{"id":26878,"date":"2016-07-14T09:35:31","date_gmt":"2016-07-14T09:35:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26878"},"modified":"2016-07-14T09:35:31","modified_gmt":"2016-07-14T09:35:31","slug":"pensar-a-vida-um-dever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/pensar-a-vida-um-dever\/","title":{"rendered":"Pensar a vida, um dever"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_26879\" aria-describedby=\"caption-attachment-26879\" style=\"width: 150px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/walter.jpg\" rel=\"attachment wp-att-26879\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-26879\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/walter.jpg\" alt=\"WALTER OSSWALD M\u00e9dico.  Pr\u00e9mio \u201c\u00c1rvore da Vida 2016\u201d\" width=\"150\" height=\"160\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-26879\" class=\"wp-caption-text\">WALTER OSSWALD<br \/> M\u00e9dico.<br \/> Pr\u00e9mio \u201c\u00c1rvore da Vida 2016\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aprendemos na escola que o ser humano tem natureza racional, isto \u00e9, que disp\u00f5e de raz\u00e3o e que esta gere a sua vida, escolhendo valores, cultivando virtudes, ponderando op\u00e7\u00f5es, ditando procedimentos e optando por interven\u00e7\u00f5es. Ficamos mais tarde a saber que as coisas s\u00e3o talvez mais complexas, que a raz\u00e3o n\u00e3o tem a pureza kantiana que a filosofia deontol\u00f3gica prop\u00f4s, mas antes que as emo\u00e7\u00f5es t\u00eam um importante papel nos nossos comportamentos, atitudes e op\u00e7\u00f5es. Veio ainda, nos nossos dias, todo um enorme caudal de informa\u00e7\u00e3o, optimisticamente apelidada de objectiva, oriundo da neurobiologia, sobre o funcionamento do c\u00e9rebro. Este aumento do conhecimento, mais descritivo do que explicativo, tem sido interpretado de muito variada forma por correntes do pensamento: desde as neo-materialistas, que entendem que as decis\u00f5es e as atitudes de ju\u00edzo moral s\u00e3o consequ\u00eancia directa da actividade de determinados grupos neuroniais (no que se poderia apelidar de regresso \u00e0 teoria oitocentista de Molechotte, segundo a qual o c\u00e9rebro segrega o pensamento como o f\u00edgado segrega a bile) at\u00e9 \u00e0s que apontam para a impossibilidade de o c\u00e9rebro se investigar a si mesmo, sujeito e objecto de estudo, afirmando que os circuitos neuroniais apenas s\u00e3o executores de ordens emanadas de uma entidade n\u00e3o material e que escapa \u00e0 an\u00e1lise cient\u00edfica.<br \/>\nSeja como for, parece-me bem mais de acordo com o que conhecemos das atitudes e comportamento a vis\u00e3o da intangibilidade das decis\u00f5es e de uma interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exclui o factor espiritual, para al\u00e9m de uma redutora posi\u00e7\u00e3o de causalidade. Est\u00e1 de acordo com esta escolha o facto de a mente humana, desde o raiar da filosofia, se ocupar com a quest\u00e3o essencial: pensar a pr\u00f3pria vida.<br \/>\nPensar a pr\u00f3pria vida inclui o escrut\u00ednio da raz\u00e3o do viver, do seu sentido e finalidade, como os fil\u00f3sofos de todos os tempos racionalmente intu\u00edram (a express\u00e3o friza o facto de intui\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o n\u00e3o serem conceptualmente antag\u00f3nicas ou excludentes). E tamb\u00e9m o dever de discernir como viver bem esta vida que nos \u00e9 dada, a cada um de n\u00f3s, sem interven\u00e7\u00e3o da nossa vontade \u2013 n\u00e3o est\u00e1 nas nossas capacidades a decis\u00e3o de sermos gerados e, em consequ\u00eancia geralmente observada, nascidos.<br \/>\nNeste contexto surge a quest\u00e3o, t\u00e3o antiga e de quando em vez, como no presente, renovada: se n\u00e3o podemos dispor do nosso nascimento, n\u00e3o ser\u00e1 l\u00edcito dispor da vida e escolher o momento da nossa morte? Esta foi sempre a quest\u00e3o fulcral do suic\u00eddio e, por arrasto, da eutan\u00e1sia. A tese de que h\u00e1 um direito a dispor da pr\u00f3pria vida parte de um pressuposto errado, a saber, o de que o indiv\u00edduo possui uma vida, quando na realidade esta n\u00e3o \u00e9 um bem, adquirido ou concedido ao indiv\u00edduo, antes uma condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e fundamental para a identidade da pessoa humana. Tinha raz\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino ao afirmar que a vida n\u00e3o \u00e9 um valor, antes o pressuposto, a plataforma necess\u00e1ria e suficiente para a exist\u00eancia de valores. Por isso a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa, no seu Artigo 24, n.\u00ba 2, afirma, lapidarmente, que a vida humana \u00e9 inviol\u00e1vel. Por isso o C\u00f3digo Penal inclui articulado que comina pesadas penas de pris\u00e3o para o m\u00e9dico que mate algu\u00e9m a seu pedido (eutan\u00e1sia) ou preste ajuda a quem se queira suicidar, fornecendo-lhe meios de realizar o seu intento.<br \/>\nSe o argumento dos defensores da eutan\u00e1sia, o da autonomia individual, fosse v\u00e1lido, ter\u00edamos de legalizar toda e qualquer decis\u00e3o de p\u00f4r termo \u00e0 vida, mesmo a de adolescentes perturbados ou de anci\u00e3os desiludidos. Seria imoral tentar salvar pessoas que tentam o suic\u00eddio, como acontece diariamente nos nossos servi\u00e7os de urg\u00eancia; teria de ser anulada a campanha em curso, no \u00e2mbito da Direc\u00e7\u00e3o Geral de Sa\u00fade, sob a designa\u00e7\u00e3o de Plano Nacional de Preven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio. Mais ainda: se se tratasse de um direito das pessoas, haveria n\u00e3o apenas a obriga\u00e7\u00e3o de garantir o respectivo acesso como tamb\u00e9m o de difundir, junto da popula\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia desse direito, certamente ignorado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o; ou seja o Estado teria o dever de promover o respectivo conhecimento, com o consequente incremento das mortes por eutan\u00e1sia.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 um direito \u00e0 morte a pedido. H\u00e1, sim, um direito a viver, da melhor forma poss\u00edvel, a vida que nos foi oferecida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Espa\u00e7o em parceria com a ADAV Aveiro \u2013 Associa\u00e7\u00e3o de Defesa e Apoio da Vida. Uma vez por m\u00eas, personalidades convidadas pela ADAV exp\u00f5em as suas raz\u00f5es contra a eutan\u00e1sia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprendemos na escola que o ser humano tem natureza racional, isto \u00e9, que disp\u00f5e de raz\u00e3o e que esta gere a sua vida, escolhendo valores, cultivando virtudes, ponderando op\u00e7\u00f5es, ditando procedimentos e optando por interven\u00e7\u00f5es. 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