{"id":2607,"date":"2010-10-13T09:38:00","date_gmt":"2010-10-13T09:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2607"},"modified":"2010-10-13T09:38:00","modified_gmt":"2010-10-13T09:38:00","slug":"temos-uma-cultura-de-irresponsabilidade-em-relacao-aos-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/temos-uma-cultura-de-irresponsabilidade-em-relacao-aos-animais\/","title":{"rendered":"&#8220;Temos uma cultura de irresponsabilidade em rela\u00e7\u00e3o aos animais&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Isabel Segad\u00e3es \u00e9 um dos principais rostos da defesa dos animais abandonados em Aveiro. Dirigente da associa\u00e7\u00e3o Perdidos e Achados (www.perdidos-e-achados.info), ainda que demission\u00e1ria, aceitou falar com o Correio do Vouga sobre a protec\u00e7\u00e3o animal, embora critique que a imprensa s\u00f3 se lembra da quest\u00e3o por altura do Dia Mundial do Animal (4 de Outubro, dia de S. Francisco de Assis). Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; Como est\u00e1 a associa\u00e7\u00e3o Perdidos e Achados?<\/p>\n<p>ISABEL SEGAD\u00c3ES &#8211; Est\u00e1 numa letargia total, como associa\u00e7\u00e3o. Eu pr\u00f3pria j\u00e1 pedi ao presidente da assembleia, por carta, a minha demiss\u00e3o, por nenhum outro motivo que n\u00e3o o meu cansa\u00e7o e por achar que a associa\u00e7\u00e3o deve ter uma nova direc\u00e7\u00e3o. Entendi n\u00e3o me envolver demasiado na associa\u00e7\u00e3o no que diz respeito aos aspectos formais, mas obviamente continuo o trabalho \u2013 isso farei sempre \u2013, pela defesa dos animais abandonados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a filia\u00e7\u00e3o a uma determinada associa\u00e7\u00e3o que nos garante a qualidade do nosso trabalho ou quantidade do nosso envolvimento. N\u00e3o \u00e9 por ter o carimbo de uma associa\u00e7\u00e3o que continuo a fazer este trabalho 24 horas por dia 365 dias por ano.<\/p>\n<p>Como \u00e9 esse trabalho?<\/p>\n<p>Essencialmente \u00e9 ter o telem\u00f3vel ligado e come\u00e7ar a receber telefonemas \u00e0s 9 da manh\u00e3 at\u00e9 ao final do dia. Telefonemas que s\u00e3o pedidos e apelos para protec\u00e7\u00e3o de animais que est\u00e3o na rua, que s\u00e3o den\u00fancias de maus tratos, pedidos de adop\u00e7\u00f5es, alguns, felizmente. E pessoas que querem fazer perguntas: \u201cAcha que devo ter um c\u00e3o?\u201d, \u201cQue tipo de c\u00e3o para o meu apartamento? Qual o perfil mais indicado?\u201d<\/p>\n<p>Aconselha essas pessoas?<\/p>\n<p>Claro que sim, por dois motivos, primeiro, porque tenho alguma experi\u00eancia \u2013 j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 19 anos \u2013, o que nos d\u00e1 a capacidade para conhecer todo o tipo de situa\u00e7\u00f5es, quer de acomoda\u00e7\u00e3o, quer da sa\u00fade, reac\u00e7\u00f5es, treino. Por outro lado, entendi fazer forma\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea para poder responder \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es que me s\u00e3o feitas.