{"id":26908,"date":"2016-07-29T08:40:44","date_gmt":"2016-07-29T08:40:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26908"},"modified":"2016-07-29T08:40:44","modified_gmt":"2016-07-29T08:40:44","slug":"estara-o-mundo-com-amnesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/estara-o-mundo-com-amnesia\/","title":{"rendered":"Estar\u00e1 o mundo com amn\u00e9sia?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_25043\" aria-describedby=\"caption-attachment-25043\" style=\"width: 180px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\" rel=\"attachment wp-att-25043\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25043\" src=\"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg\" alt=\"LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA Presidente da Comiss\u00e3o Diocesana de Cultura\" width=\"180\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira.jpg 400w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Luis-Pereira-245x300.jpg 245w\" sizes=\"auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-25043\" class=\"wp-caption-text\">LU\u00cdS PEREIRA DA SILVA<br \/>Professor. Presidente da dire\u00e7\u00e3o da ADAV-Aveiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>O nosso tempo tem andado muito esquecido. Esquece-se com facilidade! Anula a mem\u00f3ria de si e a mem\u00f3ria que o possa incomodar. E isso significa faltar \u00e0 verdade. Que o diga a ideia grega sobre o que \u00e9 a verdade.<br \/>\nPara os gregos, \u00abverdade\u00bb dizia-se com palavras como \u00abous\u00eda\u00bb (\u00aba verdade do ser\u00bb), \u00aborthotes\u00bb (\u00abretid\u00e3o, coer\u00eancia\u00bb), mas tamb\u00e9m \u00abal\u00eatheia\u00bb. Vale a pena determo-nos nesta \u00faltima palavra, que nos servir\u00e1 de guia para esta reflex\u00e3o.<br \/>\n\u00abAl\u00eatheia\u00bb \u2013 \u00abverdade\u00bb &#8211; compunha-se de \u00abl\u00eatheia\u00bb precedido de um prefixo de nega\u00e7\u00e3o, \u00aba\u00bb. Ora, \u00abl\u00eatheia\u00bb tem origem em \u00abl\u00eathos\u00bb que quer dizer \u00abesquecimento\u00bb, \u00aboculta\u00e7\u00e3o\u00bb. Ser verdadeiro era, a esta luz, \u00abn\u00e3o se esquecer\u00bb, \u00abn\u00e3o ocultar\u00bb, poder\u00edamos dizer \u00abrevelar\u00bb. \u00c9 curioso, ali\u00e1s, que um dos rios que os gregos diziam existir no Hades (Inferno), segundo a cosmologia hel\u00e9nica, tivesse o nome de \u00abLetes\u00bb. Diziam os gregos que os mortos que bebessem das suas \u00e1guas esqueciam toda a sua vida passada, pois o Hades era o lugar do esquecimento\u2026 O que fazia do Inferno, numa interpreta\u00e7\u00e3o ampla, o lugar da mentira, da anula\u00e7\u00e3o, da perda da identidade. Hoje, alguns te\u00f3logos recuperam algo desta abordagem, ao falar do Inferno como uma possibilidade real de total anula\u00e7\u00e3o da identidade e da pessoa.<br \/>\nServem estas reflex\u00f5es de prisma de an\u00e1lise da sociedade em que nos movemos. Sociedade em que a verdade parece distante das decis\u00f5es e das a\u00e7\u00f5es de quem nela se situa. Desde os Panama Papers aos sucessivos esquecimentos de quem fez falir banco ap\u00f3s banco, passando pelo doping no desporto at\u00e9 \u00e0 mentira na presta\u00e7\u00e3o de provas em exames de acesso \u00e0 universidade, ou, ainda, \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o de dados sobre as emiss\u00f5es de gases poluentes pelos ve\u00edculos autom\u00f3veis, a falta de verdade parece grassar como uma amn\u00e9sia coletiva.<br \/>\nO rio Letes parece ter desaguado bem perto de n\u00f3s e os vivos decidiram brindar com as suas fascinantes \u00e1guas.<br \/>\nE repare-se como pensar a verdade como o \u00abn\u00e3o esquecimento\u00bb ajuda a compreender de um outro modo a import\u00e2ncia de n\u00e3o esconder as nossas origens ou a nossa mem\u00f3ria. Recuperar a mem\u00f3ria \u00e9 um outro modo de respeitar a verdade, caracter\u00edstica que este tempo, designado por Lipovetsky como hipermoderno, parece querer arredar e afastar com efic\u00e1cia. Vivemos num tempo sem mem\u00f3ria. Nem mem\u00f3ria de passado, nem mem\u00f3ria de futuro. Uma alimenta-se, ali\u00e1s, da outra. N\u00e3o h\u00e1 sentido do amanh\u00e3 se n\u00e3o se sabe de onde se prov\u00e9m e que identidade se possui.<br \/>\nDiscutir o problema da verdade pode, ainda, encontrar na cultura cl\u00e1ssica, uma outra genu\u00edna dualidade que \u00e9 aqui muito oportuna. A dualidade referida por Parm\u00e9nides, um fil\u00f3sofo do s\u00e9culo V a.C., para quem havia que distinguir entre o ser, do \u00e2mbito da verdade, e o parecer, do \u00e2mbito da ilus\u00e3o e do n\u00e3o-ser. N\u00e3o deixa, \u00e0 luz desta s\u00edntese muito sum\u00e1ria, de ser relevante verificar como vivemos num tempo que se satisfaz com a ilus\u00e3o, estando, permanentemente, na fronteira do n\u00e3o-ser, da mentira. Vivemos, muitas vezes, \u00e0 medida que, a conta-gotas, nos fazem sair as not\u00edcias sobre novos \u00abesquecimentos\u00bb, a sensa\u00e7\u00e3o de estar num lugar de espelhos em que n\u00e3o sabemos o que \u00e9 verdade e o que \u00e9 ilus\u00e3o.<br \/>\nContudo, mesmo que nos queiram fazer crer que o \u00abcrime compensa\u00bb, as li\u00e7\u00f5es recentes da hist\u00f3ria mostram-nos que at\u00e9 essa convic\u00e7\u00e3o \u00e9 ilus\u00e3o. A verdade pode demorar a emergir, mas \u00e9 bom lembrar que a efic\u00e1cia da \u00e1gua do Letes \u00e9 ef\u00e9mera e tempor\u00e1ria, porque v\u00e3. Na verdade, o Hades j\u00e1 foi vencido e Aquele que tem a chave dessa vit\u00f3ria chama-se \u00abVerdade\u00bb.<br \/>\nMesmo numa comezinha leitura de curta dist\u00e2ncia, \u00e9 f\u00e1cil verificar que o fim dos que cederam \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o de beber das \u00e1guas do rio do Hades n\u00e3o foi honroso nem de saud\u00e1vel mem\u00f3ria. Convir\u00e1, talvez, esquec\u00ea-lo\u2026 ou ser\u00e1 melhor lembr\u00e1-lo para sempre?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nosso tempo tem andado muito esquecido. Esquece-se com facilidade! Anula a mem\u00f3ria de si e a mem\u00f3ria que o possa incomodar. E isso significa faltar \u00e0 verdade. Que o diga a ideia grega sobre o que \u00e9 a verdade. Para os gregos, \u00abverdade\u00bb dizia-se com palavras como \u00abous\u00eda\u00bb (\u00aba verdade do ser\u00bb), \u00aborthotes\u00bb (\u00abretid\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-26908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26908"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26908\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26909,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26908\/revisions\/26909"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}