{"id":25273,"date":"2014-09-04T14:19:40","date_gmt":"2014-09-04T14:19:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25273"},"modified":"2014-09-04T14:19:40","modified_gmt":"2014-09-04T14:19:40","slug":"a-democracia-e-um-bem-que-se-preserva-pelo-uso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-democracia-e-um-bem-que-se-preserva-pelo-uso\/","title":{"rendered":"A democracia \u00e9 um bem que se preserva pelo uso"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25043 size-medium\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg\" alt=\"LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o  da ADAV - Aveiro\" width=\"245\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg 245w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/> Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o<br \/> da ADAV &#8211; Aveiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es v\u00e3o-se sucedendo e, com elas, o crescimento da absten\u00e7\u00e3o. \u00c0 rotina desta sequ\u00eancia associa-se o paralelismo de um ritual de interpreta\u00e7\u00f5es que se circunscrevem, habitualmente, \u00e0 conjuntura mais ou menos meteorol\u00f3gica que parece justificar o afastamento dos cidad\u00e3os do exerc\u00edcio de um direito conquistado com o sangue. Raramente se passa disto.<br \/>\nImportaria ir mais longe, pois os sinais permitem-nos concluir que os cidad\u00e3os falam de algo mais profundo a que n\u00e3o se tem dado ouvidos e que a hist\u00f3ria desafia a saber ler, para que n\u00e3o se repitam erros do passado.<br \/>\nDevemos come\u00e7ar por reconhecer, com Lipovetsky, o soci\u00f3logo franc\u00eas da \u2018moda\u2019 (o conceito de \u00abmoda\u00bb \u00e9 central no seu livro \u00abimp\u00e9rio do ef\u00e9mero\u00bb), que vivemos uma era que ele designa como \u00abhipermoderna\u00bb, marcada pela dece\u00e7\u00e3o. E \u00e9 de dece\u00e7\u00e3o que se trata ao falar da rela\u00e7\u00e3o entre os cidad\u00e3os e o exerc\u00edcio partid\u00e1rio da pol\u00edtica. Uma dece\u00e7\u00e3o que vai da \u00abpequena dece\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e0 \u00abgrande dece\u00e7\u00e3o\u00bb. Poder\u00edamos considerar como a \u00abpequena dece\u00e7\u00e3o\u00bb aquela que v\u00e3o vivendo os eleitores que sofrem a desilus\u00e3o de se confrontarem com falta de correspond\u00eancia entre a palavra dita em per\u00edodo eleitoral e a que se torna a\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 uma mais profunda, que corresponde \u00e0 \u00abgrande dece\u00e7\u00e3o\u00bb. A que vivem os cidad\u00e3os que verificam n\u00e3o reconhecer, j\u00e1, distin\u00e7\u00e3o entre as ideologias que suportam os partidos. Bem certo que os defensores do fim da hist\u00f3ria, com Fukuyama \u00e0 cabe\u00e7a, parecem preconizar que a hist\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o tem mais para onde ir e que s\u00f3 resta aceitar que o capitalismo de matriz liberal \u00e9 a \u00faltima palavra. Contudo, na \u00e9poca em que este autor norte-americano vertia esta ideia para o seu livro que se tornou \u2018b\u00edblia\u2019 para muitos, Jo\u00e3o Paulo II antecipava, na sua genial enc\u00edclica \u00abCentesimus Annus\u00bb (1991), que era necess\u00e1rio ter a consci\u00eancia de que o fim dos regimes coletivistas n\u00e3o significava que j\u00e1 s\u00f3 restava a resposta do capitalismo. Importava n\u00e3o deixar que assim acontecesse e a Igreja enunciava, ent\u00e3o, na senda de grandes documentos que fazem a sua Doutrina Social, que importava colocar a pessoa humana no centro de toda a economia e de toda a pol\u00edtica.<br \/>\nMas n\u00e3o estamos, de facto, no fim da hist\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio. A ideia do fim da hist\u00f3ria alimenta-se de si mesma. A ideia do fim da hist\u00f3ria gera o pr\u00f3prio fim da hist\u00f3ria, ilus\u00e3o terr\u00edvel que \u00e9 dos maiores respons\u00e1veis pela \u00abgrande dece\u00e7\u00e3o\u00bb que vivem os cidad\u00e3os. Colocando, de modo simples, esta convic\u00e7\u00e3o. Se todos os partidos e as suas matrizes s\u00e3o iguais, ent\u00e3o porqu\u00ea ter de escolher? Se o pressuposto fosse verdadeiro, de facto a conclus\u00e3o tamb\u00e9m o seria. Contudo, importa constatar que a atua\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos tem contribu\u00eddo para a alimenta\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o. Com efeito, valer\u00e1 a pena perguntarmo-nos sobre o que resta do que os cidad\u00e3os eleitores esperam da direita e da esquerda e sobre o que, de facto, sobrevive do que seja a direita e a esquerda.<br \/>\nPoder\u00edamos dizer que sobram da direita e da esquerda apenas umas caricaturas de si que n\u00e3o atraem e n\u00e3o convencem.