{"id":25118,"date":"2014-07-03T14:11:53","date_gmt":"2014-07-03T14:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25118"},"modified":"2014-07-03T14:11:53","modified_gmt":"2014-07-03T14:11:53","slug":"porque-e-que-o-fecho-das-escolas-e-um-erro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/porque-e-que-o-fecho-das-escolas-e-um-erro\/","title":{"rendered":"Porque \u00e9 que o fecho das escolas \u00e9 um erro?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25043 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-150x150.jpg\" alt=\"LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o  da ADAV - Aveiro\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/> Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o<br \/> da ADAV &#8211; Aveiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, o pa\u00eds vem assistindo ao fecho de escolas, uma ap\u00f3s outra, num ritmo anestesiante, gerador de uma atitude de quase rendi\u00e7\u00e3o perante o fatalismo com que tal \u00e9 apresentado. S\u00e3o de excluir deste ritmo os anos de elei\u00e7\u00f5es, os \u00fanicos em que essas escolas parecem n\u00e3o ser, segundo os decisores pol\u00edticos, prejudiciais para os alunos que as frequentam. Contudo, \u00e9 urgente refletir sobre o que tal decis\u00e3o comporta e o que a justifica.<\/p>\n<p>Para clarificar a posi\u00e7\u00e3o que assumirei, importa afirmar que se trata de uma decis\u00e3o com custos certos e benef\u00edcios muito duvidosos, seja no que respeita ao processo como tudo tem sido conduzido, seja quanto aos resultados que dela se colhem.<br \/>\nOs que sustentam a bondade da decis\u00e3o apontam, fundamentalmente, duas ordens de raz\u00e3o: a primeira, do \u00e2mbito da gest\u00e3o dos recursos. A escassez dos recursos financeiros existentes parece, segundo eles, ser motivo suficiente para aglomerar em pouco espa\u00e7o o maior n\u00famero poss\u00edvel de alunos, com o menor custo em assistentes operacionais (os j\u00e1 designados \u00abcont\u00ednuos\u00bb e \u00abauxiliares da a\u00e7\u00e3o educativa\u00bb) e professores. A segunda, de ordem psicopedag\u00f3gica, socorre-se da teoria educativa mais difundida, segundo a qual ser\u00e1, certamente, ben\u00e9fica a continuidade de todos os ciclos de ensino num s\u00f3 espa\u00e7o geogr\u00e1fico, por diminuir os efeitos da mudan\u00e7a, nas crian\u00e7as. Contudo, esta teoria, sendo, de facto, a mais difundida entre os pedagogos que suportam as decis\u00f5es pol\u00edticas, esbarra com o reconhecimento de que as mudan\u00e7as de ciclo acompanhadas de mudan\u00e7a geogr\u00e1fica s\u00e3o positivas, em particular quando o ciclo em conclus\u00e3o foi marcado por algum insucesso. A mudan\u00e7a geogr\u00e1fica permite que a pessoa se reconfigure diante do novo cen\u00e1rio e, como vulgarmente se designa, permite \u00abcome\u00e7ar de novo\u00bb. Mesmo n\u00f3s, adultos, sabemos como \u00e9 importante, por vezes, a mudan\u00e7a de situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e f\u00edsica, para reencontrar a serenidade e nos sentirmos de novo apreciados. Aplicando \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil perceber a pertin\u00eancia desta \u00faltima teoria para compreender muito do insucesso que acompanha os alunos para quem o espa\u00e7o concreto de determinada escola &#8211; que sabem ter de frequentar durante doze anos &#8211; est\u00e1 associado ao fracasso. Mudar, na transi\u00e7\u00e3o de ciclos, teria sido uma oportunidade, que este modelo de escolas fundidas n\u00e3o favorece. Ora, estes s\u00e3o, resumidamente, os dois grandes argumentos utilizados para o encerramento de escolas e a aglomera\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as em espa\u00e7os multitudin\u00e1rios, isto \u00e9, de multid\u00e3o.<br \/>\nBem certo que, em 2010 e 2011, as decis\u00f5es tomadas pelo governo de ent\u00e3o defendiam que s\u00f3 se encerrariam as escolas com menos de 21 alunos, mat\u00e9ria, ali\u00e1s, pouco consensual, como pode constatar-se lendo a recomenda\u00e7\u00e3o 4\/2011, formulada pelo Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o que afirma, textualmente, que o fecho de escolas com menos de 21 alunos \u00e9 um \u00abassunto que n\u00e3o tem sido pac\u00edfico\u00bb. Esse j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, o cen\u00e1rio com que a sociedade portuguesa se deparou, no passado dia 23 de junho. Nesse dia, foi anunciado o encerramento de 311 escolas, entre as quais se contam muitas com mais do que esse n\u00famero de alunos.<br \/>\nSocorro-me, como ilustra\u00e7\u00e3o do que acabo de afirmar, a experi\u00eancia concreta que venho acompanhando, e que respeita a tr\u00eas escolas do concelho onde vivo e tenho o meu filho mais velho a frequentar o 1.