{"id":26343,"date":"2015-10-23T14:42:29","date_gmt":"2015-10-23T14:42:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26343"},"modified":"2015-10-23T14:42:29","modified_gmt":"2015-10-23T14:42:29","slug":"casticais-de-prata-e-um-bocado-de-chocolate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/casticais-de-prata-e-um-bocado-de-chocolate\/","title":{"rendered":"Casti\u00e7ais de prata e um bocado de chocolate"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_26344\" aria-describedby=\"caption-attachment-26344\" style=\"width: 743px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/francine.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26344\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/francine.jpg\" alt=\"O v\u00eddeo de Francine Christophe, em franc\u00eas e legendado em ingl\u00eas, pode ser visto no Youtube (bit.ly\/1PHXNBv) \" width=\"743\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/francine.jpg 743w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/francine-300x159.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 743px) 100vw, 743px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-26344\" class=\"wp-caption-text\">O v\u00eddeo de Francine Christophe, em franc\u00eas e legendado em ingl\u00eas, pode ser visto no Youtube (bit.ly\/1PHXNBv)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A li\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia, que \u00e9 mais do que compaix\u00e3o, compreens\u00e3o da mis\u00e9ria alheia, benevol\u00eancia, est\u00e1 no \u00edntimo da B\u00edblia, porque \u201cDeus \u00e9 paciente e misericordioso\u201d, \u201ceterna \u00e9 a sua miseric\u00f3rdia\u201d, como n\u00e3o se cansa o Antigo Testamento de repetir. No Novo, s\u00e3o inultrapass\u00e1veis os textos da miseric\u00f3rdia em a\u00e7\u00e3o, como nas par\u00e1bolas do samaritano que ajuda o homem \u201cmeio morto\u201d (Lc 10), das 99 ovelhas que se desviam da cent\u00e9sima, da mulher que perde dez por cento dos seus rendimentos, e do Pai do filho rebelde (Lc 15). A miseric\u00f3rdia abunda em todas as p\u00e1ginas dos evangelhos, porque \u201cJesus Cristo \u00e9 o rosto da miseric\u00f3rdia do Pai\u201d, como escreve o Papa.<br \/>\nA literatura tamb\u00e9m tem li\u00e7\u00f5es de miseric\u00f3rdia inesquec\u00edveis, dos grandes romances de Dostoievsky (em \u201cCrime e Castigo\u201d, diz Julia Kristeva, \u201co perd\u00e3o aparece como a \u00fanica sa\u00edda, a terceira via entre o abatimento e o homic\u00eddio\u201d) aos contos infantis. No final do conto da Cinderela, as duas irm\u00e3s reconhecem-na como a linda senhora que tinham visto no baile e atiram-se-lhe aos p\u00e9s para lhe pedir perd\u00e3o por todos os maus tratos que lhe tinham feito sofrer. \u201cCinderela ajudou-as a levantar e disse-lhes, beijando-as, que lhes perdoava de bom grado e que lhes pedia para gostarem sempre dela\u201d. N\u00e3o s\u00f3 era bela como usou de miseric\u00f3rdia.<br \/>\nH\u00e1 uma p\u00e1gina, por\u00e9m, que se nos afigura como das mais sublimes, at\u00e9 pelo papel que joga no monumento que \u00e9 \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d, de Victor Hugo, e por ter como protagonista um cat\u00f3lico, um bispo.<br \/>\nJean Valjean, \u00f3rf\u00e3o, com uma edu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, num dia de desespero rouba um p\u00e3o e \u00e9 condenado. Passa 19 anos na pris\u00e3o, devido \u00e0s tentativas de fuga, e considera que a sociedade \u00e9 que cometeu um crime, n\u00e3o ele. Por isso, desconfia de qualquer pessoa. E, de facto, quando \u00e9 libertado, n\u00e3o \u00e9 acolhido em lado nenhum, at\u00e9 que bate \u00e0 porta de um bispo. O bispo d\u00e1-lhe dormida, mas Jean Valjean, durante a noite, rouba-lhe os talheres de prata. Apanhado pela pol\u00edcia, o ladr\u00e3o \u00e9 levado ao bispo. D. Bienvenu, assim se chama o bispo de Digne (e que se inspira num bispo real da diocese de Digne, no sudeste de Fran\u00e7a), ao contr\u00e1rio do que se esperava, diz aos pol\u00edcias que lhe tinha dado os talheres e pergunta a Valjean por que n\u00e3o levara tamb\u00e9m os casti\u00e7ais. Tal gesto, que n\u00e3o s\u00f3 o inocenta como recompensa um erro, faz Jean Valjean mudar o rumo da sua vida (e, como se l\u00ea no romance, o rumo da de muitos outros).<br \/>\nN\u00e3o se tratando de literatura, h\u00e1 um testemunho que por estes dias andas nas redes sociais e que \u00e9 mais uma concretiza\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia, no caso, pela m\u00e3o de uma crian\u00e7a, no ambiente mais ignominioso do s\u00e9c. XX, um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi.<br \/>\nFrancine Christophe tinha 8 anos quando foi levada, com a sua m\u00e3e, para o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Bergen-Belsen. Na sua malinha, porque era permitido aos prisioneiros levar duas ou tr\u00eas coisas, tinha um chocolate. \u201c\u00c9 para comeres quando estiveres mesmo triste\u201d, disse-lhe a m\u00e3e. Acontece que, no campo de concentra\u00e7\u00e3o, aproxima-se a hora de uma prisioneira, Helena, magr\u00edssima, dar \u00e0 luz. A m\u00e3e diz a Francine:<br \/>\n&#8211; Lembras-te daquele bocado de chocolate?<br \/>\n&#8211; Sim, mam\u00e3.<br \/>\n&#8211; Como te sentes?<br \/>\n&#8211; Bem, mam\u00e3.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, se permites, vou dar o chocolate \u00e0 nossa amiga Helena, que vai dar \u00e0 luz. Ela pode morrer. Mas se eu lhe der o chocolate, pode ser que n\u00e3o morra.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bem, mam\u00e3.<br \/>\nHelena deu \u00e0 luz uma beb\u00e9 muito pequenina e comeu o chocolate. N\u00e3o morreu. E a crian\u00e7a nunca chorou. Chorou apenas ao sexto m\u00eas de vida, quando o campo de concentra\u00e7\u00e3o foi liberto.<br \/>\nOs anos passaram. Um dia a filha de Francine organizou uma confer\u00eancia sobre o tema: \u201cE se os sobreviventes dos campos de concentra\u00e7\u00e3o tivessem tido apoio psicol\u00f3gico?\u201d Apareceu muita gente, entre sobreviventes, historiadores, psic\u00f3logos\u2026 A certa altura, uma mulher toma a palavra e diz: \u201cMoro em Marselha, sou psiquiatra. Antes de fazer a minha comunica\u00e7\u00e3o, tenho aqui algo para dar a Francine Christophe\u201d. Remexe no bolso e tira um bocado de chocolate. D\u00e1-o a Francine e diz: \u201cEu sou a beb\u00e9\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A li\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia, que \u00e9 mais do que compaix\u00e3o, compreens\u00e3o da mis\u00e9ria alheia, benevol\u00eancia, est\u00e1 no \u00edntimo da B\u00edblia, porque \u201cDeus \u00e9 paciente e misericordioso\u201d, \u201ceterna \u00e9 a sua miseric\u00f3rdia\u201d, como n\u00e3o se cansa o Antigo Testamento de repetir. 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