{"id":26311,"date":"2015-10-15T10:03:38","date_gmt":"2015-10-15T10:03:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26311"},"modified":"2015-10-15T10:03:38","modified_gmt":"2015-10-15T10:03:38","slug":"francisco-um-modelo-de-lider","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/francisco-um-modelo-de-lider\/","title":{"rendered":"FRANCISCO um modelo de l\u00edder"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/papab.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-26312\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/papab.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/papab.jpg 700w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/papab-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Pistas para compreender o Papa que quer recentrar a Igreja na sua miss\u00e3o essencial e inspira o mundo. Texto de Ant\u00f3nio Ramos Pereira<\/strong><\/p>\n<p>Quando, em 13 de mar\u00e7o de 2013, apareceu \u00e0 varada na qualidade de novo bispo de Roma, Francisco apresentava-se \u00e0 cidade e ao mundo, com alguma da bonomia que se lhe conhece, \u00e9 certo, mas visivelmente abalado. Como confirmaram relatos posteriores, o abalo e o prov\u00e1vel nervosismo deviam-se menos \u00e0 presen\u00e7a daquela moldura humana do que \u00e0 compreens\u00edvel convic\u00e7\u00e3o de ser demasiado pequeno para uma tarefa t\u00e3o grande. Nesses primeiros dias, fazia lembrar a personagem de Nanni Moretti (\u201cHabemus papam\u201d, 2011), o cardeal que acaba Papa sem querer e que desconcerta o mundo sem saber bem porqu\u00ea (afinal, est\u00e1 s\u00f3 a ser como sempre foi). Mas claro que a semelhan\u00e7a come\u00e7a e acaba na aus\u00eancia de ambi\u00e7\u00e3o pessoal para liderar a maior e mais antiga institui\u00e7\u00e3o humana. Bergoglio, doravante Francisco, o l\u00edder acidental, era tudo menos um acidente.<br \/>\nUm perfeito desconhecido para a generalidade dos fi\u00e9is, corpo estranho no estranho ambiente pol\u00edtico, porventura eclesial, do Vaticano, obrigado a uma miss\u00e3o que faria desesperar qualquer pessoa medianamente sensata, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o desesperou, como se tornou, em menos tempo do que leva a dizer \u201cnunc dimittis\u201d, no mais popular e apreciado l\u00edder religioso do mundo.<br \/>\nO que explica este fen\u00f3meno? A pergunta, pelos vistos, \u00e9 frequente: uma breve consulta do google, diz-nos que, s\u00f3 sobre a lideran\u00e7a franciscana, foram publicadas duas dezenas de livros nos \u00faltimos meses. O \u201cfen\u00f3meno Francisco\u201d (o seu sucesso, a sua obra) parece ser ultrapassado apenas pelo \u201cmeta-fen\u00f3meno Francisco\u201d (as raz\u00f5es do seu sucesso); uma vicejante ind\u00fastria de an\u00e1lises, par\u00e1frases e apropria\u00e7\u00f5es mais ou menos conseguidas, de que saem produtos t\u00e3o d\u00edspares como o t\u00edpico manual de auto-ajuda e aut\u00eanticos manuais de lideran\u00e7a \u00e0 la Francisco (de destacar, os contributos de Chris Lowney e, entre n\u00f3s, de Arm\u00e9nio Rego e Miguel Pina).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Francisco cai bem<\/strong><br \/>\nE que nos dizem os hermeneutas? Que justificar\u00e1 tamanho entusiasmo, fervor e aplauso? Bem, come\u00e7ando pelo \u00f3bvio: Francisco tem bom aspeto. E n\u00e3o se trata s\u00f3 de ter fisicamente todos os atributos que, por algum motivo, associamos a uma pessoa bondosa; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o de contrariar a expectativa que temos em rela\u00e7\u00e3o a um l\u00edder religioso (austero ou distante). Mais do que isso, Francisco cai bem porque tem a imagem certa da forma certa, que \u00e9 a que a tv captura; \u00e9 teleg\u00e9nico como nenhum outro l\u00edder, e torna qualquer encontro com fi\u00e9is num encontro pessoal e \u00edntimo com cada um dos fi\u00e9is. Pela graciosidade (a eleg\u00e2ncia do movimento) e pela gra\u00e7a (a eleg\u00e2ncia do sentimento), com que se mostra comovido, comove; beija de l\u00e1grimas nos olhos aquele homem terrivelmente desfigurado algures em It\u00e1lia, e n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que muitos mais, a muitos quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, tamb\u00e9m o ter\u00e3o ficado.<br \/>\nEm contextos mais formais, a seguran\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 total, sem que haja quaisquer vest\u00edgios de poder. N\u00e3o precisa. Para dar confian\u00e7a basta-lhe o sentido de humor e autoironia e, claro, de uma enorme capacidade de empatia, de compaix\u00e3o, pr\u00f3pria de quem j\u00e1 se definiu em pobreza e vive para fora, para os outros, e por isso, como n\u00e3o \u00e9 de si que cuida, teme menos.