{"id":2697,"date":"2010-10-13T10:46:00","date_gmt":"2010-10-13T10:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2697"},"modified":"2010-10-13T10:46:00","modified_gmt":"2010-10-13T10:46:00","slug":"expulsao-dos-jesuitas-de-timor-em-1910","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/expulsao-dos-jesuitas-de-timor-em-1910\/","title":{"rendered":"Expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas de Timor em 1910"},"content":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria <!--more--> D. Carlos Ximenes Belo<\/p>\n<p>Administrador Apost\u00f3lico Em\u00e9rito de Dili <\/p>\n<p>e Pr\u00e9mio Nobel da Paz 1996<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, no dia 5 de Outubro de 1910, e a ades\u00e3o da Prov\u00edncia de Timor ao novo regime, o capit\u00e3o Jos\u00e9 Carrezeda de Sousa Caldas Viana e Andrade fez publicar, no dia 25 de Novembro, o decreto da expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas e das canossianas. Assim dizia o superior da Miss\u00e3o, padre Jos\u00e9 Neves: \u201cH\u00e1 quatro dias apareceu publicado o decreto sobre a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas, religiosos e religiosas\u201d.<\/p>\n<p> O Secret\u00e1rio do Governo telegrafou para Lisboa pedindo instru\u00e7\u00f5es sobre a sa\u00edda e as passagens. Foram expulsos os padres Manuel Ferreira Fernandes e Jos\u00e9 Marques Atalaia e dois irm\u00e3os leigos, o Ir. Ant\u00f3nio do Amaral e o Ir. Ant\u00f3nio Claudino. O padre Sebasti\u00e3o tinha ido a Macau no dia 24 de Outubro para tratar da sa\u00fade. A ordem da expuls\u00e3o de Soibada, onde estavam desde 1899, foi-lhes comunicada por um sargento, que era comandante no posto de Laclubar. <\/p>\n<p>Com dor e tristeza, os jesu\u00edtas tiveram de abandonar a florescente miss\u00e3o por eles iniciada em finais do s\u00e9culo XIX. No dia partida, 9 de Dezembro de 1910, os jesu\u00edtas tinham no col\u00e9gio 76 alunos internos, que ficaram abandonados a si pr\u00f3prios. Antes de sa\u00edrem definitivamente Timor, enquanto aguardavam o dia do embarque, os jesu\u00edtas hospedaram-se na Miss\u00e3o central de Lahane. <\/p>\n<p>Qual seria o destino dos jesu\u00edtas? Diz-nos o cronista: \u201cSobre o destino a dar-lhes fez o governador com os membros do conselho, sendo, como era de esperar, encontrados os pareceres. Uns opinaram que se metessem no primeiro vapor, e se lhes abonasse a passagem s\u00f3 at\u00e9 Atapupo, na costa holandesa de Timor. Outros, em maior n\u00famero, entenderam que era desairoso a Portugal n\u00e3o pagar viagem aos padres sequer at\u00e9 \u00e0 miss\u00e3o portuguesa de Singapura. Esta opini\u00e3o prevaleceu\u201d. No dia 23 de Dezembro, o padre Jos\u00e9 Neves, Superior e Vig\u00e1rio-Geral das Miss\u00f5es do Viacariato do Norte, com sede em Lahane escrevia ao Bispo de Macau: \u201cEnvio n\u2019esta data um telegrama a V. Ex.cia, participando a sahida dos P.es S.J. e anunciando a sahida das Madres para Hong-Kong a pr\u00f3xima mala directa que se espera em 1 ou 7 de Fevereiro\u201d. Portanto, os quatro jesu\u00edtas sa\u00edram de D\u00edli com destino a Singapura no barco holand\u00eas no dia 23 de Dezembro de 1910. A 12 de Janeiro de 1911, chegaram a Singapura, onde foram acolhidos pelos padres Jo\u00e3o Gon\u00e7alves e Sebasti\u00e3o Apar\u00edcio da Silva, idos de Macau. No dia 13 do mesmo m\u00eas, os jesu\u00edtas embarcaram no vapor a mala holandesa com destino a Allepey, aonde chegaram no dia 21. Sobre a viagem dos jesu\u00edtas, o padre Jos\u00e9 Neves, na sua carta ao Bispo de Macau, informava que o Governo pagara as passagens aos P.es Ferreira e Atalaia em 1.\u00aa classe at\u00e9 Singapura. Aos irm\u00e3os deram dinheiro para a 2.