{"id":2531,"date":"2010-09-29T09:32:00","date_gmt":"2010-09-29T09:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2531"},"modified":"2010-09-29T09:32:00","modified_gmt":"2010-09-29T09:32:00","slug":"deus-e-mau-pagador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/deus-e-mau-pagador\/","title":{"rendered":"Deus \u00e9 mau pagador"},"content":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu <!--more--> Habacuc n\u00e3o vivia nos melhores dias: o povo judeu era continuamente arrasado pelos povos mais poderosos (cerca do ano 600 antes de Cristo). E n\u00e3o hesita perante duras recrimina\u00e7\u00f5es contra Deus: ent\u00e3o n\u00f3s, que somos o teu povo e acreditamos em Ti, somos espezinhados pelos teus inimigos, que se riem da nossa f\u00e9 e se gabam de que n\u00e3o precisam de Deus nenhum para serem fortes? Como \u00e9 que Tu permites que o \u00abjusto\u00bb seja tanto tempo maltratado pelo \u00ab\u00edmpio\u00bb? Mas Deus corrige o seu profeta: n\u00e3o est\u00e1 certo identificar \u00abo povo de Deus\u00bb como \u00abo justo\u00bb e muito menos considerar todos os outros como \u00abo \u00edmpio\u00bb. De certa maneira, \u00abo povo escolhido\u00bb \u00e9 o verdadeiro \u00edmpio, pois dizendo que acredita em Deus, n\u00e3o age \u00e0 imagem da bondade de Deus; n\u00e3o estar\u00e1 at\u00e9, de algum modo, a provocar a ira e crueldade dos povos vizinhos? Por outro lado, o comportamento conden\u00e1vel de toda uma sociedade \u00e9 fruto da semente do mal, que cada pessoa deixa ou n\u00e3o crescer dentro de si. <\/p>\n<p>E lembra a Habacuc de que vale a pena esperar em Deus, mesmo \u00abcontra toda a esperan\u00e7a\u00bb, como dir\u00e1 S. Paulo centenas de anos depois. \u00c9 este Paulo que, na segunda leitura, pede a Tim\u00f3teo que n\u00e3o se envergonhe de \u00abdar testemunho de Nosso Senhor\u00bb, porque Deus \u00abn\u00e3o nos deu um esp\u00edrito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e de modera\u00e7\u00e3o\u00bb. <\/p>\n<p>Nos dias de hoje, o que parece mais faltar \u00e9 o esp\u00edrito de fortaleza. Por\u00e9m, ter for\u00e7a e n\u00e3o a saber moderar, s\u00f3 \u00e9 contraproducente. Por seu lado, o pr\u00f3prio amor necessita de prud\u00eancia, para obter um efeito mais duradouro \u2013 uma prud\u00eancia que se confunde com a esperan\u00e7a pertinaz.<\/p>\n<p>Mas o evangelho \u00e9 estranho: os disc\u00edpulos pedem a Jesus: \u00abAumenta a nossa f\u00e9\u00bb. E Jesus, longe de responder, at\u00e9 sublinha a pequenez da f\u00e9 deles e chama de \u00abin\u00fateis\u00bb os servos que trabalharam todo o dia.<\/p>\n<p>Estes dois exageros reflectem apenas a maneira de falar da \u00e9poca. Como era habitual, os servos n\u00e3o comem \u00e0 mesa do seu senhor, e \u00e9 suposto que trabalhem bem. A novidade est\u00e1 no adjectivo \u00abin\u00fateis\u00bb: aponta para que os bons servos est\u00e3o sempre dispostos a continuar a servir. \u00c9 como se o pagamento fosse a consci\u00eancia de ter cumprido o pr\u00f3prio trabalho, de acordo com a fun\u00e7\u00e3o que cada qual \u00e9 capaz de exercer. Note-se, ali\u00e1s, que o pr\u00f3prio Jesus Cristo se apresenta como \u00abaquele que serve\u00bb (Lucas 22, 27) e, como senhor, convida os servos para a sua mesa (Lucas 12, 37). Na dimens\u00e3o humana, o servo \u00e9 submisso; na dimens\u00e3o divina revelada, somos todos uma comunidade de \u201cservidores\u201d, cada qual com a alegria de poder ser ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>\u00c9 mesmo preciso muita confian\u00e7a para correr o desafio de amar com a modera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o desestabiliza as rela\u00e7\u00f5es humanas, agindo suavemente (a suavidade \u00e9 uma caracter\u00edstica t\u00edpica do Messias, no Antigo e Novo Testamento). \u00c9 assim o amor: n\u00e3o se cansa, n\u00e3o se julga merecedor de paga ou de descanso, n\u00e3o se julga superior a ningu\u00e9m. De outra maneira, as rela\u00e7\u00f5es humanas desembocam numa luta feroz pelos nossos \u00abdireitos\u00bb, e se poss\u00edvel deixando para os outros todo o trabalho e toda a culpa.<\/p>\n<p>\u00c9 uma confian\u00e7a (ou f\u00e9) que vai crescendo com a coragem de agir. Quem se decide a ter f\u00e9 n\u00e3o recua perante o que parece imposs\u00edvel. Segundo especialistas, a frase do evangelho \u00abse tiv\u00e9sseis f\u00e9, dir\u00edeis&#8230;\u00bb deveria ser transcrita de outro modo: \u00abSe tiv\u00e9sseis f\u00e9, ter\u00edeis dito&#8230; teria acontecido&#8230;\u00bb. Porque a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 ficar \u00e0 espera de que as coisas aconte\u00e7am, mas faz\u00ea-las acontecer. Como \u00abservos in\u00fateis\u00bb, nunca devemos parar de trabalhar, confiantes de que a nossa ac\u00e7\u00e3o se integre no plano de Deus de liberta\u00e7\u00e3o do Homem.  \u00c9 por isso que vale a pena querer erradicar a injusti\u00e7a deste mundo; e vencer o des\u00e2nimo perante o projecto da educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que saibamos harmonizar as nossas liberdades.<\/p>\n<p> O pior \u00e9 o \u00absil\u00eancio de Deus\u00bb. Quem gosta de regressar a casa depois de um dia de trabalho, e a encontrar deserta? Deus nem deixa um recadito a dizer ao menos que um dia h\u00e1-de aparecer para pagar&#8230;<\/p>\n<p>Procurar fazer o bem no meio das maiores desgra\u00e7as sociais \u2013 como nos pode fazer sentir o Deus que se chama Alegria? Nunca a desgra\u00e7a alheia deve servir de consolo, mas apenas de incentivo para a debelarmos. Talvez que a palavra chave seja mesmo: incentivo. Nunca faltou gente da rua ou gente dos pal\u00e1cios a protestar contra Deus, porque n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a neste mundo, e nem o pr\u00f3prio Deus parece dar bom exemplo. E na verdade, o pr\u00f3prio Jesus se queixou, j\u00e1 pregado na cruz: \u00abMeu Deus, porque me abandonaste?\u00bb (Por\u00e9m, mesmo assim, soube consolar os outros). <\/p>\n<p>Estranho pagamento, o de Deus! T\u00e3o estranho, que todos somos tentados a dizer que n\u00e3o vale a pena contar com ele. E no entanto, n\u00e3o tem faltado e n\u00e3o falta quem teimosamente semeie tudo o que h\u00e1 de belo e de bom. N\u00e3o ser\u00e1 por isso que Jesus Cristo disse que est\u00e1 connosco sempre que trabalhamos no projecto que veio semear entre n\u00f3s?<\/p>\n<p>Manuel Alte da Veiga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00c1rvore de Zaqueu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-2531","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2531"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2531\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}