{"id":26949,"date":"2016-09-08T14:25:17","date_gmt":"2016-09-08T14:25:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.portal.ecclesia.pt\/cv\/?p=26949"},"modified":"2016-09-08T14:25:17","modified_gmt":"2016-09-08T14:25:17","slug":"chupeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/chupeta\/","title":{"rendered":"Chupeta"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uns 17 anos, como os gatos s\u00e3o os meus animais preferidos, desejei ter um especial, que ficasse de tal modo preso a mim que chegasse a ser como que a minha sombra. Que gostasse de carinho e de colo. Que fosse lindo e meigo, divertido e amigo incondicional. Cada gato, como cada c\u00e3o ou qualquer animal, tem um modo de ser muito peculiar, de tal modo que se pode dizer que, no comportamento b\u00e1sico, n\u00e3o h\u00e1 dois gatos iguais. Um dia, ao vir das aulas de Educa\u00e7\u00e3o Moral que eu lecionava, numa manh\u00e3 chuvosa, vejo um pequeno ser, todo molhado. Cabia na palma de minha m\u00e3o. Siam\u00eas de ra\u00e7a. Lutava pela sobreviv\u00eancia, pois parecia decidido a arranjar dono ou a morrer na estrada. Parei o carro e ele veio gritando na minha dire\u00e7\u00e3o. Outra pessoa se encantou com o gato cheio de vida, mas t\u00e3o pouco vistoso, por ser pequenino e estar sujo e cheio de fome.<br \/>\nAcabei por ficar com ele. Mais pulgas que pelo\u2026 Bem recebido pela gata que eu j\u00e1 tinha, faltava ver a rea\u00e7\u00e3o de uma enorme e linda pastora alem\u00e3 que infelizmente j\u00e1 morreu h\u00e1 quatro anos. Depois de dois banhos e comidinha, o gatinho passou a noite sozinho num quarto. No dia seguinte, deram-se as apresenta\u00e7\u00f5es. A pastora apaixonou-se pelo pequenino a adotou-o de imediato, levando-o na sua boca para o seu cantinho. O gato praticamente podia dormir dentro da boca dela, tal o tamanho de um e de outro. E durante semanas a fio, l\u00e1 v\u00edamos a Asa, a nossa cadelinha, com a cabe\u00e7a do gato na boca, abanando-o e brincando com ele, enquanto ele agarrava as suas patinhas ao focinho da cadela, para melhor se segurar. Um dia algu\u00e9m n\u00e3o acostumado com esta festa chamou-me, aflito, pois a \u201ccadela vai comer o gato\u201d. Foi em aten\u00e7\u00e3o a isso que o gatinho ficou a chamar-se Chupeta\u2026 o que n\u00e3o deixava de ser meio caricato, pois por vezes eu abria a janela para o chamar e as pessoas que passavam ouviam o padre a gritar \u201cChupeta, Chupeta\u201d. Imagino os coment\u00e1rios graciosos.<br \/>\nE foi passando o tempo. Durante dezasseis anos, esse bichinho lindo correspondeu \u00e0 letra aos meus sonhos. Meigo, carinhoso, agarrado a mim, nunca me arranhou ou incomodou, alegre. Eu era a luz dos seus olhos. E, j\u00e1 velhinho, h\u00e1 dias, n\u00e3o quis morrer sem me dizer um adeus sentido com um miar que jamais esquecerei. Praticamente morreu nos meus bra\u00e7os. Ainda d\u00f3i, pois os animais s\u00e3o um dom de Deus. Ensinam-nos que o amor deve ser incondicional, ainda que nos pare\u00e7a que o instinto os leva a aproximarem-se de n\u00f3s pela comida.<br \/>\nChupeta foi a coisa mais linda que recebi nos caminhos da vida. Sei que h\u00e1 a fam\u00edlia, muita gente linda, mas esse gato n\u00e3o era como os outros. Tive o privil\u00e9gio de ser adotado por ele para ser o seu humano. Com ele viveram mais duas gatinhas lindas, mas diferentes dele, ambas tamb\u00e9m j\u00e1 falecidas, pois os anos passam e h\u00e1 um momento em que nos vamos vendo na idade das perdas de tudo o que, no mundo, n\u00f3s amamos.