<br \/>\nN\u00e3o se julgue, por\u00e9m, que esta bondade equivale a mansid\u00e3o ou inabilidade pol\u00edtica. Pelo contr\u00e1rio, e \u00e9 isso o que mais surpreende: como pode algu\u00e9m ser t\u00e3o af\u00e1vel e pr\u00f3ximo ser t\u00e3o implac\u00e1vel na gest\u00e3o da casa? Dois est\u00f4magos bem resistentes n\u00e3o bastavam para lidar com o que se imagina que implicam a reforma progressiva da C\u00faria, a limpeza no Banco do Vaticano ou para se aguentar numa posi\u00e7\u00e3o de radical modera\u00e7\u00e3o contra as press\u00f5es de ambos os lados. Mais do que bondade, m\u00e9todo e alguma paci\u00eancia, h\u00e1 sobretudo muita sensibilidade pol\u00edtica, muita destreza t\u00e1tica, em que n\u00e3o se exclui mesmo alguma brutalidade. Ningu\u00e9m esquece o discurso que fez na C\u00faria Romana no natal de 2014, em que diagnosticava as quinze patologias que afetavam a sa\u00fade do Vaticano, entre as quais se contavam o alzheimer espiritual, sentimento de imortalidade e \u2013 uma das mais curiosas \u2013 endeusamento dos l\u00edderes.<br \/>\nOutro fator nunca demasiado real\u00e7ado \u00e9 o \u201crecentramento\u201d da mensagem papal na mensagem crist\u00e3 essencial: a caridade. N\u00e3o que Bento XVI n\u00e3o o tentasse; mas n\u00e3o evitou que outras quest\u00f5es dominassem o discurso sobre a Igreja; da\u00ed o m\u00e9rito t\u00e1tico (com alguma sorte) de Francisco. De uma assentada desvia-se o foco medi\u00e1tico de parte da doutrina que, por muito justa que seja, refor\u00e7a uma imagem da Igreja que afasta quem est\u00e1 fora e intimida quem est\u00e1 dentro, e aponta-se para aquilo que sempre foi o mais importante. E at\u00e9 a forma como recoloca a quest\u00e3o no centro \u00e9, tamb\u00e9m ela, profundamente crist\u00e3: Francisco, ao seguir a m\u00e1xima do exemplo \u2013 \u201cse podes mostrar, n\u00e3o digas, mostra\u201d \u2013, p\u00f5e-se na fila da frente, ao mesmo n\u00edvel de quem se queira seguir.<br \/>\nEste recentrar na mensagem sobre amor, pobreza ou cuidado do lar comum (uma aparente novidade, quando a preocupa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica integra a doutrina desde sempre), contudo, fica-se a dever tamb\u00e9m a raz\u00f5es de circunst\u00e2ncia, relativamente novo na sua dimens\u00e3o, de aus\u00eancia de discursos pol\u00edticos integradores sobre esses temas \u2013 uma originalidade do presente s\u00e9culo \u2013, que alargou substancialmente o p\u00fablico disposto a ouvir com aten\u00e7\u00e3o mensagens como a da apologia de uma \u201ceconomia do dom\u201d, ao mesmo tempo que refor\u00e7ou a autoridade do seu porta-voz.<br \/>\nPor fim, conv\u00e9m n\u00e3o esquecer a origem de Bergoglio, a sua forma\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica, que desenvolveu como que um modelo pr\u00f3prio de lideran\u00e7a. Moldada pelos textos fundadores, pela experi\u00eancia hist\u00f3rica da Companhia (muito voltada para o ensino, a evangeliza\u00e7\u00e3o dos novos mundos, o esfor\u00e7o de ir \u00e0s fronteiras) e pelas regras pr\u00f3prias, como o voto de obedi\u00eancia, a \u201clideran\u00e7a inaciana\u201d, como \u00e9 conhecida, distingue-se pela dedica\u00e7\u00e3o a conciliar quatro aspetos diferentes: auto-conhecimento, engenho, amor e hero\u00edsmo. Por outro lado, a vida em comunidade, o voto de obedi\u00eancia que pode, a qualquer momento, exigir de um jesu\u00edta que largue tudo para ir para outro canto do mundo, t\u00eam muito enraizadas duas outras ideias: promover a liberdade \u2013 \u201caprender a viver com o desconforto\u201d \u2013 e, na rela\u00e7\u00e3o entre \u201cirm\u00e3os\u201d, muitos especialistas encontram um antecedente hist\u00f3rico daquilo que as \u201cci\u00eancias empresariais\u201d designam hoje por modelo de organiza\u00e7\u00e3o assente na \u201clideran\u00e7a horizontal\u201d (isto \u00e9, na delega\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es, no di\u00e1logo com os subordinados).<br \/>\nTodos estes fatores ajudam a compreender que se veja na a\u00e7\u00e3o do Papa caracteriza\u00e7\u00e3o suficiente para que se possa quase falar de um modelo de lideran\u00e7a. Um modelo t\u00e3o singular que, como vemos, combina pragmatismo com empatia, abertura para a inclus\u00e3o com severidade, o envolvimento na vida e realidade dos fi\u00e9is com o afastamento para ora\u00e7\u00e3o e discernimento, uma prud\u00eancia doutrinal aliada ao firme desejo de n\u00e3o deixar que a mensagem se perca por alheamento do mundo, e que visa tornar a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 mais eficaz, como mais justa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pistas para compreender o Papa que quer recentrar a Igreja na sua miss\u00e3o essencial e inspira o mundo. 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