{"id":2535,"date":"2010-09-29T09:38:00","date_gmt":"2010-09-29T09:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2535"},"modified":"2010-09-29T09:38:00","modified_gmt":"2010-09-29T09:38:00","slug":"com-a-republica-a-igreja-descobriu-o-dificil-mas-belo-caminho-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/com-a-republica-a-igreja-descobriu-o-dificil-mas-belo-caminho-da-liberdade\/","title":{"rendered":"Com a Rep\u00fablica, a Igreja descobriu &#8220;o dif\u00edcil mas belo caminho da liberdade&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A quest\u00e3o religiosa precipitou o fim da Primeira Rep\u00fablica, que foi um tempo doloroso para a Igreja, de aprendizagem do di\u00e1logo e da liberdade \u2013 linhas de for\u00e7a das jornadas das comunica\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 verdade que a Rep\u00fablica deu \u00e0 Igreja mais liberdade, mesmo cortando algumas liberdades\u201d, afirmou D. Carlos Azevedo, nas jornadas nacionais das comunica\u00e7\u00f5es sociais que decorreram em F\u00e1tima, nos dias 23 e 24 de Setembro, sobre \u201cRep\u00fablica \u2013 Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 Igreja\u201d. Segundo o Bispo Auxiliar de Lisboa, formado em hist\u00f3ria e coordenador da s\u00e9rie de volumes sobre a \u201cHist\u00f3ria Religiosa de Portugal\u201d, os bispos portugueses, h\u00e1 cem anos, \u201cdescobriram o dif\u00edcil mas belo caminho da liberdade\u201d com as dificuldades impostas pelo regime republicano \u00e0 ac\u00e7\u00e3o da Igreja, o que o levou a considerar que \u201c\u00e9 mentira que a mudan\u00e7a de mentalidade n\u00e3o passe por confrontos, exageros, furor legislativo\u201d.<\/p>\n<p>Se na implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica predominaram as correntes anticat\u00f3licas, porque o catolicismo era considerado respons\u00e1vel pelo atraso do pa\u00eds, na senda do que j\u00e1 havia dito Antero de Quental por volta de 1870, e visto como aliado da monarquia, o erro do novo regime foi \u201cconfundir desconfessionaliza\u00e7\u00e3o do Estado com desconfessionaliza\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d, o que levou ao seu fim precipitado, em 1926.<\/p>\n<p>Nisso concorda o historiador Fernando Rosas: \u201cO erro mortal da [primeira] Rep\u00fablica foi permitir que a quest\u00e3o da laicidade, que era uma justa prioridade da Rep\u00fablica e da moderniza\u00e7\u00e3o do Estado, se transformasse numa quest\u00e3o religiosa\u201d. O historiador que \u00e9 tamb\u00e9m deputado do Bloco de Esquerda notou, logo a abrir a sua comunica\u00e7\u00e3o, que \u201ca Igreja de ent\u00e3o n\u00e3o tinha nada a ver com a Igreja de hoje, consensual, dialogante, aberta\u201d. No final da monarquia, a Igreja cat\u00f3lica era \u201csubsidi\u00e1ria do \u00abSyllabus\u00bb\u201d [s\u00famula dos erros que os cat\u00f3licos deviam evitar, publicada em 1854 por Pio IX, entre os quais se encontravam a ma\u00e7onaria, mas tamb\u00e9m a liberdade religiosa], partid\u00e1ria da \u201cuni\u00e3o do trono e do altar\u201d. A pr\u00f3pria monarquia, disse o historiador, \u201cpreparava-se para publicar legisla\u00e7\u00e3o muito parecida com a afonsista\u201d [de Afonso Costa, autor a Lei de Separa\u00e7\u00e3o de 1911]. Por outro lado, contra um lugar-comum, Fernando Rosas disse estar \u201clonge de considerar que o ate\u00edsmo fosse dominante na elite republicana\u201d.<\/p>\n<p>Mas se a \u201cobra de laiciza\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foi uma das obras modernizadoras mais importantes do s\u00e9culo XX portugu\u00eas\u201d, caiu num excesso neo-regalista que levou a que a Igreja se tornasse \u201cabertamente hostil \u00e0 Rep\u00fablica e ao republicanismo\u201d por causa de prerrogativas como a restaura\u00e7\u00e3o em favor da Rep\u00fablica do benepl\u00e1cito r\u00e9gio [preceito que obrigava a que as determina\u00e7\u00f5es da igreja tivesse aprova\u00e7\u00e3o do governo], a concord\u00e2ncia do Estado para a nomea\u00e7\u00e3o dos bispos, a nacionaliza\u00e7\u00e3o das alfaias lit\u00fargicas ou a proibi\u00e7\u00e3o de vestes talares, tudo \u201cgestos jacobinos que transformaram o que era um princ\u00edpio salutar\u201d e que levaram a que muitos p\u00e1rocos estivessem \u201cenvolvidos em manobras subversivas contra a Rep\u00fablica\u201d, em especial no Norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Noutro momento das jornadas, D. Manuel Clemente, Bispo do Porto e presidente da Comiss\u00e3o Episcopal das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, afirmou que \u201cfaltou pondera\u00e7\u00e3o\u201d durante a Primeira Rep\u00fablica. \u201cN\u00e3o havia espa\u00e7o mental nem espa\u00e7o p\u00fablico\u201d para o di\u00e1logo entre partes eivadas de preconceitos. A Rep\u00fablica s\u00f3 podia ser \u201cpositivista\u201d, enquanto os cat\u00f3licos eram tidos como \u201ctradicionalistas\u201d, quando havia entre eles pessoas e institui\u00e7\u00f5es muito abertas ao movimento cient\u00edfico. Pense-se na revista \u201cBrot\u00e9ria\u201d, fundada em 1902, ou no P.e Sena Freitas, sempre informado sobre as ci\u00eancias positivas. Mas o di\u00e1logo foi \u201cde surdos\u201d e povoado por \u201cfantasmas\u201d.<\/p>\n<p>A partir de 1917, a tens\u00e3o Estado \/ Igreja desanuvia-se. Sid\u00f3nio Pais chega ao poder e a Igreja assume a pol\u00edtica do \u201cralliement\u201d (literalmente, \u201creuni\u00e3o\u201d,\u201cconcentra\u00e7\u00e3o\u201d), que Le\u00e3o XIII havia preconizado anos antes para a Igreja francesa na rela\u00e7\u00e3o com o Estado laicista. Perante a hostilidade, h\u00e1 que dialogar e adaptar-se. Gra\u00e7as \u00e0 mudan\u00e7a, sem d\u00favida dolorosa, a Igreja cat\u00f3lica \u2013 resumiu D. Carlos Azevedo \u2013 adquiriu profundidade de reflex\u00e3o, mobilizou for\u00e7as internas, obteve um novo registo do seu espa\u00e7o e articulou energias\u201d.<\/p>\n<p>Jorge Pires Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quest\u00e3o religiosa precipitou o fim da Primeira Rep\u00fablica, que foi um tempo doloroso para a Igreja, de aprendizagem do di\u00e1logo e da liberdade \u2013 linhas de for\u00e7a das jornadas das comunica\u00e7\u00f5es sociais. \u201c\u00c9 verdade que a Rep\u00fablica deu \u00e0 Igreja mais liberdade, mesmo cortando algumas liberdades\u201d, afirmou D. 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