\u00ba ciclo: Estarreja. Trata-se de um concelho que n\u00e3o vira nenhuma escola inclu\u00edda numa primeira lista, dita provis\u00f3ria, tornada p\u00fablica ainda em maio, e na qual se referiam 439 escolas que preenchiam o acima referido crit\u00e9rio dos 21 alunos, mas que veio a verificar que 3 das suas escolas foram inclu\u00eddas na lista de 311 destinadas a fechar. Em qualquer uma das tr\u00eas escolas que encerrar\u00e3o, neste concelho (Terra do Monte &#8211; Fermel\u00e3, P\u00f3voa e Santo Amaro), o n\u00famero de alunos matriculados supera o da meia centena, sendo escolas em que existem todas as condi\u00e7\u00f5es materiais ditas \u2018ideais\u2019 (biblioteca, computadores, quadro interativos, etc.), com uma enorme virtualidade que as torna insubstitu\u00edveis: a proximidade das comunidades, o que tem permitido desenvolver estrat\u00e9gias de voluntariado que n\u00e3o acontecem nas escolas multitudin\u00e1rias. Mais ainda, s\u00e3o escolas nas quais o sucesso \u00e9 vis\u00edvel, bastando analisar os pr\u00f3prios resultados acad\u00e9micos: numa delas, nenhum dos alunos que concluiu o 4.\u00ba ano ficou retido, tendo a grande maioria terminado exames nacionais com n\u00edvel 4 e 5 (n\u00edveis mais elevados). J\u00e1 para n\u00e3o falar do que n\u00e3o se pode medir, que s\u00e3o as garantias de uma educa\u00e7\u00e3o esmerada porque feita com base na pessoalidade, na humanidade, que a proximidade assegura. Ora, no caso deste concelho, como ter\u00e1, certamente, ocorrido em outros, as comunidades n\u00e3o foram ouvidas para a tomada de decis\u00e3o, ao arrepio do que referia a recomenda\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o acima mencionada: \u00abNo processo de encerramento de escolas do 1.\u00ba ciclo [\u2026] deve ser considerado o eventual interesse das autarquias e ou de interesses econ\u00f3micos, sociais ou culturais locais.\u00bb Tal facto, a saber, a falta de envolvimento das comunidades na tomada de decis\u00e3o, soma, ao erro quanto ao conte\u00fado da decis\u00e3o, um erro quanto \u00e0 forma de a tomar, contribuindo para o agudizar do mal-estar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nobre atividade pol\u00edtica. Num dos casos que aponto, o fecho da escola, que constitui o \u00faltimo polo agregador da comunidade, significar\u00e1 a morte da pr\u00f3pria comunidade e do seu centro social paroquial que serve as fam\u00edlias que t\u00eam as suas crian\u00e7as na escola e que, com elas, ali confiam os seus beb\u00e9s. No dia em que os irm\u00e3os mais velhos sa\u00edrem para uma escola de centro do concelho, os mais pequenos partir\u00e3o com eles.<br \/>\nEste facto que acabo de narrar ilustra as consequ\u00eancias graves desta decis\u00e3o que se afigura estranha num governo que se diz defensor da fam\u00edlia, da natalidade e da maternidade. O fecho de escolas, que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas as que t\u00eam menos de 21 alunos, \u00e9 um decreto de diminui\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a no futuro. Os frutos efetivos desta decis\u00e3o s\u00f3 se saber\u00e3o no amanh\u00e3, quando olharmos para o pa\u00eds e o virmos desertificado.<br \/>\nChegados aqui, mais do que continuar a enunciar raz\u00f5es que justificam a convic\u00e7\u00e3o de que se trata de uma decis\u00e3o errada, vale a pena deixar interroga\u00e7\u00f5es cuja resposta suporta o nosso ponto de partida: ser\u00e1 aglomerando os alunos em comunidades de multid\u00e3o que se combatem a indisciplina, a viol\u00eancia escolar, o insucesso? Ser\u00e1 distanciando as escolas, que deveriam ser entendidas como comunidades, em grandes centros an\u00f3nimos, que se garante a salvaguarda da identidade das comunidades de origem? Ser\u00e1 desvinculando o crescimento das crian\u00e7as do meio onde vivem as suas fam\u00edlias que se assegura a cria\u00e7\u00e3o de uma real cultura nacional? Ser\u00e1 considerando os alunos como um n\u00famero que estaremos a construir uma sociedade humanizada e respeitadora da pessoa? Que modelo de sociedade se pretende edificar se a escola j\u00e1 n\u00e3o for o lugar da constru\u00e7\u00e3o da identidade pessoal em estreita unidade com a constru\u00e7\u00e3o da identidade social? Poder\u00e1 construir-se a identidade pessoal ao arrepio da constru\u00e7\u00e3o da identidade social e comunit\u00e1ria? Ser\u00e1 este, em definitivo, um caminho sem retorno? Este n\u00e3o \u00e9 o caminho que se vem trilhando pela Europa fora, onde as comunidades v\u00eam apostando nas escolas de proximidade, com projetos educativos reais e efetivos e n\u00e3o simulacros de projetos educativos. Ainda vamos a tempo de arrepiar caminho, se quisermos que a escola seja o lugar do futuro e n\u00e3o um passado que n\u00e3o quereremos lembrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, o pa\u00eds vem assistindo ao fecho de escolas, uma ap\u00f3s outra, num ritmo anestesiante, gerador de uma atitude de quase rendi\u00e7\u00e3o perante o fatalismo com que tal \u00e9 apresentado. 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