{"id":26206,"date":"2015-09-17T09:23:39","date_gmt":"2015-09-17T09:23:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26206"},"modified":"2015-09-17T09:27:36","modified_gmt":"2015-09-17T09:27:36","slug":"aprender-ate-morrer-la-diz-o-ditado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/aprender-ate-morrer-la-diz-o-ditado\/","title":{"rendered":"Aprender at\u00e9 morrer, l\u00e1 diz o ditado"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_24407\" aria-describedby=\"caption-attachment-24407\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24407\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela.jpg\" alt=\"Joana Portela M\u00e3e e Revisora de Texto\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela.jpg 300w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/web_Joana-Portela-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24407\" class=\"wp-caption-text\">Joana Portela<br \/>M\u00e3e e Revisora de Texto<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Primeira li\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na escola prim\u00e1ria<br \/>\nIvo viu a uva<br \/>\ne aprendeu a ler.<\/p>\n<p>Ao ficar rapaz<br \/>\nIvo viu a Eva<br \/>\ne aprendeu a amar.<\/p>\n<p>E sendo homem feito<br \/>\nIvo viu o mundo,<br \/>\nseus comes e bebes.<\/p>\n<p>Um dia num muro<br \/>\nIvo soletrou<br \/>\na li\u00e7\u00e3o da plebe.<\/p>\n<p>E aprendeu a ver.<br \/>\nIvo viu a ave?<br \/>\nIvo viu o ovo?<\/p>\n<p>Na nova cartilha<br \/>\nIvo viu a greve<br \/>\nIvo viu o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">L\u00eado Ivo, in <em>Esta\u00e7\u00e3o Central<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o se chamam Ivo nem Eva \u2013 e nunca foram \u00e0 escola prim\u00e1ria \u2013 o homem feito e a senhora cigana que, com timidez envergonhada, me abordam no corredor do supermercado, pedindo que lhes leia e compare o pre\u00e7o dos comes e bebes: \u201cQuanto custa a uva? Quanto custa o ovo? Quanto custa a ave?\u201d (Quanto custa o analfabetismo do povo?)<br \/>\nEste epis\u00f3dio, que acontece com alguma frequ\u00eancia no meu quotidiano de s\u00e9culo XXI, serve-me de ponto de partida para reflectir sobre os impactos sociais do analfabetismo e da iliteracia na vida de muitos portugueses. \u00c9 um assunto que come\u00e7ou a suscitar a minha aten\u00e7\u00e3o quase por acaso, quando me cruzei na net com a interven\u00e7\u00e3o de Sandra Fisher-Martins intitulada \u201cO direito a compreender\u201d (www.youtube.com\/watch?v=d4Vl6dPmv0w).<br \/>\nFiquei ent\u00e3o a saber aquilo que ignorava: temos, em Portugal, uma taxa de analfabetismo que ainda ronda os 10% e \u2013 mais surpreendente ainda \u2013 uma iliteracia\/analfabetismo funcional (incapacidade de compreender textos escritos) que afecta 50% dos portugueses. Ou seja, metade da popula\u00e7\u00e3o que aprendeu a ler e escrever n\u00e3o consegue, de facto, entender a informa\u00e7\u00e3o que l\u00ea em documentos necess\u00e1rios para o dia-a-dia \u2013 por exemplo, um manual de instru\u00e7\u00f5es ou a posologia do paracetamol! Ora, estes n\u00fameros surpreendentes escondem consequ\u00eancias pessoais e sociais t\u00e3o dram\u00e1ticas como deitar para o lixo um cheque-cirurgia (para aquela opera\u00e7\u00e3o h\u00e1 tanto esperada) por n\u00e3o se compreender aquilo que se l\u00ea. Depois de ouvir o caso pessoal do Sr. Domingos, referido por Sandra Martins, n\u00e3o podemos deixar de nos interrogar, c\u00edvica e seriamente, sobre o que ter\u00e1 levado a que 80% dos doentes n\u00e3o tivessem utilizado os cheques-cirurgia que receberam por carta. Quando as pessoas n\u00e3o compreendem aquilo que l\u00eaem, ficam exclu\u00eddas e prejudicadas. E at\u00e9 mais doentes.