque, afinal, eu n\u00e3o era judeu. Quando eles me levaram, n\u00e3o havia mais quem protestasse.\u201d<br \/>\nO desafio que estas palavras de Niem\u00f6ller encerram faz-nos tomar consci\u00eancia de que, de algum modo, todos os nascidos depois de 2007, em Portugal, podem reconhecer-se como \u00absobreviventes\u00bb. Como se de uma batalha se tratasse, com a incr\u00edvel caracter\u00edstica do protagonista de \u00abcr\u00f3nica de uma morte anunciada\u00bb. Tal como este, todos sabem qual o seu destino fatal, mas ningu\u00e9m parece capaz de o contrariar. Como se fosse uma incontorn\u00e1vel predestina\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m dever\u00e1 ousar alterar.<br \/>\nContudo, porque n\u00e3o somos personagens de um romance de Gabriel Garc\u00eda Marquez, o fatalismo pode ser contrariado, porque os valores em causa se imp\u00f5em.<br \/>\nA dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vozearia que rodeou o referendo permite encontrar o afastamento suficiente para percebermos, hoje, de modo n\u00e3o ideol\u00f3gico que o que est\u00e1 em causa \u00e9 um sofisma de pensamento que pareceu confundir o direito a autodeterminar-se com direitos de algu\u00e9m a exercer a viol\u00eancia sobre outro. Pois \u00e9 de viol\u00eancia que se trata. Da viol\u00eancia de quem deve proteger sobre o seu protegido. E da sociedade que abandona quando mais deveria acolher.<br \/>\nO desafio continua, portanto. O de revalorizarmos a maternidade, de a reconhecermos como um direito e um dever e de a protegermos como um bem escasso. E, enfim, de n\u00e3o nos deixarmos adormecer, aceitando que v\u00e3o sendo levados, um a um, os que nada parecem dizer-nos porque nem sequer sabemos como seriam nem como se chamariam.<br \/>\nInfelizmente, a casa da met\u00e1fora inicial \u00e9 real. Existe mesmo e continua a recordar-me, em cada manh\u00e3, que tamb\u00e9m a \u00abisolite\u00bb continua a propagar-se. Uma doen\u00e7a cuja cura depende do doente. O f\u00e1rmaco mais eficaz ter\u00e1 de se procurar entre as teias da sensibilidade \u00e9tica, com caracter\u00edsticas opostas ao dos sedativos. S\u00f3 se curar\u00e1 dela quem se mantiver desperto e n\u00e3o se deixar adormecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha rua, existe uma casa sem janelas. E as portas, disfar\u00e7adas com a cor da madeira que as envolve, at\u00e9 essas parece n\u00e3o ter. Um perfeito castelo inexpugn\u00e1vel. Em cada manh\u00e3, na rotina do rumo di\u00e1rio que me leva ao trabalho, rotina que me liberta o pensamento, olho para aquela casa como met\u00e1fora. Met\u00e1fora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-25042","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25042"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25042\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25044,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25042\/revisions\/25044"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}