{"id":25104,"date":"2014-06-20T14:10:26","date_gmt":"2014-06-20T14:10:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25104"},"modified":"2014-06-20T14:10:26","modified_gmt":"2014-06-20T14:10:26","slug":"tres-etapas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/tres-etapas\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas etapas"},"content":{"rendered":"<p>Quando celebr\u00e1mos o Pentecostes, as leituras da liturgia sugeriram-nos muitas reflex\u00f5es. Uma delas partilho: Poder-se-ia dizer que a B\u00edblia tem tr\u00eas etapas, a saber, o Antigo, o Novo Testamento e o tempo do Esp\u00edrito Santo ou da Igreja, inaugurado no Pentecostes, e cujos in\u00edcios nos contam o livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos.<br \/>\nO tempo do Antigo Testamento poderia simbolicamente ser atribu\u00eddo ao Pai, como primeira Pessoa da Sant\u00edssima Trindade. Mas um era Deus cuja compreens\u00e3o estava muito limitada pelos condicionamentos culturais e antropom\u00f3rficos da sua \u00e9poca. Um Deus cheio de varia\u00e7\u00e3o de humores, que faz Alian\u00e7a com o Seu Povo, mas convivem o amor com as matan\u00e7as, a hist\u00f3ria com o extraordin\u00e1rio e o mito. Um Deus que se irrita e desiste do castigo, que se alegra e se entristece. Um Deus cuja presen\u00e7a \u00e9 vista quando o homem b\u00edblico tem sa\u00fade, vida longa, filhos, bens, tudo quanto pede para a sua vida na terra, pois a vida do al\u00e9m \u00e9 vida do esquecimento onde n\u00e3o se pode louvar a Deus. Um Deus que guia o Seu Povo, mas castiga o pecado dos pais nos filhos por muitas gera\u00e7\u00f5es, justificando na pr\u00e1tica humana a chamada lei do tali\u00e3o, \u201colho por olho e dente por dente\u201d, que permitiu o sacrif\u00edcio de um n\u00famero incont\u00e1vel de seres humanos at\u00e9 aos dias de hoje. Esse conceito veterotestament\u00e1rio de Deus ainda existe na vida dos homens e das comunidades, em estado inici\u00e1tico, pouco acostumados com a vida do Esp\u00edrito Santo. Traduz-se, na pr\u00e1tica, em considerar Deus amigo quando tudo corre bem na nossa vida, e em negociar com Ele o meu bem-estar \u00e0 custa de promessas em que tento convenc\u00ea-lo a atender-me em troca de algo que lhe dou e de que Ele nem precisa. \u00c9 a fase v\u00e1lida mas espiritualmente imperfeita das promessas. Quem vive de promessas n\u00e3o se conforma com os reveses da vida e s\u00f3 os aceita por ser obrigado, quando n\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio, mas muitas vezes com revolta. Consideram que Deus ora est\u00e1 triste, ora alegre, ora agradado, ora desagradado, o que \u00e9 imposs\u00edvel em Deus por ser Ele, como aprendemos na filosofia, um ato puro, sem possibilidade essencial de passar de um estado de pot\u00eancia para um de ato e assim sucessivamente. Por isso se diz que Deus n\u00e3o tem princ\u00edpio, nem fim, nem sucess\u00e3o.<br \/>\nEste \u00e9 o estado onde muitos se encontram na Igreja. Alimentam a devo\u00e7\u00e3o popular e, por falta de informa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, alimentam a supersti\u00e7\u00e3o e toda a forma de crendice. Tem o seu valor no estado de cada pessoa, mas tem de ser substitu\u00eddo pela fase seguinte, a do Novo Testamento, no qual a humanidade de Jesus \u00e9 nosso modelo e guia e que nos conduz ao Pai, n\u00e3o como quem teme ou espera receber algo em troca, mas como quem se abandona e s\u00f3 espera ser \u201cFiat\u201d (\u201cfa\u00e7a-se\u201d) como Jesus e Maria. \u00c9 a fase do despontar do amor que nos envolve, dando-nos asas para voar no Amor que \u00e9 Deus e envolver nele a fam\u00edlia e a comunidade humana. A fase da caridade \u00e0 luz de Cristo em que o homem \u00e9 alimentado pelo pr\u00f3prio Deus para poder servir. A fase em que se pede, mas mais se louva. Tudo se espera, mas sem paix\u00e3o. A fase em que a alegria e a dor s\u00e3o participadas por cada homem como membros do mesmo Cristo e do Seu Povo e Corpo, que \u00e9 a Igreja. \u00c9 a fase em que, como Maria de Bet\u00e2nia, se contempla o mist\u00e9rio, e, como Marta, se vive do mist\u00e9rio digerido ao servi\u00e7o do bem maior e do bem comum. E em que o simples olhar para a cruz e para o t\u00famulo vazio, nos faz ter a certeza de que n\u00e3o estamos s\u00f3s, nem entregues aos caprichos de um deus que n\u00e3o sabe o que fazer connosco.<br \/>\nNo fim, os adiantados no chamado \u201ccaminho da perfei\u00e7\u00e3o\u201d vivem a terceira fase, que \u00e9 a do Pentecostes, a do Esp\u00edrito Santo. Nessa fase tanto nos faz ter tudo como n\u00e3o ter nada. Viver ou morrer. Sa\u00fade ou doen\u00e7a. Juventude ou velhice. Simplesmente, voamos em asas de \u00e1guia e deixamos Deus acontecer em n\u00f3s. A fase que nos funde com o Amor entre o Pai e o Filho, que se chama Esp\u00edrito Santo, em que do mundo e dos homens s\u00f3 nos interessa a salva\u00e7\u00e3o dos mesmos, mas sem preconceitos culturais e reservas fundamentalistas, sem apego \u00e0 mat\u00e9ria e aos desejos que fazem sofrer, sem nos importarmos com o passado, que j\u00e1 l\u00e1 vai, e com o futuro, que a Deus pertence. Vivemos somente do dia a dia, na certeza de que a \u00fanica diferen\u00e7a entre esta vida e a do Al\u00e9m \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de um corpo ainda n\u00e3o glorificado pela Ressurrei\u00e7\u00e3o de entre os mortos. Fase em que Deus \u00e9 presen\u00e7a cont\u00ednua, e o C\u00e9u j\u00e1 \u00e9 realidade no nosso cora\u00e7\u00e3o e pensamento, de modo que as nossas rea\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas sejam comandadas pelo Deus que nos invade. Para chegar l\u00e1: Ora\u00e7\u00e3o intensa. Caridade sem ace\u00e7\u00e3o de pessoas. Dever cumprido, abandono e confian\u00e7a. Amor, Amor e muito Amor.<br \/>\n<strong>Vitor Espadilha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando celebr\u00e1mos o Pentecostes, as leituras da liturgia sugeriram-nos muitas reflex\u00f5es. Uma delas partilho: Poder-se-ia dizer que a B\u00edblia tem tr\u00eas etapas, a saber, o Antigo, o Novo Testamento e o tempo do Esp\u00edrito Santo ou da Igreja, inaugurado no Pentecostes, e cujos in\u00edcios nos contam o livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos. O tempo do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-25104","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25104","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25104"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25104\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25105,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25104\/revisions\/25105"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25104"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25104"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}