{"id":259,"date":"2010-01-13T09:48:00","date_gmt":"2010-01-13T09:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=259"},"modified":"2010-01-13T09:48:00","modified_gmt":"2010-01-13T09:48:00","slug":"acredito-no-sistema-democratico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/acredito-no-sistema-democratico\/","title":{"rendered":"&#8220;Acredito no sistema democr\u00e1tico&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, aborda o actual ambiente pol\u00edtico de \u201ccrispa\u00e7\u00e3o\u201d.  Sobre a lei do casamento homossexual, entretanto aprovada no Parlamento, considera que mudar a compreens\u00e3o milenar do casamento pode ter \u201cconsequ\u00eancias grav\u00edssimas no futuro\u201d<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; 2009 foi um ano com tr\u00eas actos eleitorais. Eles contribu\u00edram para fortalecer Portugal?<\/p>\n<p>D. JOS\u00c9 DA CRUZ POLICARPO \u2013 Os actos democr\u00e1ticos s\u00e3o, em si mesmos, uma express\u00e3o importante da conviv\u00eancia democr\u00e1tica. Penso que decorreram com boa participa\u00e7\u00e3o, com debates de ideias.<\/p>\n<p>Pessoalmente sou sempre sens\u00edvel ao lugar que se d\u00e1 a uma certa agressividade no discurso durante as campanhas eleitorais, em desfavor de um debate muito mais sereno de ideias. Apesar de tudo ele existiu e os portugueses votaram em liberdade e com uma participa\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia mais dif\u00edcil e mais exigente dos actos eleitorais \u00e9 a coer\u00eancia com as exig\u00eancias da vida democr\u00e1tica, tanto dos que votaram como dos votados. Todos sabemos que o contexto actual \u00e9 exigente. A minoria do Governo d\u00e1 ao Parlamento uma interven\u00e7\u00e3o e um poder que n\u00e3o tinha na maioria absoluta, o que traz aos representantes do povo no na Assembleia da Rep\u00fablica uma responsabilidade acrescida de porem sempre o bem de Portugal acima dos interesses partid\u00e1rios.<\/p>\n<p>Percebe-se no horizonte da ac\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos a constru\u00e7\u00e3o do bem comum?<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos dizer que n\u00e3o! O problema \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o bem comum para uma comunidade, a portuguesa, no momento concreto da sua hist\u00f3ria. E a\u00ed tenho sentido que n\u00e3o h\u00e1 acordos, nomeadamente na consci\u00eancia do que \u00e9 o melhor para Portugal. E era poss\u00edvel dar passos maiores nesse di\u00e1logo.<\/p>\n<p>O instrumento principal da democracia \u00e9 o di\u00e1logo: a negocia\u00e7\u00e3o, o debate de ideias, o compromisso, o saber arriscar, o saber ceder em nome exactamente do bem comum e definir o que ele \u00e9. N\u00e3o dar passos nesse di\u00e1logo \u00e9 uma fragilidade da nossa democracia, que espero que o futuro corrija. O povo portugu\u00eas, na riqueza das suas diferen\u00e7as, merece mais!<\/p>\n<p>Ser\u00e1 necess\u00e1rio rever o equil\u00edbrio e a distribui\u00e7\u00e3o dos poderes pelos \u00f3rg\u00e3os de soberania?<\/p>\n<p>A ess\u00eancia dos regimes democr\u00e1ticos \u00e9 a autonomia dos poderes: legislativo, executivo e judicial. A autonomia n\u00e3o significa, no entanto, que n\u00e3o haja converg\u00eancia, di\u00e1logo e debate. <\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>A quest\u00e3o crucial do progresso democr\u00e1tico est\u00e1 na capacidade de definir o bem comum, na capacidade de di\u00e1logo, de servi\u00e7o \u00e0 Na\u00e7\u00e3o e de compreender o pa\u00eds que se governa, num debate que tenha mais profundidade cultural.