\u00aa. Mas depois acrescentava: \u201cParece que ir\u00e3o todos quatro em 2.\u00aa classe\u201d.<\/p>\n<p>Com a sa\u00edda dos padres, ficaram em poder do Estado os edif\u00edcios, a saber: a igreja, a resid\u00eancia dos padres e o col\u00e9gio masculino e o col\u00e9gio feminino, contrariando o pensamento do padre Jos\u00e9 Neves que havia informado a secretaria do Governo que \u201ctudo o l\u00e1 h\u00e1 pertence \u00e0s miss\u00f5es, n\u00e3o podendo ser confiscado como propriedade dos jesu\u00edtas\u201d.<\/p>\n<p>Ajustes nas miss\u00f5es<\/p>\n<p>Para n\u00e3o deixar ao abandono a Miss\u00e3o central da Soibada e os col\u00e9gios, o Padre Jos\u00e9 Neves escreveu ao Senhor Bispo, D. Jo\u00e3o Paulino de Azevedo e Castro, sugerindo a conveni\u00eancia de reunir as duas Miss\u00f5es de Lahane e de Soibada. O mesmo padre Neves recomendou ao padre Manuel Ferreira que, antes de sair, entregasse o cuidado da miss\u00e3o ao encarregado da Miss\u00e3o de Barique, o P.e Jo\u00e3o Lopes. Com a presen\u00e7a do Padre Lopes, pensava-se que, pelos menos, as actividades pastorais e educativas, na Miss\u00e3o central e nas esta\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias, n\u00e3o ficariam interrompidas. Mas a realidade foi bem diferente. Anos mais tarde, relatava o padre Jo\u00e3o Lopes sobre os primeiros dias em que passou na Miss\u00e3o de Soibada: \u201cLogo em seguida \u00e0 minha vinda para aqui, principiavam os arrolamentos judiciais dos bens da miss\u00e3o, que come\u00e7aram a ser considerados perten\u00e7a do Estado, nada tendo valido a reclama\u00e7\u00e3o enviada ao Governo, alegando que de forma alguma os religiosos podiam ser considerados propriet\u00e1rios dos bens, que s\u00f3 em nome de Sua Ex.cia Ver.ma, o Bispo da diocese, administrava\u201d.<\/p>\n<p>Tendo os jesu\u00edtas sa\u00eddo de Timor, os funcion\u00e1rios do Estado foram ao Col\u00e9gio masculino e retiraram as mob\u00edlias e materiais de constru\u00e7\u00e3o ali existentes, deixando aos padres seculares a casa para nela habitarem e dar aulas aos alunos.<\/p>\n<p>O comandante militar tomou posse do col\u00e9gio das Madres. Sobre o abandono a que foi devotado este edif\u00edcio escrevia o padre Jo\u00e3o Lopes: \u201cPara ali esteve, durante anos consecutivos, servindo de valhacouto a vagabundos e abrigo de animais em dias e noites de chuva. Causava pena e fazia d\u00f3, era mesmo a vergonha o estado em que estava, quando em 1910 o mesmo comandante arranjou autoriza\u00e7\u00e3o para lhe vibrar o golpe de miseric\u00f3rdia, mandando-a demolir para n\u00e3o sei bem que fins\u2026\u201d E continua o padre Jo\u00e3o Lopes: \u201cA substituir todos estes obreiros fic\u00e1mos apenas dois mission\u00e1rios \u2013 um com a superintend\u00eancia da miss\u00e3o e outro encarregado dos alunos na qualidade de professor e prefeito. A agravar esta despropor\u00e7\u00e3o de meios, temos a contar a impress\u00e3o moral \u2013 o medo e desconfian\u00e7a, que no \u00e2nimo dos ind\u00edgenas lan\u00e7aram a sa\u00edda dos religiosos e esbulhamento dos bens que a miss\u00e3o possu\u00eda\u201d.<\/p>\n<p>Em Outubro de 1911, visitava Timor o padre Jos\u00e9 da Costa Nunes, enviado pelo Bispo D. Jo\u00e3o Paulino de Azevedo e Castro. No seu relat\u00f3rio de 23 de Outubro de 1911, escrevia: \u201cS\u00f3 quem conhece bem Soibada pode avaliar suficientemente a falta de enorme que as Madres Canossianas ali fazem. Tanto o Collegio de alunos, onde ainda est\u00e3o interno 28, como a egreja \u2013 que por sinal amea\u00e7a ru\u00edna \u2013 e o novo e magn\u00edfico edif\u00edcio, j\u00e1 quase conclu\u00eddo, destinado \u00e0s religiosas, foram arrolados pelo governo e j\u00e1 entraram na posse do Estado, visto serem considerados como propriedade dos jesu\u00edtas, e neste caso n\u00e3o se admitir reclama\u00e7\u00e3o, nos termos do art.