<\/p>\n<p>Isso levou a fazer um curso\u2026<\/p>\n<p>Isto levou-me a fazer um curso de auxiliar de veterin\u00e1ria, que terminou em Junho deste ano, e a matricular-me no curso de enfermagem veterin\u00e1ria, que vou come\u00e7ar, se Deus quiser e eu tiver sa\u00fade, agora em Outubro. Isto tudo na sequ\u00eancia da necessidade que eu pr\u00f3pria sentia de ter a capacidade de lidar com os animais, observ\u00e1-los, ter conhecimentos t\u00e9cnicos que me permitam detectar se o animal est\u00e1 mal ou bem. Dou um exemplo. Na semana passada foi encontrado na Universidade de Aveiro um animal ca\u00eddo no ch\u00e3o. Vieram ter comigo a dizer-me que o animal estava a morrer. Era um c\u00e3o. Gra\u00e7as aos conhecimentos t\u00e9cnicos, auscultei-o, fiz a palpa\u00e7\u00e3o, ouvi o batimento card\u00edaco, observei as gengivas e outros sinais que me permitiram concluir que o animal estava \u00f3ptimo. Estava era exausto. Isto permitiu-me, logo \u00e0 partida, eliminar o p\u00e2nico de encontrar um animal e dizer que ele est\u00e1 a morrer, como me acontecia antes, quando via um animal que n\u00e3o se levantava. Permite lidar com os animais com alguma calma e perceber o que \u00e9 um animal em perigo. Levei-o a um hospital veterin\u00e1rio e verificou-se que o meu diagn\u00f3stico, de facto, estava correcto.<\/p>\n<p>Falou-me do atendimento permanente do telem\u00f3vel. Mas o seu trabalho tamb\u00e9m \u00e9 no terreno.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Quantas sa\u00eddas faz por semana?<\/p>\n<p>N\u00e3o muitas. Uma ou duas. Costumo dizer que n\u00e3o sou bombeira. N\u00e3o \u00e9 essa minha finalidade. Muitas das chamadas que recebo s\u00e3o aparentemente de perigo, mas nem sempre h\u00e1 perigo algum.<\/p>\n<p>E quando algu\u00e9m lhe denuncia um caso de maus tratos, por exemplo, o que faz?<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o podemos fazer nada. As associa\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam qualquer poder legal para intervir no que diz respeito \u00e0 protec\u00e7\u00e3o dos animais. O poder legal \u00e9 das autoridades. Quando nos denunciam um caso, comunico-o \u00e0s autoridades. E todos sabemos que nada vale. Cai em saco roto. A PSP diz que \u00e9 com a Protec\u00e7\u00e3o Civil. A Protec\u00e7\u00e3o Civil diz que \u00e9 com a GNR. A GNR diz que \u00e9 com o SEPNA (Servi\u00e7o de Protec\u00e7\u00e3o da Natureza e do Ambiente), uma brigada da GNR que lida com estes casos. Isto \u00e9 o que me dizem. Mas quero deixar claro que s\u00f3 tenho a dizer bem da brigada da GNR. Todas as vezes que pedi uma interven\u00e7\u00e3o, tive uma resposta. Mas note-se que eu fa\u00e7o os telefonemas, dou-lhes as moradas, mas depois estou l\u00e1 no local com eles. De todas as vezes eles apareceram, n\u00f3s conversamos e tentaram resolver. Mas \u00e9 a \u00fanica autoridade de quem tenho essa opini\u00e3o. Das outras a resposta \u00e9 zero.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o tipo de maus tratos mais comuns?<\/p>\n<p>Deix\u00e1-los \u00e0 fome e \u00e0 sede. T\u00ea-los amarrados a uma corrente que n\u00e3o permite movimentos. Deix\u00e1-los \u00e0 chuva e ao sol. Espanc\u00e1-los.<\/p>\n<p>A par disso h\u00e1 sempre o abandono. H\u00e1 n\u00fameros sobre o abandono de animais em Aveiro? Aumenta por causa da crise?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho n\u00fameros. H\u00e1 muitas pessoas, em grupo e individualmente, a trabalhar pelos animais. Angariam fundos, recolhem animais, castram animais. Quantos mais grupos, melhor, pelo que \u00e9 dif\u00edcil ter dados concretos.<\/p>\n<p>Mas, na sua sensibilidade, aumentam ou diminuem os casos de abandono?