<br \/>\nAfinal \u2013 pensei \u2013 tamb\u00e9m se aplica em Portugal o que aprendi ao trabalhar em Mo\u00e7ambique: h\u00e1 uma evidente correla\u00e7\u00e3o directa entre os n\u00edveis de alfabetiza\u00e7\u00e3o e os respectivos n\u00edveis de sa\u00fade dos indiv\u00edduos e suas fam\u00edlias. \u00c9 v\u00e1lido no meu pa\u00eds o que \u00e9 v\u00e1lido para \u00c1frica: aumentando os n\u00edveis de literacia das pessoas, promovem-se melhores \u00edndices de sa\u00fade. Um estudo recente, divulgado no <em>Jornal i<\/em>, confirma, pela negativa, este impacto directo na nossa sociedade: \u201cFalta de conhecimento afecta a sa\u00fade de metade dos portugueses\u201d (http:\/\/ionline.pt\/387945?source=social). Quanto (nos) d\u00f3i a iliteracia, seja a do povo ou a da burguesia?<br \/>\nOs factos, os n\u00fameros e as consequ\u00eancias pessoais da baixa literacia referidos na interven\u00e7\u00e3o \u201cO direito a compreender\u201d foram, para mim, t\u00e3o perturbantes quanto reveladores. Parece-me, contudo, que este problema tem permanecido inc\u00f3gnito na sociedade, escondido e escurecido por uma certa invisibilidade social e medi\u00e1tica, a que se alia a \u201cignor\u00e2ncia\u201d envergonhada \u2013 e sem voz \u2013 das pessoas menos letradas. Esta obscuridade silenciosa em torno do problema da iliteracia traz-me \u00e0 mem\u00f3ria uma magn\u00edfica can\u00e7\u00e3o de Rui Veloso\/Carlos T\u00ea: \u201cA gente n\u00e3o l\u00ea\u201d. Vale a pena escut\u00e1-la, pungente, na pron\u00fancia nortenha de Isabel Silvestre (www.youtube.com\/watch?v=4BHdvDYyCVA) e recordar aqui alguns versos:<\/p>\n<p><em>Ai, Senhor das Furnas,<\/em><br \/>\n<em>Que escuro vai dentro de n\u00f3s<\/em><br \/>\n<em>[\u2026]<\/em><br \/>\n<em>E do resto entender mal<\/em><br \/>\n<em>Soletrar assinar em cruz<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o ver os vultos furtivos<\/em><br \/>\n<em>Que nos tramam por tr\u00e1s da luz<\/em><br \/>\n<em>[\u2026]<\/em><br \/>\n<em>De que nos vale esta pureza <\/em><br \/>\n<em>Sem ler fica-se pederneira <\/em><br \/>\n<em>Agita-se a solid\u00e3o c\u00e1 no fundo<\/em><br \/>\n<em>Fica-se sentado \u00e0 soleira <\/em><br \/>\n<em>A ouvir os ru\u00eddos do mundo <\/em><br \/>\n<em>E a entend\u00ea-los \u00e0 nossa maneira.<\/em><\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1982, mas continua dolorosamente actual para muitos portugueses. S\u00f3 que agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tempo, n\u00e3o, de ficar sentado \u00e0 soleira\u2026 <em>\u201ce do resto entender mal\u201d<\/em>. \u00c9 tempo de voltar \u00e0 escola, de fazer da educa\u00e7\u00e3o de adultos um des\u00edgnio nacional e, em muitos casos, uma prioridade pessoal. Que promissor seria se, no in\u00edcio do ano lectivo, em vez de lermos nos jornais \u201cMinist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o fecha 311 escolas prim\u00e1rias\u201d, pud\u00e9ssemos ler um alento novo, como: \u201cEscolas prim\u00e1rias desactivadas reabrem portas para a educa\u00e7\u00e3o de adultos\u201d ou \u201cEscolas prim\u00e1rias fechadas renascem como p\u00f3los de educa\u00e7\u00e3o popular\u201d. Olhemos \u00e0 nossa volta: temos milhares de escolas fechadas, temos milhares de professores no desemprego, temos milhares de portugueses com baixa literacia. Mas, se n\u00e3o lermos pela mesma cartilha e se aprendermos a ver: temos espa\u00e7os, temos gente, temos uma necessidade inc\u00f3gnita e ingente. H\u00e1 aqui uma equa\u00e7\u00e3o l\u00f3gica que est\u00e1 por fazer, Sr. Ministro\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_26207\" aria-describedby=\"caption-attachment-26207\" style=\"width: 301px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/aprender.