\u00ba 4.\u00ba do Decreto de 31 de Dezembro de 1910\u201d.<\/p>\n<p>A primeira consequ\u00eancia da sa\u00edda dos padres e irm\u00e3os jesu\u00edtas reflectiu-se na diminui\u00e7\u00e3o do pessoal mission\u00e1rio na Miss\u00e3o Central do Sul ou Contra-Costa, obrigando a um novo reajustamento do \u201cxadrez mission\u00e1rio\u201d. As actividades escolares, que iam de vento em popa, ficaram estagnadas. A falta dos jesu\u00edtas em Soibada causou mal-estar em todos. O padre Jo\u00e3o Lopes exprime-se assim: \u201c(\u2026) [Foi] quando a miss\u00e3o iniciava um per\u00edodo de grande actividade e come\u00e7ava a expandir e intensificar mais e mais a sua ac\u00e7\u00e3o t\u00e3o prometedora de abundantes fructos, que se viu abruptamente privada de t\u00e3o prestimosos obreiros. Foi uma grande perda para a civiliza\u00e7\u00e3o portuguesa e educa\u00e7\u00e3o religiosa a sa\u00edda dos religiosos desta miss\u00e3o. Com a sa\u00edda dos padres jesu\u00edtas e das religiosas canossianas, dispersaram os alunos dos dois col\u00e9gios e come\u00e7ou para esta miss\u00e3o um per\u00edodo de contradi\u00e7\u00f5es e dificuldade\u201d. O preju\u00edzo maior foi o que aconteceu no Col\u00e9gio da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, onde estavam as religiosas canossianas. No ano da expuls\u00e3o, estavam internadas no Col\u00e9gio 62 raparigas. As alunas que tinham fam\u00edlias tiveram de regressar \u00e0s suas casas. E as que n\u00e3o tinham, \u201cforam pela miss\u00e3o distribu\u00eddas pelas fam\u00edlias mais morigeradas de Soibada, ficando o seu sustento e vestu\u00e1rio a cargo da miss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Balan\u00e7o<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dos jesu\u00edtas na Miss\u00e3o de Soibada n\u00e3o foi longa: apenas dez anos. Mas o apostolado a\u00ed desenvolvido criou ra\u00edzes profundas na vida das popula\u00e7\u00f5es de Soibada, Barique, Lacluta e Viqueque. Pela ac\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas, os timorenses tiveram acesso ao conhecimento religioso, cultural e social. Os mission\u00e1rios eram estimados pelo povo em geral e, em especial, pelos alunos do Col\u00e9gio Nun\u2019\u00c1lvares. Com a retirada dos padres, criou-se um v\u00e1cuo no Vicariato Sul. Os sacerdotes seculares que j\u00e1 eram poucos tiveram de se reorganizar, deixando alguns centros mission\u00e1rios para atender a Miss\u00e3o de Soibada e a Escola e o Internato. Os jesu\u00edtas regressaram a Timor em 1958, quarenta e oito anos depois da expuls\u00e3o. Se hoje n\u00e3o est\u00e3o na Miss\u00e3o de Soibada, a sua ac\u00e7\u00e3o faz-se sentir em Dili, com o trabalho desenvolvido no Semin\u00e1rio, no Col\u00e9gio de S\u00e3o Jos\u00e9 e na casa de retiros em Dare e na capelania dos hospitais e das pris\u00f5es.<\/p>\n<p>A expuls\u00e3o dos padres e irm\u00e3os jesu\u00edtas e das irm\u00e3s canossianas em 1910, criou descontentamento na sociedade timorense, especialmente nos c\u00edrculos dos r\u00e9gulos ind\u00edgenas, e contribuiu para que alguns deles se revoltassem contra os portugueses. A c\u00e9lebre revolta de Manufahi de 1911 foi uma das consequ\u00eancias da mudan\u00e7a do regime mon\u00e1rquico para o regime republicano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2697","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2697"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2697\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}