<\/p>\n<p>Est\u00e1 aumentar. Mas isto n\u00e3o tem a ver com a crise econ\u00f3mica, mas sim com a cultura de um povo. Em Aveiro, salvo raras e honrosas excep\u00e7\u00f5es, o animal ainda \u00e9 tido como uma coisa que se tem amarrada l\u00e1 em casa para dar sinal. Enquanto a cultura for esta\u2026 Mas tamb\u00e9m h\u00e1 pessoas que percebem que n\u00e3o \u00e9 bem assim. H\u00e1 muita gente a querer o seu animal e a trat\u00e1-lo como ele merece. O abandono tem vindo a aumentar porque n\u00e3o h\u00e1 uma cultura de responsabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o acontece nada a quem abandona um animal?<\/p>\n<p>Em tudo o que fazemos, at\u00e9 a conduzir um autom\u00f3vel, se n\u00e3o houver responsabiliza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s transgredimos. A cultura portuguesa \u00e9 esta. Eu estou na estrada. Se n\u00e3o vir a pol\u00edcia, carrego no acelerador. Atropela-se uma pessoa. Se n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m a ver, foge-se. Esta \u00e9 a cultura que temos tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o aos animais. Se eu tenho um animal e n\u00e3o o quero, deito-o fora. Se n\u00e3o me penalizam, continuo a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguma zona da cidade onde se abandone mais?<\/p>\n<p>Nas aldeias abandona-se mais. E onde houver uma feira, quando a feira acaba, ficam sempre animais abandonados. A feira de Bustos, de Oliveirinha, da Palha\u00e7a\u2026 Quando acaba a feira, ficam sempre animais.<\/p>\n<p>S\u00e3o as pessoas que os deixam, ou s\u00e3o os animais \u00e0 solta que v\u00e3o l\u00e1 parar?<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os animais que v\u00e3o \u00e0 feira. S\u00e3o os feirantes que levam os animais \u00e0 feira.<\/p>\n<p>Nessas alturas, ligam-lhe.<\/p>\n<p>Nessas alturas, devia estar l\u00e1 a autoridade, porque a lei d\u00e1 uma coima de 500 a 3400 e tal euros a quem abandona um animal. Quem \u00e9 que j\u00e1 pagou alguma coima?<\/p>\n<p>E no tempo das f\u00e9rias? Diz-se que \u00e9 a altura de maior abandono.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se h\u00e1 um pico de abandono das f\u00e9rias. A minha experi\u00eancia diz que os motivos s\u00e3o outros. Ou porque o animal era pequeno e cresceu. Ou porque a cadela n\u00e3o foi castrada e fica prenha ou est\u00e1 com o cio. Ou porque nasce uma ninhada \u2013 porque as pessoas n\u00e3o castram os animais nem t\u00eam apoio para o fazer. As gatas e as cadelas enchem e as pessoas v\u00e3o p\u00f4r \u00e0 porta do vizinho uma caixa com as crias. Ou nos quintais dos outros. Ou no caixote do lixo. \u00c9 di\u00e1rio.<\/p>\n<p>As pessoas tamb\u00e9m se dirigem a si para adoptar animais?<\/p>\n<p>Sim, Tenho tr\u00eas ou quatro casos desses por m\u00eas.<\/p>\n<p>Como faz? Quais s\u00e3o os procedimentos?<\/p>\n<p>Conto como fa\u00e7o eu e o grupo que trabalha comigo. Somos quatro. Outros podem fazer de outra maneira. Detectamos o animal. S\u00f3 resgato o animal da rua se tiver onde o acolher. Sou contra o resgate ilimitado para espa\u00e7os ex\u00edguos, sem qualidade, onde est\u00e3o centenas de animais sem donos para eles. O animal s\u00f3 \u00e9 retirado da rua por dois motivos: ou porque est\u00e1 em perigo de sa\u00fade, porque foi atropelado, por exemplo, ou porque tenho algu\u00e9m que o acolha at\u00e9 \u00e0 adop\u00e7\u00e3o. Temos fam\u00edlias de acolhimento que ficam com os animais at\u00e9 \u00e0 adop\u00e7\u00e3o. T\u00eam espa\u00e7o e qualidade de vida. Antes disso, o animal vai sempre \u00e0 cl\u00ednica para ser observado. Temos protocolo com o Hospital Veterin\u00e1rio de Aveiro. \u00c9 desparasitado interna e externamente. Contamos tamb\u00e9m com a colabora\u00e7\u00e3o prestimosa do \u201cDi\u00e1rio de Aveiro\u201d, que