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26207\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/aprender.jpg\" alt=\"\u201cN\u00e3o basta saber ler que 'Eva viu a uva'. \u00c9 preciso compreender qual a posi\u00e7\u00e3o que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.\u201d Paulo Freire, Educa\u00e7\u00e3o na Cidade. \" width=\"301\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/aprender.jpg 301w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/aprender-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-26207\" class=\"wp-caption-text\">\u201cN\u00e3o basta saber ler que &#8216;Eva viu a uva&#8217;. \u00c9 preciso compreender qual a posi\u00e7\u00e3o que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.\u201d <em>Paulo Freire<\/em>, Educa\u00e7\u00e3o na Cidade.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Num exerc\u00edcio de pura imagina\u00e7\u00e3o (talvez at\u00e9 de <em>wishfull thinking<\/em>), idealizo para Setembro de 2016 um regresso \u00e0s aulas bem diferente: D. Lu\u00edsa, a minha sogra, a voltar, receosa mas radiante, \u00e0 escola da aldeia (h\u00e1 anos fechada) para completar a 4.\u00ba classe que h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo ficou por fazer. \u201cPrimeira li\u00e7\u00e3o\u201d: na nova cartilha, Lu\u00edsa leu, leda e leve, o verso vero do Ivo.<br \/>\nSegunda li\u00e7\u00e3o: \u201cA gente n\u00e3o l\u00ea\u201d\u2026 mas sabe muito da vida: conhece as mar\u00e9s, os frutos e as sementeiras; os of\u00edcios, o su\u00e3o e os animais; o dialecto da terra. E tamb\u00e9m sabe<em> \u201cde boca em boca passar o saber \/ com os prov\u00e9rbios que ficam na g\u00edria\u201d<\/em>. Ora, todo este saber, ou o de manejar agulhas, m\u00e1quinas e bandejas; vides, tijolos ou ovelhas, \u00e9 material escolar necess\u00e1rio e suficiente para, a partir desses contextos pessoais, co-construir novas cartilhas, soletrar outras li\u00e7\u00f5es e gerar aprendizagens diferentes na educa\u00e7\u00e3o de adultos.<br \/>\nTerceira li\u00e7\u00e3o: viagem vocabular e pessoal pela \u201cCal\u00e7ada de Carriche\u201d, de Ant\u00f3nio Gede\u00e3o:<em> \u201cLu\u00edsa, sobe \/ sobe que sobe \/ sobe a cal\u00e7ada.\u201d<\/em> D. Lu\u00edsa n\u00e3o \u00e9 desgra\u00e7ada \u2013 pode subir outra cal\u00e7ada: a da educa\u00e7\u00e3o ao longo da vida.<br \/>\nPen\u00faltima li\u00e7\u00e3o: Aprender at\u00e9 morrer!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira li\u00e7\u00e3o Na escola prim\u00e1ria Ivo viu a uva e aprendeu a ler. Ao ficar rapaz Ivo viu a Eva e aprendeu a amar. E sendo homem feito Ivo viu o mundo, seus comes e bebes. Um dia num muro Ivo soletrou a li\u00e7\u00e3o da plebe. E aprendeu a ver. Ivo viu a ave? Ivo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-26206","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26206"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26206\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26211,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26206\/revisions\/26211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}