{"id":26610,"date":"2016-03-04T15:59:48","date_gmt":"2016-03-04T15:59:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26610"},"modified":"2016-03-04T15:59:48","modified_gmt":"2016-03-04T15:59:48","slug":"o-manuel-e-o-ze","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-manuel-e-o-ze\/","title":{"rendered":"O Manuel e o Z\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Os nomes n\u00e3o interessam. Poderiam ser Ant\u00f3nio e Jo\u00e3o. Seja como for, conheci os dois. J\u00e1 faleceram. E deixaram em mim uma marca indel\u00e9vel. Morreram de tristeza. \u00c9 isso mesmo: Morreram de tristeza.<br \/>\nQuando uma pessoa chega ao confession\u00e1rio e diz que n\u00e3o tem pecados, pois n\u00e3o mata nem rouba, interrogo-os se nunca fizeram chorar algu\u00e9m. Tirar um segundo de paz a algu\u00e9m \u00e9 roubar. E tirar a alegria, por causa das nossas maldades, \u00e9 matar, pouco a pouco. A acumula\u00e7\u00e3o de pequenas m\u00e1goas e indiferen\u00e7as matam. N\u00e3o se v\u00ea, n\u00e3o se sente, mas matam. N\u00e3o digo nos casos pontuais em que, por vezes, temos de educar com energia e isso fa\u00e7a sofrer um aluno, um amigo, um parente. Mas, o dia a dia, no trabalho, na fam\u00edlia, no casamento, na escola\u2026 hoje uma facada, amanh\u00e3 outra, isso mata. E muitos podemos ser assassinos. Foi o que aconteceu com o Z\u00e9 e o Manuel.<br \/>\nO Z\u00e9 era um homem h\u00edper-alegre. Em muitos anos, nunca o vi sen\u00e3o a rir e a brincar. Cara de maroto, era homem para levar a vida na alegria. Uma voz espl\u00eandida. Cantava lindamente. Um dia, veio ter comigo. Chorava. Nunca pensei naquele homem, j\u00e1 av\u00f4, a chorar. Inconceb\u00edvel. Mas chorava, e como! E disse: \u201cDo que mais tenho medo ao terminar o meu dia de trabalho na pequena empresa \u00e9 regressar para casa\u201d. L\u00e1, a sua fam\u00edlia, que n\u00e3o faltava \u00e0 Missa, n\u00e3o fazia nenhum caso dele. E sempre foi assim. A esposa n\u00e3o lhe prestava aten\u00e7\u00e3o e os filhos s\u00f3 queriam o seu dinheiro. N\u00e3o havia amor. Por isso, o Z\u00e9 n\u00e3o tinha um lar. Mais tarde, entregou-se \u00e0 bebida. Os b\u00eabados e os ad\u00falteros s\u00e3o pessoas viciadas, no conceito de todos. Mas o Z\u00e9 n\u00e3o bebia a esse ponto. Um dia come\u00e7ou a beber de mais, como muitos procuram no adult\u00e9rio o que lhes \u00e9 negado em casa por esposas muito cat\u00f3licas (conhe\u00e7o tantos). E um dia, o Z\u00e9 morreu. De excesso de bebida? N\u00e3o, de tristeza. Uma tristeza imensa que nem a Igreja nem a f\u00e9 de esposas e filhos, nem a bebida podiam apagar. Morreu de solid\u00e3o e desprezo, embora tivesse fam\u00edlia numerosa. Morreu de indiferen\u00e7a. Morreu como um indigente, deixando como fruto da sua vida uma linda casa para a fam\u00edlia, terrenos e uma sepultura onde n\u00e3o faltam flores nem velas\u2026 Uma campa de um homem que morreu com saudades de ser amado.<br \/>\nCom o Manuel, foi mais ou menos o mesmo. A esposa \u00e9 daquelas que se desdobra em aten\u00e7\u00e3o com todos. O que uma pessoa precisasse, ela ali estava, dispon\u00edvel, sorridente, atenciosa, eficaz. Na igreja fazia tudo. N\u00e3o havia grupo ao qual n\u00e3o pertencesse. Ora\u00e7\u00e3o era com ela. Grande cat\u00f3lica, modelo de vida crist\u00e3, diz\u00edamos. Mas, quando chegava a casa, o Manuel, j\u00e1 reformado, l\u00e1 estava. Cozinhava, lavava, passava a ferro. Tentava multiplicar aten\u00e7\u00f5es. Tinha errado, em novo, nas aventuras de quem vivia numa grande cidade como as que h\u00e1 em Espanha. Foi l\u00e1 que o conheci e privei com ele