faz o an\u00fancio do animal. Recebo oito a dez chamadas por an\u00fancio. Depois \u00e9 feito o cuidadoso filtro para escolhermos a pessoa indicada para receber o animal. O animal nunca vai sozinho. Vamos e verificamos se o novo dono tem condi\u00e7\u00f5es para o receber. Sou muito chata a fazer perguntas. Temos de saber se tem possibilidade econ\u00f3micas para lhe comprar ra\u00e7\u00e3o, levar ao veterin\u00e1rio, meter o microchip, etc. Se temos a certeza de que encontrou um bom lar, \u00e9 adoptado. Mesmo assim, durante dois ou tr\u00eas meses, eu vou visit\u00e1-lo. Quero confirmar se efectivamente est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Esse processo tem bons resultados?<\/p>\n<p>\u00c9 o \u00fanico que resulta bem.<\/p>\n<p>Como est\u00e3o os poderes p\u00fablicos de proximidade \u2013 c\u00e2maras, juntas de freguesia \u2013 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 protec\u00e7\u00e3o dos animais?<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o. Conhece algum? A C\u00e2mara de Aveiro, em rela\u00e7\u00e3o aos animais, n\u00e3o a conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 boas pr\u00e1ticas municipais neste dom\u00ednio, no pa\u00eds. Ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Cito sempre a C\u00e2mara de Valongo. Tem a intelig\u00eancia de ter um veterin\u00e1rio municipal, jovem, com uma cultura muito correcta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 protec\u00e7\u00e3o dos animais. Tem um canil com um bloco operat\u00f3rio que castra todos os animais que entram no canil. Faz campanhas de adop\u00e7\u00f5es. Trabalha com escolas e lares de terceira idade. Organiza visitas de estudo. Aveiro nem sequer deixa entrar no canil municipal, que s\u00e3o os armaz\u00e9ns ao p\u00e9 do Hospital. N\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para ter animais.<\/p>\n<p>Mas fala-se da constru\u00e7\u00e3o de um canil\u2026<\/p>\n<p>Fala-se h\u00e1 quase dez anos. J\u00e1 falei sobre isso com Alberto Souto e com \u00c9lio Maia e a sua equipa. E j\u00e1 n\u00e3o falo com mais presidente nenhum, enquanto n\u00e3o houver uma cultura de cidade para proteger os animais.<\/p>\n<p>De onde vem o seu amor e carinho pelos animais?<\/p>\n<p>Desde nascen\u00e7a. A minha m\u00e3e dizia que eu era beb\u00e9 e j\u00e1 dormia no meu ber\u00e7o com um cachorro. \u00c9 quase gen\u00e9tico. Isto tamb\u00e9m tem a ver com a minha liga\u00e7\u00e3o ao ambiente, \u00e0s quest\u00f5es do planeta, \u00e0 salvaguarda do ar puro, da beleza do planeta, \u00e0 conviv\u00eancia pac\u00edfica e saud\u00e1vel entre todas as esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Tem algo a ver com f\u00e9?<\/p>\n<p>Penso que n\u00e3o. Eu n\u00e3o tenho f\u00e9, mas tenho muita f\u00e9 em quem tem f\u00e9. \u00c0s vezes apetece-me ter f\u00e9, mas a f\u00e9 \u00e9 complicada para mim. Tem a ver com a organiza\u00e7\u00e3o natural do planeta.<\/p>\n<p>Que animais de estima\u00e7\u00e3o tem em sua casa?<\/p>\n<p>Tenho um c\u00e3o, o Caju, o \u00faltimo abandonado que recolhi, e duas cadelas, a Tica, j\u00e1 velhota, e a Cuca, que foi abandonada na cl\u00ednica. N\u00e3o tenho gatos, para desgosto meu, porque os meus c\u00e3es n\u00e3o gostam de gatos. Se entram l\u00e1 gatos, temos um filme de terror.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Segad\u00e3es \u00e9 um dos principais rostos da defesa dos animais abandonados em Aveiro. 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