<\/p>\n<p>Contrariamente a esse objectivo, o debate pol\u00edtico entre n\u00f3s vai acontecendo num ambiente de crispa\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Tem per\u00edodos\u2026 A crispa\u00e7\u00e3o faz parte do sistema! \u00c9 humana. Mas o ambiente interpessoal dos pol\u00edticos n\u00e3o \u00e9 necessariamente o que salta na crispa\u00e7\u00e3o de uma discuss\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Apesar de tudo isso se poder mitigar, n\u00e3o \u00e9 da\u00ed que vem o mal ao pa\u00eds. O problema s\u00e9rio \u00e9 o do di\u00e1logo com qualidade, da lucidez para ver o caminho que Portugal precisa e as prioridades que \u00e9 preciso estabelecer\u2026<\/p>\n<p>Pessoalmente, n\u00e3o compreendo como, em momentos de grande dificuldade para Portugal, n\u00e3o sejam poss\u00edveis consensos maiorit\u00e1rios sobre duas ou tr\u00eas quest\u00f5es, a concretizar independentemente dos governos serem de centro-direita ou centro-esquerda.<\/p>\n<p>Que quest\u00f5es?<\/p>\n<p>Em cada momento s\u00e3o variadas\u2026 Agora est\u00e1 muito em causa o endividamento p\u00fablico: merecia um consenso. Ou a quest\u00e3o da regionaliza\u00e7\u00e3o, que da primeira vez foi mal resolvida\u2026<\/p>\n<p>Existem condi\u00e7\u00f5es de di\u00e1logo para levar esta legislatura at\u00e9 ao fim?<\/p>\n<p>Responder que n\u00e3o a isso significaria dizer que deixo de acreditar na democracia. E n\u00e3o \u00e9 verdade! Eu acredito no sistema democr\u00e1tico, com todos os limites humanos. Acredito at\u00e9 no esfor\u00e7o e na sinceridade da maior parte daqueles senhores, alguns deles com uma vida muito sacrificada (outros menos\u2026). Acredito na generosidade dos principais fazedores da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo, a opini\u00e3o do Patriarca de Lisboa foi confirmada numa Carta \u00e0s Comunidades Crist\u00e3s, onde afirma que a Igreja \u201cusar\u00e1 os meios e os modos consent\u00e2neos com a sua miss\u00e3o\u201d para travar leis que \u201cferem gravemente a compreens\u00e3o crist\u00e3 do homem e da sociedade\u201d. Que meios s\u00e3o esses?<\/p>\n<p>A grande arma da Igreja \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da palavra. O segundo meio \u00e9 o di\u00e1logo, paciente, para o qual eu estou sempre dispon\u00edvel, como digo na Carta.<\/p>\n<p>Diante de quest\u00f5es muito \u201cquentes\u201d, \u00e9ticas, que tocam a consci\u00eancia, os cat\u00f3licos que s\u00e3o muito contra correm o risco de ficar na plataforma pol\u00edtica, de reagir s\u00f3 politicamente. O que \u00e9 leg\u00edtimo, no exerc\u00edcio da democracia. Mas o meio cl\u00e1ssico de a Igreja estar na sociedade \u00e9 o testemunho dos crist\u00e3os, a diferen\u00e7a marcada pela atitude que se tem diante das realidades e o di\u00e1logo com toda a gente.<\/p>\n<p>Que coment\u00e1rio lhe merece o facto de esta iniciativa aparecer em contexto natal\u00edcio? \u00c9 infeliz?