e a sua fam\u00edlia. Mas a tal senhora, sua esposa, deixava a m\u00e1scara de boa crist\u00e3 no bengaleiro da porta da casa, e o tom de voz e atitudes eram de aspereza, desprezo, a ponto de o Manuel comer sozinho na cozinha, dormir noutro quarto. N\u00e3o havia filhos para buscar consola\u00e7\u00e3o ou talvez mais desprezo. E isso era assim dia a dia. Hoje, amanh\u00e3\u2026<br \/>\nPara os da Igreja, a senhora cat\u00f3lica tinha um sorriso e um abra\u00e7o; para o marido, desprezo e m\u00e1s palavras. E o Manuel come\u00e7ou a beber, a buscar consola\u00e7\u00e3o noutras mulheres, at\u00e9 que um dia, num amanhecer de primavera, o Manuel n\u00e3o acordou. Funeral de l\u00e1grimas, montanhas de flores, Missa cantada. Quase que pude sentir, naquele rosto defunto e marcado pela m\u00e1goa, cair uma l\u00e1grima de tristeza. Tanta coisa, e ele t\u00e3o s\u00f3, at\u00e9 naquele caix\u00e3o de luxo, porque o que o matou foi simplesmente a tristeza imensa de n\u00e3o ter sido amado, apesar da f\u00e9 que em sua casa se professava ardentemente.<br \/>\nComo estes dois, tantos e tantas. Conhe\u00e7o-os. Voc\u00ea tamb\u00e9m os conhece. Quem sabe em que lado da aventura voc\u00ea est\u00e1 situado em rela\u00e7\u00e3o ao seu pai, \u00e0 sua m\u00e3e, ao seu filho, ao seu c\u00f4njuge, ou seu irm\u00e3o.<br \/>\nNo Lar de Moita, t\u00ednhamos uma idosa fin\u00edssima no trato, na eleg\u00e2ncia e na cultura. Uma vez por m\u00eas ela ia ao cabeleireiro ou pintava os l\u00e1bios e unhas. Linda. Sentada no janel\u00e3o da casa de idosos, olhava para o p\u00e1tio, ansiosa. O filho viria \u00e0 secretaria buscar o dinheiro que sobrava da pens\u00e3o da m\u00e3e. Ele chegava, passava diante dela, tratava dos seus assuntos e, sem entrar para beijar a m\u00e3e ou at\u00e9 acenar-lhe, ia-se embora at\u00e9 ao m\u00eas seguinte. O resto da semana, para esta mulher, era mergulhada numa tristeza que fazia dela uma mulher muda, embora sempre nos cumprimentasse com um doce sorriso. Pode at\u00e9 ter sido uma m\u00e3e desatenta, mas, para o filho, o \u00fanico filho, ela era apenas os vinte euros da pens\u00e3o. E um dia, sem dor f\u00edsica, sem doen\u00e7a anunciada, a pobrezinha morreu, provavelmente no sil\u00eancio da noite, depois de ter deixado cair as \u00faltimas l\u00e1grimas que conseguia derramar. Morreu s\u00f3, morreu sem casa, morreu sem um beijo do filho que gerou. Morreu de tristeza. Eu vi e chorei por ela.<br \/>\nUm dia, ao contar isto numa Missa, sobre as personagens destas hist\u00f3rias, que s\u00e3o reais, registei duas rea\u00e7\u00f5es. Uma jovem esposa veio ter comigo para dizer que ia correndo para casa, pois queria contar isto tudo ao marido, n\u00e3o praticante. Eu aconselhei-a a cobrir o seu marido de beijos. Uma outra, muito ativa na Igreja, mas que passa a vida a queixar-se do marido b\u00eabado que bateu nela, ficou t\u00e3o ofendida, pensando que a homilia era uma indireta contra ela, que passou a semana a chorar de raiva contra mim, e, de momento, nem \u00e0 Missa vem\u2026<br \/>\nCasos para pensar. Ainda vou continuar a estar em funerais de homens e mulheres que v\u00e3o continuar a morrer por causa de n\u00e3o saberem o que \u00e9 um abra\u00e7o, um beijo, ou um pouco de amor.<br \/>\n<strong>Vitor Espadilha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os nomes n\u00e3o interessam. Poderiam ser Ant\u00f3nio e Jo\u00e3o. Seja como for, conheci os dois. J\u00e1 faleceram. E deixaram em mim uma marca indel\u00e9vel. Morreram de tristeza. \u00c9 isso mesmo: Morreram de tristeza. 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