{"id":26232,"date":"2015-10-01T15:45:01","date_gmt":"2015-10-01T15:45:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26232"},"modified":"2015-10-01T15:45:01","modified_gmt":"2015-10-01T15:45:01","slug":"atualidade-de-uma-questao-encerrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/atualidade-de-uma-questao-encerrada\/","title":{"rendered":"Atualidade de uma quest\u00e3o encerrada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/fraqueza.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-26233\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/fraqueza.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"582\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/fraqueza.jpg 400w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/fraqueza-206x300.jpg 206w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Fragilidade do pol\u00edtico, For\u00e7a do religioso<br \/>\n<em>Piaget<\/em><br \/>\n223 p\u00e1ginas<br \/>\n<strong>16 euros<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Paul Valadier, jesu\u00edta e fil\u00f3sofo, regressa a um tema que lhe \u00e9 caro: a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtico e religioso. Uma leitura apressada far\u00e1 supor que afasta a velha separa\u00e7\u00e3o dos \u201cdois gl\u00e1dios\u201d; bem pelo contr\u00e1rio. O autor recorre \u00e0 express\u00e3o \u201cpol\u00edtico-teol\u00f3gico\u201d, aparentemente, por preterir a eufonia ao valor simb\u00f3lico da justaposi\u00e7\u00e3o: \u201ca resposta \u00e0 \u201cquest\u00e3o encerrada\u201d \u00e9 dada pelo h\u00edfen\u201d, signo desse espa\u00e7o de s\u00edntese da tens\u00e3o dial\u00e9tica entre os dois elementos; se quisermos, o reino de Atenas e Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Empenhado em analisar a hist\u00f3ria de como se pensou esta rela\u00e7\u00e3o, Valadier parece tamb\u00e9m interessado em propor uma \u201cteologia pol\u00edtica\u201d. Os riscos da empreitada s\u00e3o conhecidos: ou acabar inadvertidamente por legitimar uma forma especial de <em>autorictas<\/em> (como fez Schmitt); ou cair num esp\u00e9cie de arqueologia dos conceitos que n\u00e3o passa de turismo intelectual (como faz Agamben); ou, o mais frequente, acabar por apresentar um livro de reclama\u00e7\u00f5es, merecedor do magn\u00edfico t\u00edtulo de Grozs: \u201cUm pequeno sim e um grande n\u00e3o\u201d. No caso, o autor aproxima-se do \u00faltimo cen\u00e1rio quando se afasta mais da sua \u00e1rea de conforto (Nietzsche e modernidade) ficando ainda assim, uma li\u00e7\u00e3o magistral com momentos de uma lucidez e uma erudi\u00e7\u00e3o impressionantes.<\/p>\n<p>Comecemos pelo desconforto. O percurso pela hist\u00f3ria do pensamento pol\u00edtico (sobre o religioso, e depois vista pelo religioso) come\u00e7a precisamente com uma breve genealogia da tentativa de resolver a quest\u00e3o, negando-a: a sociedade pol\u00edtica livre de quaisquer refer\u00eancias externas de Espinoza; a conce\u00e7\u00e3o do Estado como \u00faltima<em> ratio<\/em> do poder em Hobbes; a defesa radical da liberdade de consci\u00eancia em Bayle. Em todos os casos, apenas declarado em Bayle, h\u00e1 uma categoria ou um conceito que cumpre uma fun\u00e7\u00e3o de hipostasia ou \u201cersatz\u201d (substituto) do religioso, quando n\u00e3o do divino. Para prevenir abusos (eventuais) da esfera religiosa, legitima-se um abuso (certo) da esfera pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Os cap\u00edtulos seguintes levam-nos por uma s\u00e9rie de teses pol\u00edticas ou filos\u00f3ficas sobre a religi\u00e3o, a que Valadier junta a sua cr\u00edtica. Nalguns casos, como no fragmento sobre o \u201cfracasso do cosmopolitismo\u201d, o alvo parece definido em termos convenientemente caricaturais, como \u201cstrawman\u201d. A cr\u00edtica \u00e9 inegavelmente justa, mas \u00e9 dif\u00edcil encontrar quem defenda mesmo o que \u00e9 criticado. Assim, por exemplo, as ambi\u00e7\u00f5es do federalismo europeu cabem na mesma categoria sem distin\u00e7\u00e3o que o internacionalismo de Kant, a esquerda francesa ou, de modo geral, o \u201cotimismo\u201d. Na mesma linha segue a den\u00fancia do \u201cendeusamento do Estado\u201d, pela qual ficamos a saber coisas de que nunca suspeit\u00e1mos menos, ditas com a clareza de quem exp\u00f5e factos conhecidos e nunca negados. O depoimento \u00e9 not\u00e1vel sobretudo pela omiss\u00e3o de qualquer refer\u00eancia ao movimento de crescente debilidade das estruturas pol\u00edticas de car\u00e1cter greg\u00e1rio.<\/p>\n<p>Chegado aos temas do Mal contra a ingenuidade hist\u00e9rica do p\u00f3s-11 de setembro, responde com a riqueza da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e religiosa do ocidente. Mas \u00e9 no di\u00e1logo com o nosso tempo que Valadier nos oferece as suas melhores p\u00e1ginas. Num estilo a lembrar Barthes, lan\u00e7a-se ao mito prosaico do \u201cdebate p\u00fablico\u201d (por norma \u201calargado\u201d) que traz impl\u00edcita a ideia de que n\u00e3o existem incompatibilidades irredut\u00edveis, e leva a uma de duas tomadas de posi\u00e7\u00e3o sobre o problema do mal: ou ver, com Habermas, na racionalidade \u201cdial\u00f3gica\u201d a profilaxia de todo o mal ou, com Jullien recusar, por influ\u00eancia new age da filosofia chinesa, a distin\u00e7\u00e3o entre bem e mal, sob o pretexto da funcionalidade.<\/p>\n<p>O acrescento crist\u00e3o seria outro: absten\u00e7\u00e3o de den\u00fancia do mal em geral, ou como coisa exterior, seguida de constante vigil\u00e2ncia. A consci\u00eancia do mal, do car\u00e1cter ben\u00e9fico de uma distin\u00e7\u00e3o entre bem e mal faz sair da ilus\u00e3o de um mundo inocente ou puramente funcional; n\u00e3o faz do mal uma obsess\u00e3o \u2013 s\u00f3 o denuncia \u201csob os ausp\u00edcios da salva\u00e7\u00e3o\u201d, em fun\u00e7\u00e3o de um Bem e evita uma conce\u00e7\u00e3o da vida como \u201cvia dolorosa\u201d.<\/p>\n<p>Desta e doutras formas, se vai demonstrando como a velha quest\u00e3o permanece aberta. Se, a uma certa inflexibilidade dogm\u00e1tica e autossufici\u00eancia do laicismo republicano, responde uma teologia autolimitada pela insist\u00eancia de alguns no car\u00e1cter n\u00e3o apreens\u00edvel do Reino sobre a Hist\u00f3ria, todos perdemos. E n\u00e3o ser\u00e1 por falta de aviso.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio Ramos Pereira<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragilidade do pol\u00edtico, For\u00e7a do religioso Piaget 223 p\u00e1ginas 16 euros &nbsp; Paul Valadier, jesu\u00edta e fil\u00f3sofo, regressa a um tema que lhe \u00e9 caro: a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtico e religioso. Uma leitura apressada far\u00e1 supor que afasta a velha separa\u00e7\u00e3o dos \u201cdois gl\u00e1dios\u201d; bem pelo contr\u00e1rio. 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