{"id":25890,"date":"2015-06-04T13:44:36","date_gmt":"2015-06-04T13:44:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=25890"},"modified":"2015-06-04T13:44:36","modified_gmt":"2015-06-04T13:44:36","slug":"a-divida-que-o-cristianismo-nunca-cobrou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-divida-que-o-cristianismo-nunca-cobrou\/","title":{"rendered":"A d\u00edvida que o Cristianismo nunca cobrou"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 245px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25043 size-medium\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg\" alt=\"LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA Professor\" width=\"245\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg 245w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 245px) 100vw, 245px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/> Professor<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A d\u00edvida do Ocidente ao Cristianismo ultrapassa, largamente, o \u00e2mbito das enumera\u00e7\u00f5es de todos os nomes que contribu\u00edram para a cultura, para a ci\u00eancia, para as artes, para os temas de literatura ou muitos outros \u00e2mbitos que possam enumerar-se. Provavelmente, entre os maiores contributos que se devem ao Cristianismo est\u00e1, t\u00e3o simplesmente, um conceito, uma ideia. A ideia de Pessoa. Os gregos n\u00e3o a tinham. Os gregos fundiam os indiv\u00edduos ou na ordem da natureza, da ess\u00eancia, ou no \u00e2mbito da sua atua\u00e7\u00e3o enquanto cidad\u00e3os. N\u00e3o tinham, nem por sombras, a ideia de pessoa que veio a forjar-se no contexto pol\u00e9mico das discuss\u00f5es sobre a Trindade, que quase dividiram em duas a Igreja crist\u00e3, em pleno s\u00e9culo IV.<br \/>\nNa verdade, a ideia de \u00abpessoa\u00bb s\u00f3 se concebe quando, perante a constata\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de que Deus n\u00e3o podia sen\u00e3o ser um s\u00f3, mas que se revelara como Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, se verifica que era preciso encontrar uma no\u00e7\u00e3o capaz de dizer a diversidade em Deus, sem nessa afirma\u00e7\u00e3o se perder a unidade.<br \/>\nMais ainda, havia que superar um limite que a filosofia (a metaf\u00edsica, para ser mais preciso) de Arist\u00f3teles impunha: na t\u00e1bua das categorias aristot\u00e9licas, a \u00abrela\u00e7\u00e3o\u00bb era compreendida como um acidente, isto \u00e9, como um acrescento que se adicionava \u00e0 subst\u00e2ncia, \u00e0quilo que era subjacente a determinado ente e que definia a sua natureza pr\u00f3pria. O dilema estava em encontrar o equil\u00edbrio entre afirmar a unidade, sem esconder a diversidade num qualquer modalismo (como fazia Sab\u00e9lio e outros) ou afirmar a diversidade de tal modo que, para n\u00e3o se cair no trite\u00edsmo (tr\u00eas deuses), se acabava por diminuir a \u00abdivindade\u00bb do Filho e do Esp\u00edrito Santo, caindo no adocionismo de tipo arianista.<br \/>\nA resposta a este duro dilema deu-se porque os crist\u00e3os dos primeiros s\u00e9culos souberam perceber que os dogmas n\u00e3o s\u00e3o verdades fechadas, mas desafios que interpelam a superar as barreiras dos limites conceptuais. Sempre assim foi, ao longo da hist\u00f3ria, apesar da ideia errada de que os dogmas da Igreja s\u00e3o manifesta\u00e7\u00e3o de um pensamento \u00abdogm\u00e1tico\u00bb, no sentido de a-cr\u00edtico. Tal n\u00e3o \u00e9, de facto, verdade, e, pelo contr\u00e1rio, constituiu-se como repto a descobrirem-se formas de dizer o que parecia indiz\u00edvel.