{"id":2590,"date":"2010-10-06T09:50:00","date_gmt":"2010-10-06T09:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2590"},"modified":"2010-10-06T09:50:00","modified_gmt":"2010-10-06T09:50:00","slug":"como-aveiro-acolheu-o-novo-regime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/como-aveiro-acolheu-o-novo-regime\/","title":{"rendered":"Como Aveiro acolheu o novo regime"},"content":{"rendered":"<p>A Rep\u00fablica chegou a Aveiro no dia 6 de Outubro. Foi acolhida com festa. Havia na cidade diversos n\u00facleos republicanos.<\/p>\n<p>O dia 5 de Outubro de 1910, uma quarta-feira, em Aveiro, foi um dia como os outros. Nada de especial aconteceu. A not\u00edcia da implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica s\u00f3 chegou no dia seguinte. E o povo saiu \u00e0 rua.<\/p>\n<p>Monsenhor Jo\u00e3o Gaspar, padre e historiador, por estes dias tem falado em v\u00e1rios s\u00edtios sobre os acontecimentos de h\u00e1 cem anos. Nos apontamentos que facultou a este jornal, afirma: \u201cEstabelecida a Rep\u00fablica durante a madrugada [do dia 5, em Lisboa], a not\u00edcia chegou a Aveiro, primeiro duvidosa, mas depois, no dia seguinte, totalmente certa. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram como os de hoje e o corte das linhas telef\u00f3nicas dificultava as informa\u00e7\u00f5es de Lisboa\u201d.<\/p>\n<p>Antecedentes republicanos<\/p>\n<p>Cidade com algumas tradi\u00e7\u00f5es liberais, Aveiro tinha antecedentes republicanos. Em 1881, Francisco Manuel Homem Christo (1860-1943), ma\u00e7on que viria a romper com a organiza\u00e7\u00e3o secreta e seria um dos apoiantes da restaura\u00e7\u00e3o da Diocese de Aveiro, funda o Centro Eleitoral Republicano Aveirense. E no jornal \u201cO Povo de Aveiro\u201d, que lan\u00e7a no ano seguinte, \u201corientar-se-ia por essa parcialidade ideol\u00f3gica\u201d, segundo express\u00e3o de Mons. Jo\u00e3o Gaspar. Ligado a Aveiro est\u00e1 tamb\u00e9m Sebasti\u00e3o de Magalh\u00e3es Lima, o caixeiro-viajante da Rep\u00fablica, como escreveu Cardoso Ferreira na semana passada, neste jornal. N\u00e3o era aveirense por nascimento, mas sim pela ascend\u00eancia paterna, que era da vila de Eixo. \u201cEle e Homem Cristo \u2013 afirma Mons. Jo\u00e3o Gaspar \u2013 eram amigos; mas as vicissitudes da pol\u00edtica acabariam por afast\u00e1-los, \u00e0s vezes com choques violentos e palavras desabridas\u201d.<\/p>\n<p>Na cidade dos canais, ainda no tempo da monarquia, houve mais tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es republicanas: o Comit\u00e9 Revolucion\u00e1rio de Aveiro, a Comiss\u00e3o Municipal Republicana e o Centro Escolar Republicano. A primeira foi criada antes da gorada revolu\u00e7\u00e3o portuense de 31 de Janeiro de 1891. Devia proclamar a Rep\u00fablica ap\u00f3s o grito da revolta a soltar na \u201cCidade Invicta\u201d. A segunda existiu por volta de 1900 e 1901. A terceira e mais importante foi inaugurada no primeiro trimestre de 1909 por Manuel de Arriaga, futuro presidente da Rep\u00fablica. O Centro Escolar Republicano estava instalado numa casa no topo da Rua Jos\u00e9 Est\u00eav\u00e3o e organizava confer\u00eancias e palestras. Presume-se que os seus l\u00edderes estavam a par da prepara\u00e7\u00e3o do 5 de Outubro e sabe-se que guardavam armas numa casa de Oliveirinha que pertencia \u00e0 fam\u00edlia de Jos\u00e9 Luciano de Castro, ministro e figura maior da monarquia constitucional.