{"id":25116,"date":"2014-07-03T14:09:42","date_gmt":"2014-07-03T14:09:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25116"},"modified":"2014-07-03T14:09:42","modified_gmt":"2014-07-03T14:09:42","slug":"mas-as-criancas-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/mas-as-criancas-senhor\/","title":{"rendered":"Mas, as crian\u00e7as&#8230; Senhor!?"},"content":{"rendered":"<p>O meu falecido e saudoso pai costumava dizer que, no mundo, h\u00e1 duas coisas maravilhosas: as flores e as crian\u00e7as. Sabemos que uma crian\u00e7a \u00e9 um homem ou uma mulher que ser\u00e3o adultos. Podem vir a ser homens ou dem\u00f3nios. Basta pensar que Madre Teresa foi crian\u00e7a, mas Hitler tamb\u00e9m\u2026 Como no dia em que nasceu Jo\u00e3o Batista, perguntam sobre cada um dos seres humanos que nascemos: Quem vir\u00e1 a ser este menino?<br \/>\nAo visitar, neste ano, os campos de exterm\u00ednio nazis, pois o tema interessa-me para estudo e ora\u00e7\u00e3o, lembrei os muitos exterm\u00ednios da hist\u00f3ria de ontem e de hoje. Num dos campos, estava escrito na parede o grito de uma crian\u00e7a, registado por quem sobreviveu, possivelmente o guarda. Ao fechar-se a porta da c\u00e2mara de g\u00e1s, em plena escurid\u00e3o, uma crian\u00e7a teria dito: \u201cMam\u00e3, mam\u00e3, eu n\u00e3o me portei mal. Porque est\u00e1 t\u00e3o escuro, aqui?\u201d Foram as suas \u00faltimas palavras, sem d\u00favida\u2026<br \/>\nSe ver um animal sofrer ou um homem idoso sofrer nos arranca o cora\u00e7\u00e3o de pena, quanto mais ouvir o choro entristecido de uma crian\u00e7a com dores, fome, solid\u00e3o, ou morte! Jesus Menino tamb\u00e9m experimentou a persegui\u00e7\u00e3o na sua pequenez humana, e os m\u00e1rtires inocentes de Bel\u00e9m s\u00e3o um pequeno cortejo de algumas das incont\u00e1veis crian\u00e7as sacrificadas pela maldade dos adultos. Os seus anjos velam por elas, disse Jesus, diante do trono de Deus.<br \/>\nDiz-se que ao menino e ao passarinho pequeno, p\u00f5e Deus a m\u00e3o por baixo. Mas o mist\u00e9rio de Deus na hist\u00f3ria, um Deus que se fez Homem e se deixou matar, permite que certas exist\u00eancias sejam marcadas pelo estigma da dor e da morte. Porqu\u00ea? N\u00e3o sei. Penso que um dia saberemos. Ou at\u00e9 depois, na clarivid\u00eancia do para\u00edso, tenhamos todas as respostas sem fazermos perguntas. Ao visitar um museu num destes campos, fixei-me num lindo beb\u00e9, gordinho, de olhos grandes, abra\u00e7ado \u00e0 sua linda m\u00e3e, chorando, a caminho da c\u00e2mara de g\u00e1s. Aquele pequenino (e outros muitos milhares como ele) comoveu-me profundamente. Percebi que n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perder a f\u00e9 nestes lugares e naqueles momentos, mas sobretudo senti o desafio dessa f\u00e9 que nos ajuda a fazer outra leitura destes momentos tr\u00e1gicos da vida. Leitura de f\u00e9 que nos enche de paz na confian\u00e7a de que Deus tem sempre a \u00faltima palavra. Ent\u00e3o, ali mesmo, escrevi esta prece em forma de poesia sem estilo, pois era o que meu cora\u00e7\u00e3o queria dizer. S. Paulo ensina-nos o valor da compaix\u00e3o, que consiste em rir com os que riem e chorar com os que choram. N\u00e3o sou poeta. Mas esta prece-lamento bem pode servir para alimentar o nosso desejo de abra\u00e7ar o mundo no amor que vem de Cristo.<\/p>\n<p>Pudesse eu, crian\u00e7a pequena,<br \/>\nEsconder-te de tal modo<br \/>\nE passar os port\u00f5es do medo<br \/>\nQue teus olhinhos doces<br \/>\nRefletem assim\u2026 chorando<br \/>\nDiante do homem b\u00e1rbaro<br \/>\nQue te tira do seio da m\u00e3e<br \/>\nE te joga, sozinha e faminta,<br \/>\nNum lugar onde a linguagem da morte<br \/>\nAinda n\u00e3o era para ti.<\/p>\n<p>Judeu pequenino, cigano ou polaco<br \/>\nV\u00edtima da febre humana<br \/>\nQue n\u00e3o respeitou a tua inoc\u00eancia<br \/>\nE violou o teu corpinho<br \/>\nCom a\u00e7oites de arma ou de g\u00e1s<br \/>\nTirando-te a vida<br \/>\nQue h\u00e1 pouco come\u00e7astes a viver.<br \/>\nPudesse eu recuperar o teu sorriso<br \/>\nDevolver-te o colo de m\u00e3e<br \/>\nO afago do pap\u00e1 e os dias<br \/>\nAlegres de jogos na rua.<\/p>\n<p>Crian\u00e7a judia de corpo disforme<br \/>\nSem carne e nua<br \/>\nCaminhas para a morte<br \/>\nEm c\u00e2mara de g\u00e1s, triste sorte a tua!<br \/>\nPudesse eu esconder-te<br \/>\nA ti, a muitos e a todos<br \/>\nDos olhos ferozes e maus<br \/>\nQue te fazem inimiga<br \/>\nTu que \u00e9s do\u00e7ura de paz.<\/p>\n<p>Pudesse eu esconder-te<br \/>\nDe toda a forma de dor e de morte<br \/>\nDe momentos terr\u00edveis<br \/>\nDos genoc\u00eddios da Historia.<br \/>\nMas, n\u00e3o sou capaz!<br \/>\nO tempo levou-te<br \/>\nVirastes lembran\u00e7a<br \/>\nCom p\u00f3 e com cinza<br \/>\nNo holocausto da vida\u2026<\/p>\n<p>Hoje vejo teu rosto<br \/>\nEm fotos antigas<br \/>\nSele\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria<br \/>\nQue te levou a este fim<br \/>\nAo menos agora,<br \/>\nJunto a Deus Nosso Pai<br \/>\nQue os olhos fechou<br \/>\nA tua sorte humana, descansa feliz<br \/>\nA dor j\u00e1 la vai<br \/>\nA Vida \u00e9 brilho<br \/>\nDescansa em Paz!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Vitor Espadilha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu falecido e saudoso pai costumava dizer que, no mundo, h\u00e1 duas coisas maravilhosas: as flores e as crian\u00e7as. 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