{"id":25822,"date":"2015-04-16T16:55:37","date_gmt":"2015-04-16T16:55:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25822"},"modified":"2015-04-16T16:55:37","modified_gmt":"2015-04-16T16:55:37","slug":"iconoclastas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/iconoclastas\/","title":{"rendered":"Iconoclastas"},"content":{"rendered":"<p>A palavra \u201c\u00edcone\u201d refere-se a imagem sagrada. O \u00edcone \u00e9 uma pintura, normalmente adornada com pe\u00e7as valiosas, que implica uma prepara\u00e7\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o, do pintor, normalmente monge, embora hoje a atividade se tenha industrializado, e com jejum, pois o oriental crist\u00e3o acredita que, mais do que uma representa\u00e7\u00e3o, como acontece com as imagens na Igreja ocidental, o \u00edcone \u00e9 a presen\u00e7a viva e atuante daquele que ali se representa. Por isso, a mulher que limpa o rosto de Jesus, que segundo a tradi\u00e7\u00e3o se chamaria Berenice, passou a chamar-se Ver\u00f3nica, forma latinizada do seu nome, ou, popularmente, a que traz consigo a \u201cVera Icona\u201d, ou seja, a verdadeira imagem de Jesus. Por curiosidade, essa imagem venera-se em Manipello, na It\u00e1lia, e \u00e9 considerada um verdadeiro milagre, at\u00e9 porque se encaixa perfeitamente com o Sud\u00e1rio de Turim, e o \u201cmandillion\u201d de Oviedo.<br \/>\nA Ver\u00f3nica, segundo outra tradi\u00e7\u00e3o muito antiga da rota francesa dos \u201camigos de Jesus\u201d, tamb\u00e9m caminho de Compostela, casou-se com Zaqueu (que mudara o nome para Amadeu) e estaria sepultada em Sant\u00e9s, perto de Bord\u00e9us, onde est\u00e1 o seu santu\u00e1rio, e Zaqueu-Amadeus, no sul da Fran\u00e7a, dando nome ao santu\u00e1rio de Rocamadour. Lendas interessantes que fizeram surgir cidades, rotas e santu\u00e1rios, ainda hoje cheios de vida.<br \/>\nEste amor pelo \u00edcone como Algu\u00e9m que se venera ou adora deu origem, na Igreja, em certas \u00e9pocas, sobretudo nos s\u00e9culos VIII e IX \u00e0 crise iconoclasta, que criou muita confus\u00e3o, um conc\u00edlio em Niceia e outro em Constantinopla, e muitos m\u00e1rtires. Havia santos dos dois lados, pois uns se fundavam na necessidade de n\u00e3o adorar imagens, como diz a B\u00edblia no Antigo testamento. Outros justificavam-nas pelo facto de Deus ter adquirido humanidade em Jesus Cristo, sendo \u201cimagem do Pai\u201d. Para o Ocidente, as imagens e pinturas serviam de catecismo, pois o povo era analfabeto, tamb\u00e9m na f\u00e9\u2026 Para o oriental, \u00e9 a pr\u00f3pria presen\u00e7a de Deus.<br \/>\nCondenado o iconoclastismo, o culto dos \u00edcones difunde-se, hoje mais ainda, tamb\u00e9m na Igreja ocidental, gra\u00e7as ao movimento de Taiz\u00e9, entre outros. Os grandes centros de produ\u00e7\u00e3o sagrada s\u00e3o o Monte Athos, na Gr\u00e9cia, e os seus conventos filiais em todo o mundo, e as comunidades cat\u00f3licas das monjas de Bel\u00e9m, que misturam, como cartuxas, a espiritualidade de S\u00e3o Bruno e as pr\u00e1ticas orientais de encontro com Deus. Tamb\u00e9m \u00e9 curioso que Bernadete n\u00e3o gostava da imagem colocada na gruta de Lourdes, mas quando viu o \u00edcone de Nossa Senhora de Cambrai, feio para n\u00f3s, ela teria dito: \u201cEsta \u00e9 a Senhora que eu vi na gruta!\u201d<br \/>\nEscrevo isto ao ver o Estado Isl\u00e2mico destruir as imagens da Antiga Ass\u00edria, por serem pag\u00e3s, coisa que os talib\u00e3s j\u00e1 tinham feito com os Budas do Afeganist\u00e3o, ou os crist\u00e3os, com as pinturas dos fara\u00f3s em todo o Egito, ou dos deuses maias e aztecas, sob o pretexto de serem do dem\u00f3nio. Na B\u00edblia, d\u00e1-se a destrui\u00e7\u00e3o dos \u00eddolos pelos soldados do Povo de Israel. E os mu\u00e7ulmanos e hindus destru\u00edram as nossas imagens cat\u00f3licas. A mesma destrui\u00e7\u00e3o verificamos em v\u00e1rios ramos de protestantes e seitas, como a IURD ou as Testemunhas de Jeov\u00e1.