<br \/>\nSentem-se os cidad\u00e3os identificados com uma esquerda que parece reduzir-se \u00e0s mat\u00e9rias dita fraturantes do \u00e2mbito da moral pessoal (sexualidade, casamento, eutan\u00e1sia, aborto, etc.) e que fez da defesa das diferen\u00e7as um fator de conflitualidade e inconcilia\u00e7\u00e3o?<br \/>\nSentem-se os cidad\u00e3os identificados com uma direita que parece ter-se reduzido \u00e0 cartilha liberal na gest\u00e3o da economia e que, em mat\u00e9rias de fam\u00edlia e demografia, se prop\u00f5e legalizar as barrigas de aluguer, aceitar a coado\u00e7\u00e3o por homossexuais ou preparar a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia com a aceita\u00e7\u00e3o do testamento vital (que se n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil \u00e9 a porta aberta para aquela)? Esta \u00e9 a mesma direita que vetou, em 28 de maio, o debate sobre uma peti\u00e7\u00e3o, \u00abone of us\u00bb, que se propunha defender o reconhecimento do estatuto do embri\u00e3o humano, peti\u00e7\u00e3o subscrita por cerca de 2 milh\u00f5es de cidad\u00e3os europeus, que foi reconhecida como a peti\u00e7\u00e3o que recolheu mais assinaturas na hist\u00f3ria de todas as peti\u00e7\u00f5es promovidas em solo europeu e que, por\u00e9m, foi rejeitada por colocar em d\u00favida as pol\u00edticas abortistas desenvolvidas pelo diret\u00f3rio europeu.<br \/>\nO que sobrevive dos tra\u00e7os matriciais que permitiam distinguir, na hora de decidir?<br \/>\nConsidero, na qualidade de cat\u00f3lico, que se deveria reponderar, entre os crist\u00e3os, a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para que se fizesse justi\u00e7a \u00e0 mem\u00f3ria dos pais fundadores da comunidade europeia. Valer\u00e1, ali\u00e1s, a pena recordar que, entre aqueles que se considerou reconhecer como os \u00abpais da comunidade europeia\u00bb, Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer, Paul-Henri Spaak, quatro s\u00e3o reconhecidos crist\u00e3os cat\u00f3licos, sendo o \u00faltimo um socialista em cuja hist\u00f3ria pessoal foi decisivo o encontro com Paul Van Zeeland, do partido cat\u00f3lico, no tempo do seu cativeiro \u00e0s m\u00e3os dos nazis. A sua atua\u00e7\u00e3o e convic\u00e7\u00e3o constituem um dever, para todos, de homenagem de mem\u00f3ria, em particular, entre os que se reconhecem nos mesmos motivos.<br \/>\nUrge a forma\u00e7\u00e3o de crist\u00e3os convencidos de que a pol\u00edtica \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de todos na sociedade (\u00abp\u00f3lis\u00bb &#8211; palavra grega para \u00abcidade\u00bb, de que vem a palavra \u2018pol\u00edtica\u2019; em latim, cidade diz-se \u00abcivitas\u00bb, de que vem \u2018cidadania, civilidade, civil, etc.\u2019. \u2018Pol\u00edtica\u2019 e \u2018cidadania\u2019 s\u00e3o, \u00e0 luz da etimologia, sin\u00f3nimas, e querem referir-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o, aquele que vive em sociedade, na cidade.) e n\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o estranha e que \u00e9 exercida apenas por alguns. Se os crist\u00e3os n\u00e3o estiverem onde se decide, as decis\u00f5es ser-lhes-\u00e3o estranhas e ficar\u00e1, no fim, a lamenta\u00e7\u00e3o e a certeza de n\u00e3o se ter feito o que era devido.<br \/>\nComo me recordava, recentemente, um amigo com quem estas mat\u00e9rias servem de nutriente da amizade, \u00abfoi dizimada a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, em vez de ter sido purificada e, hoje, nada resta de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia pol\u00edtica dos crist\u00e3os\u00bb.<br \/>\n\u00c9 urgente reencontrar uma matriz na qual os cidad\u00e3os que, em Portugal, s\u00e3o cerca de 80% de crist\u00e3os, se revejam e saibam que o que comanda as decis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o os interesses e benef\u00edcios pessoais, mas valores e convic\u00e7\u00f5es reconhecidos por todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As elei\u00e7\u00f5es v\u00e3o-se sucedendo e, com elas, o crescimento da absten\u00e7\u00e3o. \u00c0 rotina desta sequ\u00eancia associa-se o paralelismo de um ritual de interpreta\u00e7\u00f5es que se circunscrevem, habitualmente, \u00e0 conjuntura mais ou menos meteorol\u00f3gica que parece justificar o afastamento dos cidad\u00e3os do exerc\u00edcio de um direito conquistado com o sangue. Raramente se passa disto. Importaria ir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-25273","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25273"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25273\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25274,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25273\/revisions\/25274"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}