<br \/>\nAssim aconteceu com o problema da unidade e diversidade de e em Deus. Tal s\u00f3 foi poss\u00edvel organizar-se em pensamento compreens\u00edvel atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o do conceito de pessoa. Na verdade, s\u00f3 se compreende a fecundidade deste conceito se nos dermos conta de que ele n\u00e3o se confunde com o de indiv\u00edduo. Com efeito, se a ideia de pessoa coincidisse com a de indiv\u00edduo, numa perspetiva de algo fechado em si mesmo e quantific\u00e1vel, o risco de afirma\u00e7\u00e3o de tr\u00eas deuses seria enorme. Havia, por isso, que encontrar outro conceito que, em si mesmo, integrasse, contrariamente aos limites aristot\u00e9licos, a ideia de rela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTalvez o maior contributo para esta supera\u00e7\u00e3o nos venha de Santo Agostinho, na sua obra De Trinitate, escrita ao longo de vinte anos. Ao centrar a sua reflex\u00e3o na ideia do amor, tomando a defini\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia feita por S. Jo\u00e3o, o bispo de Hipona retira a relacionalidade do \u00e2mbito dos acidentes conferindo-lhe o car\u00e1ter essencial que pode, ent\u00e3o, ser reconhecido em Deus. Deus \u00e9, ent\u00e3o, tr\u00eas pessoas enquanto em si mesmo \u00e9 rela\u00e7\u00e3o ativa, \u00e9 um uno que se faz da diversidade que se interrelaciona. Ser pessoa \u00e9 isto: mais do que o que entendia Bo\u00e9cio, que dizia que pessoa \u00e9 \u00absubst\u00e2ncia individual de natureza racional\u00bb, ser pessoa \u00e9 rela\u00e7\u00e3o consciente e subsistente. \u00c9 um n\u00e3o poder ser sem ser em rela\u00e7\u00e3o. E isto \u00e9 uma grande d\u00edvida que temos para com o Cristianismo: a afirma\u00e7\u00e3o de que, por sermos criados \u00e0 imagem de Deus que \u00e9, em si mesmo, rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos sen\u00e3o ser relacionais. A individualiza\u00e7\u00e3o que a modernidade nos trouxe trai a nossa condi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o somos, primeiramente, indiv\u00edduos, como se pud\u00e9ssemos entender-nos sem os outros ou, mesmo, apesar dos outros. N\u00e3o! N\u00f3s n\u00e3o nos podemos entender sem, primeiramente, nos reconhecermos nascidos dos outros e para os outros. Nesta defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil verificar que aqui radica o \u00abpecado original\u00bb das sociedades modernas. Ao afirmarem, primeiramente, que somos \u00abindiv\u00edduos\u00bb, antes de sermos \u00abpessoas\u00bb, consideram a rela\u00e7\u00e3o um acidente, um ap\u00eandice n\u00e3o necess\u00e1rio e n\u00e3o essencial. E isso desumaniza-nos porque, enquanto humanos, enquanto criados como seres que refletem, radicalmente, a natureza de Deus, somos seres para a rela\u00e7\u00e3o, seres de rela\u00e7\u00e3o. Muitos dizem, ali\u00e1s, que a \u00abminha liberdade onde acaba a do outro\u00bb. Nada mais falso. Se assim fosse, os outros seriam um estorvo e o aumento da nossa liberdade dependeria da sua elimina\u00e7\u00e3o. Ora, os outros s\u00e3o um estorvo numa vis\u00e3o de sociedade assente na ideia de que somos indiv\u00edduos. Mas, para uma sociedade de pessoas (sociedade diz \u00abcomunidade de amigos\u00bb [\u00absocius\u00bb, em latim, quer dizer \u00abamigo\u00bb]), a minha liberdade n\u00e3o pode sen\u00e3o aumentar, na medida em que fizer aumentar a do outro, e diminuir, na medida em que diminuir a dos outros.<br \/>\nA d\u00edvida, de facto, ao Cristianismo, n\u00e3o para de aumentar quanto mais vemos o abismo para onde caminha uma sociedade de indiv\u00edduos. Urge, por isso, recuperar a no\u00e7\u00e3o central de \u00abpessoa\u00bb enquanto intrinsecamente definidora de que somos, por natureza, seres de rela\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com os outros n\u00e3o \u00e9 um acidente, um ap\u00eandice, mas condi\u00e7\u00e3o da nossa defini\u00e7\u00e3o como humanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; A d\u00edvida do Ocidente ao Cristianismo ultrapassa, largamente, o \u00e2mbito das enumera\u00e7\u00f5es de todos os nomes que contribu\u00edram para a cultura, para a ci\u00eancia, para as artes, para os temas de literatura ou muitos outros \u00e2mbitos que possam enumerar-se. 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