<br \/>\nMesmo na Igreja cat\u00f3lica, depois do Conc\u00edlio Vaticano II, por uma p\u00e9ssima interpreta\u00e7\u00e3o da liturgia ensinada pelo mesmo, imenso patrim\u00f3nio das nossas igrejas, sobretudo barroco, foi destru\u00eddo e queimado pelos nossos sacerdotes. Imagens foram colocadas em arrecada\u00e7\u00f5es, museus e sacristias, quando n\u00e3o no lixo, criando Igrejas vazias de s\u00edmbolos, ou com s\u00edmbolos que o povo simples n\u00e3o sabe ler nem apreciar. Crise iconoclasta de ontem, de hoje e de sempre. Por vezes tamb\u00e9m provocada pelo exagero e pelo fanatismo e supersti\u00e7\u00e3o, dos que t\u00eam imagens e as veneram.<br \/>\nHoje vende-se em F\u00e1tima uma Iemanj\u00e1, que \u00e9 uma entidade afrobrasileira, ao lado da Senhora de F\u00e1tima, e n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que me pedem para aben\u00e7o\u00e1-las, pensando que se trata de Nossa Senhora das Gra\u00e7as ou de uma santa. Para n\u00e3o falar no imenso mau gosto na confe\u00e7\u00e3o de imagens. Algumas mais assustam do que promovem bons sentimentos, sobretudo nossas senhoras de F\u00e1tima de nariz ao lado ou boca torta, de m\u00e3os inchadas ou p\u00e9s com seis ou sete dedos, como j\u00e1 vi. N\u00e3o admira que a capela de Redou\u00e7a, \u00fanica no seu estilo, por ser mais cultural que ecum\u00e9nica, tenha sido alvo de muita cr\u00edtica, apesar de ter a aprova\u00e7\u00e3o de te\u00f3logos muito considerados, de ter merecido um programa de televis\u00e3o e hoje ser patrim\u00f3nio cultural de Cedrim do Vouga, em Sever do Vouga. E nisto tudo pensei ao ver os crimes culturais da ignor\u00e2ncia, quando a religi\u00e3o de hoje anula os valores de ontem, destruindo-os pura e simplesmente, fazendo muitos pensarem que a religi\u00e3o s\u00f3 serve para destruir a cultura, por vezes milenar.<br \/>\nMas, o que mais me choca \u00e9 que, a par destas realidades, os mesmos iconoclastas matam pessoas de um modo que faz inveja a Hitler ou a Estaline. Vemos uma prociss\u00e3o de gente assassinada em todo o mundo, pelos mais diferentes motivos, desde o aborto, que \u00e9 crime e assassinato do inocente n\u00e3o nascido, at\u00e9 assaltos, viola\u00e7\u00f5es e decapita\u00e7\u00f5es filmadas, gente cozida em jaulas, crian\u00e7as enterradas vivas ou esmagadas pelos p\u00e9s dos sacerdotes isl\u00e2micos do fanatismo, entre outras correntes de pensamento que n\u00e3o t\u00eam problema em matar, para excluir e silenciar. Acredito que at\u00e9 dentro da pr\u00f3pria Igreja\u2026 Vemos o sofrimento de tantos homens obrigados a calar suas ideias, ou op\u00e7\u00f5es, para se salvarem institui\u00e7\u00f5es ou regimes pol\u00edticos. Uma multid\u00e3o de homens e mulheres, verdadeiras imagens do Deus vivo, dividida em pretos e brancos, europeus ou chineses, gays e heteros, cat\u00f3licos e protestantes, de etnias variadas em \u00c1frica, como foi no Ruanda, ou silesianos e polacos, xiitas e sunitas\u2026 Enfim, uma diferen\u00e7a que, em vez de complementar, leva \u00e0 pior das crises iconoclastas, uma diferen\u00e7a que est\u00e1 presente em toda a hist\u00f3ria da humanidade: a dor ou a morte de homens e mulheres, pelo simples facto de terem nascido diferentes dos outros que det\u00eam o poder\u2026 Por isso, ao olhar para a imagem de Jesus Cristo, imagem do Pai, somos convidados a reconhecer que Deus est\u00e1 presente nas suas imagens, \u00edcones vivos, que t\u00eam olhos para brilhar, l\u00e1bios para sorrir e cora\u00e7\u00e3o cheios de amor e beleza a palpitar: os humanos, nossos irm\u00e3os.<br \/>\n<strong>Vitor Espadilha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra \u201c\u00edcone\u201d refere-se a imagem sagrada. 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