<\/p>\n<p>Vejo mais a pressa em resolver isto rapidamente\u2026 Esta quest\u00e3o tem uma press\u00e3o internacional muito grande. H\u00e1 um lobby muito forte, que se faz sentir no quadro da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O problema que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a homossexualidade. Se a discutirmos, o discurso tem outros par\u00e2metros. Neste momento est\u00e1 em causa a natureza do casamento. Que n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o religiosa, antes cultural. As culturas milenares consideram o casamento um contrato entre um homem e uma mulher, que d\u00e1 lugar a uma institui\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia. Mudar esta compreens\u00e3o milenar do que \u00e9 a fam\u00edlia na humanidade pode ter consequ\u00eancias grav\u00edssimas no futuro.<\/p>\n<p>Em conversa particular, considerei que se os homossexuais tivessem direito ao casamento eu seria o primeiro a defend\u00ea-lo\u2026 Mas creio que n\u00e3o t\u00eam direito ao casamento. Chamem-lhe outra coisa! A natureza est\u00e1 feita assim. E ainda bem!<\/p>\n<p>Falou nesse lobby internacional. As quest\u00f5es \u00e9ticas, de fronteira, v\u00e3o-se sucedendo e constituindo-se em Direito. At\u00e9 onde?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei\u2026 Hoje um dos problemas da sociedade \u00e9 que deixou de reagir a longo prazo, o que s\u00f3 se consegue apanhando a onda de profundidade, n\u00e3o de superf\u00edcie.<\/p>\n<p>No mundo moderno, pelo ritmo que adquiriu e pela compara\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel entre civiliza\u00e7\u00f5es que a globaliza\u00e7\u00e3o nos traz, as pessoas v\u00eaem-se confrontadas com a mudan\u00e7a r\u00e1pida. Aonde isso nos leva n\u00e3o sei. Mas acredito que haver\u00e1 reac\u00e7\u00f5es de fundo e de profundidade. E acredito que o interc\u00e2mbio de civiliza\u00e7\u00f5es ter\u00e1 influ\u00eancia.<\/p>\n<p>A nossa sociedade est\u00e1 assente em ci\u00eancia, tecnologia e defesa dos direitos, por vezes concebidos numa compreens\u00e3o da liberdade sem responsabilidade. Tudo isto precisa de uma reflex\u00e3o, do debate pol\u00edtico alargado ao debate cultural, onde todos temos o direito e o dever de participar. Se isto ser\u00e1 a degeneresc\u00eancia completa da sociedade, n\u00e3o sei. Espero que n\u00e3o, porque acredito nas ondas de fundo!<\/p>\n<p>Infelizmente, a hist\u00f3ria mostra-nos que as grandes mudan\u00e7as de correc\u00e7\u00e3o vieram com grandes crises de sofrimento, guerras ou outras. Que Deus nos d\u00ea a sabedoria de as fazer sem ser \u00e0 for\u00e7a, provocadas por um grande sofrimento colectivo.<\/p>\n<p>Que oportunidade constituir\u00e1 a visita de Bento XVI a Portugal, em Maio pr\u00f3ximo?<\/p>\n<p>A visita do Papa \u00e9 sempre um grande acontecimento. Portugal, desde a sua nacionalidade, tem uma rela\u00e7\u00e3o cong\u00e9nita com a sede de Pedro, o que considero um dos baluartes mais significativos da nossa cultura cat\u00f3lica. Com altos e baixos, mas sem nunca romper uma componente fundamental da f\u00e9 dos portugueses: uma liga\u00e7\u00e3o muito forte \u00e0 figura do Papa como sucessor de Pedro, seja ele quem for. Para n\u00f3s, esta visita de Bento XVI \u00e9 uma \u00f3ptima oportunidade de, ele e n\u00f3s, aproveitarmos o melhor poss\u00edvel a afirma\u00e7\u00e3o da Igreja nesta sociedade, que ainda n\u00e3o se esqueceu dela mas n\u00e3o lhe tem o amor que j\u00e1 teve!<\/p>\n<p>Entrevista conduzida por Paulo Rocha, <\/p>\n<p>da Ag\u00eancia Ecclesia. Vers\u00e3o integral em www.agencia.ecclesia.pt.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, aborda o actual ambiente pol\u00edtico de \u201ccrispa\u00e7\u00e3o\u201d. 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