{"id":2706,"date":"2010-10-20T09:30:00","date_gmt":"2010-10-20T09:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=2706"},"modified":"2010-10-20T09:30:00","modified_gmt":"2010-10-20T09:30:00","slug":"angola-tem-uma-divida-de-gratidao-para-com-os-missionarios-portugueses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/angola-tem-uma-divida-de-gratidao-para-com-os-missionarios-portugueses\/","title":{"rendered":"Angola tem uma d\u00edvida de gratid\u00e3o para com os mission\u00e1rios portugueses"},"content":{"rendered":"<p>P.e Pel\u00e1gio Faz Tom\u00e1s, 44 anos, ordenado h\u00e1 10, depois de algum tempo na carreira militar em Angola, \u00e9 p\u00e1roco de Vale Maior e Ribeira de Fr\u00e1guas, no arciprestado de Albergaria-a-Velha. \u00c9 tamb\u00e9m assistente do Secretariado Diocesano da Anima\u00e7\u00e3o Mission\u00e1ria. Nessa qualidade foi entrevistado pelo Correio do Vouga, quando se aproxima do Dia Mundial das Miss\u00f5es (24 de Outubro). Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.<\/p>\n<p>CORREIO DO VOUGA &#8211; O P.e Pel\u00e1gio veio de um pa\u00eds, Angola, que tradicionalmente era terra de miss\u00e3o, para Portugal, que era terra de mission\u00e1rios. Hoje, esses pap\u00e9is est\u00e3o algo invertidos. Sente-se mission\u00e1rio em Portugal?<\/p>\n<p>P.E PEL\u00c1GIO FAZ TOM\u00c1S \u2013 Antes de mais, sinto-me bem. Houve no in\u00edcio um processo de adapta\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o realidades muito diferentes na cultura, nos costumes, nas metodologias de trabalho, na organiza\u00e7\u00e3o administrativa das par\u00f3quias. Isto cria uma grande diferen\u00e7a nas formas de trabalhar. Se n\u00e3o se tiver um certo equil\u00edbrio, surgem tens\u00f5es constantes com a comunidade ao executar um programa ou levar para a frente um projecto pastoral.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00edpico dos mission\u00e1rios adaptarem-se \u00e0 realidade que encontram?<\/p>\n<p>Julgo que sim. Temos de estar preparados para tudo. Mas h\u00e1 pessoas que t\u00eam mais facilidade para a incultura\u00e7\u00e3o e outras que est\u00e3o mais fechadas. Pessoas mais abertas para acolher e outras que n\u00e3o aceitam t\u00e3o bem a presen\u00e7a de um mission\u00e1rio. <\/p>\n<p>Est\u00e1 a falar o seu caso? Sente-se mais acolhido por uns e menos por outros?<\/p>\n<p>N\u00e3o. Isto \u00e9 geral. Todos os que estamos c\u00e1 em Portugal temos conversado sobre isso nas nossas reuni\u00f5es. A \u00faltima foi no passado 5 de Outubro, no Porto. No geral sentimos isso, mas n\u00f3s tamb\u00e9m temos de fazer um esfor\u00e7o para entrarmos na din\u00e2mica e nos m\u00e9todos pr\u00f3prios de c\u00e1.<\/p>\n<p>Quantos s\u00e3o ao padres angolanos a trabalhar nas dioceses portuguesas?<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o do Porto, estivemos oito. Mas somos mais. H\u00e1 dois na diocese do Porto, dois na nossa diocese, eu e o P.e Tiago Kassoma, no arciprestado de Anadia. Viseu creio que \u00e9 a diocese que tem mais, uns seis. Coimbra tamb\u00e9m tem, tal como Set\u00fabal e Lisboa.<\/p>\n<p>Disse que h\u00e1 pessoas fechadas aos mission\u00e1rios angolanos. Pergunto-lhe de outro modo: alguma vez ouviu em rela\u00e7\u00e3o a si ou ao seu trabalho algum coment\u00e1rio racista?<\/p>\n<p>[Pausa] Sim. J\u00e1. Ouvimos, eu e os meus colegas, mas temos de ultrapassar essas coisas. Ultrapassar para o bem. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o propriamente culpadas por dizerem isso. Por vezes, h\u00e1 ignor\u00e2ncia quanto \u00e0 presen\u00e7a de um padre africano em Portugal. Parece que n\u00e3o cabe nas estruturas mentais de certas pessoas a presen\u00e7a de um mission\u00e1rio negro. O contr\u00e1rio \u00e9 que era muito mais evidente.<\/p>\n<p>Mas sem d\u00favida que \u00e9 uma riqueza haver sensibilidade de outras igrejas na igreja diocesana&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 um factor de enriquecimento, at\u00e9 porque a Igreja \u00e9 universal. \u00c9 uma das suas caracter\u00edsticas. A troca de experi\u00eancias e culturas diferentes enriquece a todos. No nosso caso, bebemos muito das experi\u00eancias de c\u00e1 e transmitimos a nossa sensibilidade aos que est\u00e3o c\u00e1.<\/p>\n<p>Ainda faz sentido falar em \u201cpa\u00edses de miss\u00e3o\u201d? Ou hoje j\u00e1 todos os pa\u00edses s\u00e3o de miss\u00e3o?