<\/p>\n<p>Dia 5 pacato, dia 6 com \u201cvivas!\u201d<\/p>\n<p>Perante este ambiente, se no dia 5 de Outubro, por desconhecimento dos factos ocorridos na capital, \u201co ber\u00e7o da liberdade chamado n\u00e3o se manifestou, n\u00e3o veio \u00e0 rua de armas na m\u00e3o, e, defesa ou das velhas institui\u00e7\u00f5es ou da causa da Rep\u00fablica\u201d, como escreveu o \u201cCampe\u00e3o das Prov\u00edncias\u201d de 8 de Outubro de 1910, no dia seguinte o povo saudou efusivamente o novo regime. Escreve Mons. Jo\u00e3o Gaspar: \u201cConhecendo-se em Aveiro o desfecho favor\u00e1vel da implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica quando dealbava o dia 6, a popula\u00e7\u00e3o exteriorizou-se em grande o entusiasmo, que se espalhou pelas ruas e pra\u00e7as da cidade\u201d. O reconhecimento p\u00fablico da implanta\u00e7\u00e3o deu-se no edif\u00edcio dos Pa\u00e7os do Concelho, \u201conde a bandeira vermelha e verde \u2013 a do Centro Escolar Republicano \u2013 foi solenemente hasteada \u00e0s tr\u00eas horas da tarde pelo dr. Andr\u00e9 Jo\u00e3o dos Reis, entre as aclama\u00e7\u00f5es calorosas do povo, os aplausos dos adeptos dos ideais triunfantes e os acordes musicais de \u00abA Portuguesa\u00bb, executados pela Banda Amizade\u201d. Seguiram-se manifesta\u00e7\u00f5es e cortejos pela cidade. \u201cNessa mesma ocasi\u00e3o \u2013 adianta Mons. Jo\u00e3o Gaspar \u2013, arbitrariamente tomou posse da C\u00e2mara Municipal o Comit\u00e9 Revolucion\u00e1rio de Aveiro, que apenas se manteve em fun\u00e7\u00f5es at\u00e9 ao dia 9 seguinte\u201d. O primeiro acto solene do munic\u00edpio teve nesse dia, pelas 13h. Tratou-se de dar posse aos vogais efectivos da Comiss\u00e3o Administrativa do Concelho de Aveiro.<\/p>\n<p>Os primeiros anos da Rep\u00fablica foram, para a Igreja, tempos de dificuldade por perda de bens e de liberdade de ac\u00e7\u00e3o. N\u00e3o uma separa\u00e7\u00e3o deste tipo que pretendia. Em Aveiro, tanto quando se pode saber, as perdas n\u00e3o foram t\u00e3o sentidas como noutros locais, n\u00e3o s\u00f3 porque n\u00e3o era sede de diocese (s\u00f3 seria restaurada em 1938), mas tamb\u00e9m porque os grandes edif\u00edcios religiosos como o Convento de S. Domingos (Museu de Aveiro) e o Convento Madre Deus (Quartel de S\u00e1) j\u00e1 haviam sido tomados pelo Estado respectivamente em 1870 (morte da \u00faltima religiosa) e em 1890 (por ced\u00eancia do Bispo de Coimbra). J\u00e1 ao n\u00edvel da pr\u00e1tica pastoral, o anticlericalismo do novo regime notou-se, por exemplo, na proibi\u00e7\u00e3o da leitura de documentos dos bispos portugueses nas igrejas \u2013 o que levou \u00e0 pris\u00e3o de bispos e padres, mas tamb\u00e9m obrigou o clero \u00e0 procura de solu\u00e7\u00f5es criativas. Conta Mons. Jo\u00e3o Gaspar que o P.e Manuel Ferreira da Costa, natural do Pr\u00e9stimo (\u00c1gueda), perante a proibi\u00e7\u00e3o, seguiu uma estrat\u00e9gia original: \u201c\u00c9 proibido ler, mas n\u00e3o dizer\u201d. Decorou o documento do episcopado e declamou-o ao povo.<\/p>\n<p>J.P.F.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Rep\u00fablica chegou a Aveiro no dia 6 de Outubro. Foi acolhida com festa. 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