<br \/>\nE isto tudo eu conto, n\u00e3o para partilhar a minha rela\u00e7\u00e3o de amor com um gato, o que para muita gente pode soar a rid\u00edculo, sobretudo para os que n\u00e3o gostam de animais. Queria, sim, apresentar o que considero ut\u00f3pico, mas muito frutuoso, se na Igreja n\u00f3s f\u00f4ssemos pessoas meigas e carinhosas umas para com as outras, atenciosas e incondicionalmente amigas, sobretudo nos conventos, col\u00e9gios e semin\u00e1rios, onde se administra forma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor vezes criamos seres frios, que apresentam o rosto de uma Igreja legalista e severa, que coloca a pessoa humana abaixo de uma norma, que pode ser contornada, e que muitos contornam para satisfazer as amizades, mas s\u00e3o exigentes com os demais, n\u00e3o abrindo m\u00e3o de coisa nenhuma. Tanta gente ferida, na nossa Igreja, pelo mal atendimento nos cart\u00f3rios e na vida. Tamb\u00e9m me arrependo de alguns casos em que fui culpado e n\u00e3o consegui reparar com um pedido de perd\u00e3o. Tantas religiosas cujos valores s\u00e3o menosprezados em nome de uma obedi\u00eancia, muitas vezes imposta pelo orgulho e prepot\u00eancia de quem manda, tantos jovens exclu\u00eddos da caminhada sacerdotal, s\u00f3 porque pensam diferente, nesta terr\u00edvel e terrorista cataloga\u00e7\u00e3o entre conservadores e progressistas, quando h\u00e1 lugar para todos, na complementaridade. Tanta falta de compreens\u00e3o nos poucos confession\u00e1rios que funcionam, em que a pessoa penitente \u00e9 julgada e n\u00e3o acolhida com miseric\u00f3rdia, como tanto fala disso o Papa Francisco, que passa a vida a pregar no deserto.<br \/>\nPara mim, que n\u00e3o me considero modelo de coisa nenhuma, pois \u201cs\u00f3 sei que nada sei\u201d, cada convento, cada semin\u00e1rio, cada col\u00e9gio, cada lar de velhinhos, deveria ter c\u00e3es e gatos, confiados ao cuidado de um grupo de seminaristas, ou novi\u00e7as, ou idosos, ou alunos\u2026 Se o c\u00e3o nos ensina a fidelidade da amizade incondicional, morrendo connosco se for preciso, o gato, para al\u00e9m da beleza delicada que inspira os desfiles das top models do mundo inteiro, \u00e9 um ser que nos ajuda a entender o nosso amor pelos outros, respeitando espa\u00e7os e ideias diferentes. O gato \u00e9 quem controla a rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o seu chamado dono. Ele \u00e9 quem diz o que quer e nos exige uma total obedi\u00eancia ao seu calend\u00e1rio biol\u00f3gico: comer, lavar-se, dormir, brincar, necessidades\u2026 E dormir muito, as 16 horas a que, no m\u00ednimo, tem direito. N\u00e3o serve para mais nada sen\u00e3o para educar a atitude do homem diante da exig\u00eancia do outro e encher as nossas casas de encanto e alegria.<br \/>\nAlgu\u00e9m disse que \u00e9 a \u00fanica possibilidade de termos a exuber\u00e2ncia de um tigre em casa. Conheci freiras que envenenavam gatos, ou os atiravam dos andares altos dos conventos para morrerem na queda. Conheci conventos que exclu\u00edram religiosas daquela prov\u00edncia por elas terem um jardim ou uma horta, o que levava \u00e0 mofa das irm\u00e3s ditas intelectuais, mas que se concorressem com a pol\u00edcia feminina da Gestapo iriam ganhar, sem d\u00favida.<br \/>\nO que j\u00e1 vi faria perder a f\u00e9 nos consagrados, nos leigos, em n\u00f3s padres, o que acontece com muita gente maltratada pelos mesmos em hospitais, col\u00e9gios\u2026 fazendo com que, como uma vez ouvi um amigo meu dizer, quando se encontra um consagrado bondoso, at\u00e9 parece que s\u00e3o santos. Nem por isso deixo de os amar e ajudar, claro, mas o mal vem da forma\u00e7\u00e3o, da aus\u00eancia de uma educa\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e do desconhecimento dos temperamentos, que deveriam ser estudados a fundo, de muitas coisas complexas da educa\u00e7\u00e3o e da falta de algo que ocupe, n\u00e3o s\u00f3 como hobbie, mas como algo produtivo, como jardins, horta, animais dom\u00e9sticos, e a escola gratuita e permanente, na forma\u00e7\u00e3o da personalidade, que \u00e9 cuidar de um gato e de um cachorro. Tantos por a\u00ed abandonados nas ruas e canis, ansiosos por mostrarem o amor que t\u00eam e o quanto nos podem educar e ajudar no respeito pela diferen\u00e7a e liberdade do outro. Fica o convite, apesar de o considerar ut\u00f3pico.<\/p>\n<p><strong>Vitor Espadilha<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uns 17 anos, como os gatos s\u00e3o os meus animais preferidos, desejei ter um especial, que ficasse de tal modo preso a mim que chegasse a ser como que a minha sombra. Que gostasse de carinho e de colo. Que fosse lindo e meigo, divertido e amigo incondicional. 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