<\/p>\n<p>Agora h\u00e1 outros desafios. Mas ainda faz sentido falar em \u201cpa\u00edses de miss\u00e3o\u201d. H\u00e1 localidades que est\u00e3o muito aqu\u00e9m do an\u00fancio do Evangelho, aonde nunca chegou o primeiro an\u00fancio. Por outro lado, temos um grande desafio c\u00e1: muitas pessoas que se afastaram h\u00e1 muito tempo da Igreja e que precisam de ser evangelizadas \u2013 a chamada nova evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda a este prop\u00f3sito, quero acrescentar uma \u00fanica coisa. Depois do tempo todo da missiona\u00e7\u00e3o dos portugueses em Angola, falta mostrar o sentido da gratid\u00e3o. Temos de agradecer a presen\u00e7a dos mission\u00e1rios portugueses em Angola, por vezes em tempos especialmente dif\u00edceis. Lembro-me de uma frase que est\u00e1 escrita na esta\u00e7\u00e3o de metro de S. Sebasti\u00e3o, em Lisboa: \u201cOs olhos da mem\u00f3ria s\u00e3o melhores do que os nossos olhos\u201d. A mem\u00f3ria deve recordar-se dos mission\u00e1rios que l\u00e1 estiveram. Como angolano, sinto essa gratid\u00e3o. Muito fizeram em momentos dif\u00edceis. Guerra civil. Alguns l\u00e1 morreram, dando bom testemunho. Constru\u00edram muito, sobretudo escolas e hospitais. Muitos dirigentes em Angola s\u00e3o fruto das cadeiras dos mission\u00e1rios. <\/p>\n<p>\u00c9 assistente do SDAM (Secretariado Diocesano de Anima\u00e7\u00e3o Mission\u00e1ria), que tem como principal finalidade promover a dimens\u00e3o mission\u00e1ria, despertar consci\u00eancias para a miss\u00e3o. Como v\u00ea o trabalho deste organismo?<\/p>\n<p>Nos diversos sectores que temos, como o voluntariado, a Orbis [ongd que assume diversos projectos do SDAM], a inf\u00e2ncia mission\u00e1ria\u2026 penso que se est\u00e1 a trabalhar bem. No sector do voluntariado, por exemplo, por um lado, h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o para os jovens que pretendem partir para a experi\u00eancia de voluntariado mission\u00e1rio no exterior, por outro lado, h\u00e1 concretiza\u00e7\u00e3o de uma ajuda \u00e0s comunidades que acolhem os jovens, ajuda que tanto \u00e9 humana como material.<\/p>\n<p>Como avalia a miss\u00e3o de alguns meses, pequena, portanto, que os jovens desenvolvem em pa\u00edses como Angola, Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9, Brasil?<\/p>\n<p>\u00c9 um grande desafio. Os jovens, no in\u00edcio, partem com grande curiosidade. No fundo est\u00e1 o desejo de ser mission\u00e1rio, mas h\u00e1 uma certa curiosidade em saber o que est\u00e1 l\u00e1, como v\u00e3o ficar, como v\u00e3o viver. E h\u00e1 tamb\u00e9m, por vezes, um certo receio, como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel viver no local para onde v\u00e3o. Mas quando regressam v\u00eam diferentes, cheios de experi\u00eancias, com o sentimento de terem sido \u00fateis \u00e0quele povo, principalmente na transmiss\u00e3o de conhecimentos. Partilham essas experi\u00eancias e manifestam quase sempre o desejo de voltar. A experi\u00eancia transforma-os.<\/p>\n<p>O que se pode fazer para tornar uma igreja diocesana mais mission\u00e1ria?<\/p>\n<p>Temos agora dois documentos que s\u00e3o muito importantes para avivar a consci\u00eancia mission\u00e1ria. Refiro-me a \u201cPara um rosto mission\u00e1rio da Igreja em Portugal\u201d e a \u201cRepensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal\u201d, ambos de Junho deste ano. S\u00e3o instrumentos muito \u00fateis para assumirmos a miss\u00e3o a n\u00edvel nacional e diocesano. Temos neles o pensar dos bispos portugueses e os desafios que nos colocam. Em Setembro passado, participei nas jornadas mission\u00e1rias, em F\u00e1tima. Apontou-se como prioridade criar em cada diocese um secretariado das miss\u00f5es. N\u00f3s j\u00e1 temos. O desafio concreto, para n\u00f3s, \u00e9 conseguir um representante para as miss\u00f5es em cada arciprestado. Ser\u00e1 um elo de contacto importante. J\u00e1 h\u00e1 nomes indicados para alguns arciprestados.<\/p>\n<p>A mensagem do Papa para o Dia Mundial das Miss\u00f5es intitula-se \u201cA Constru\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o eclesial \u00e9 a chave da miss\u00e3o\u201d. Como comenta?<\/p>\n<p>Ao ler a carta do Santo Padre, sublinho duas coisas. Primeira, a comunh\u00e3o, porque \u00e9 um dos maiores exemplos de que vivemos o que Cristo nos pede. O esfor\u00e7o de viver em comunh\u00e3o, apesar das diferen\u00e7as, \u00e9 um sinal de que o Reino este entre n\u00f3s. Por outro lado, a carta real\u00e7a o valor da Palavra de Deus na resposta de esperan\u00e7a aos desafios culturais. H\u00e1 pessoas que procuram Cristo, por vezes sem terem consci\u00eancia disso. Temos de ser sinais de esperan\u00e7a para essas pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P.e Pel\u00e1gio Faz Tom\u00e1s, 44 anos, ordenado h\u00e1 10, depois de algum tempo na carreira militar em Angola, \u00e9 p\u00e1roco de Vale Maior e Ribeira de Fr\u00e1guas, no arciprestado de Albergaria-a-Velha. \u00c9 tamb\u00e9m assistente do Secretariado Diocesano da Anima\u00e7\u00e3o Mission\u00e1ria. Nessa qualidade foi entrevistado pelo Correio do Vouga, quando se aproxima do Dia Mundial das [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-2706","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2706","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2706"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2706\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}