{"id":27271,"date":"2017-02-02T12:05:36","date_gmt":"2017-02-02T12:05:36","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/?p=27271"},"modified":"2017-02-02T12:05:36","modified_gmt":"2017-02-02T12:05:36","slug":"como-nasceu-o-mundo-em-que-vivemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/como-nasceu-o-mundo-em-que-vivemos\/","title":{"rendered":"Como nasceu o mundo em que vivemos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Livro-hereges.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-27272\" src=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Livro-hereges.jpg\" alt=\"\" width=\"578\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Livro-hereges.jpg 578w, https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Livro-hereges-190x300.jpg 190w\" sizes=\"auto, (max-width: 578px) 100vw, 578px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Hereges e Her\u00f3is<br \/>\n<em>Thomas Cahill<\/em><br \/>\nTemas e Debates \/ C\u00edrculo de Leitores<br \/>\n360 p\u00e1ginas<br \/>\n<strong>24,40 euros<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cHereges e Her\u00f3is\u201d \u00e9 um daqueles livros que pretendem pintar o grande quadro de uma \u00e9poca, um quadro completo, exaustivo, no caso, os s\u00e9culos XV-XVII, quando a Europa deixou a Idade M\u00e9dia e entrou nos tempos modernos. Tempos de profundas mudan\u00e7as no modo como o ser humano se entende e como entende Deus e o universo. Dizemos \u201cpintar\u201d e o livro fala de pintura. Mas nesta grande tela que \u00e9 o livro, al\u00e9m das artes, est\u00e3o a pol\u00edtica, as descobertas mar\u00edtimas (tanto de Colombo, t\u00e3o pouco dos portugueses), os humanistas e os reformadores, as guerras religiosas. O subt\u00edtulo \u00e9 \u201cComo os artistas do Renascimento e os cl\u00e9rigos da Reforma criaram o nosso mundo\u201d. Mas estamos perante um quadro com imensas zonas a branco \u2013 ou a preto. Falta muita literatura, toda a ci\u00eancia experimental e toda a m\u00fasica, imprescind\u00edveis para descrever a \u00e9poca. E parece que tudo se passou entre o norte de It\u00e1lia e o sul de Inglaterra, passando pela Alemanha, Fran\u00e7a e Pa\u00edses Baixos, mas esquecendo os pa\u00edses escandinavos e principalmente a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Como \u00e9 poss\u00edvel ignorar o \u201cS\u00e9culo de Ouro\u201d espanhol?<br \/>\nPor\u00e9m, alguns dos sete cap\u00edtulos deste livro valem por livros independentes. Digamos que o cap\u00edtulo II, \u201cA inven\u00e7\u00e3o da Beleza Humana\u201d, poderia ser lido como uma obra aut\u00f3noma sobre o fim da piedade e artes medievais e as novas correntes art\u00edsticas do Renascimento. Em cerca de 50 p\u00e1ginas, temos um estudo magn\u00edfico sobre a descoberta do corpo pela arte do Renascimento \u2013 e como \u00e9 admir\u00e1vel seguir a evolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das tr\u00eas esculturas de David, uma de Donatello, de 1440, outra de Verrocchio, de 1476 e outra, a mais conhecida, de Miguel \u00c2ngelo, de 1504 \u2013, acompanhamos o g\u00e9nio de Botticelli nas pinturas \u201cPrimavera\u201d (com um vestido onde j\u00e1 contaram flores de mais de 500 esp\u00e9cies diferentes) e \u201cNascimento de V\u00e9nus\u201d (aquela pintura t\u00e3o maravilhosa que nem reparamos que uma mulher n\u00e3o pode ter um pesco\u00e7o assim), entre outras, e n\u00e3o podemos ficar indiferentes ao g\u00e9nio absoluto que foi Miguel \u00c2ngelo, tanto na escultura (David, Piet\u00e1, Mois\u00e9s) como na pintura (Capela Sistina).<br \/>\nOutros dois cap\u00edtulos valeriam outro livro. Os cap\u00edtulos III e IV, tendo como t\u00edtulos, respetivamente, \u201cNovos pensamentos para novos mundos\u201d e \u201cReforma\u201d, podem ser lidos autonomamente. Fala-se da Reforma Protestante. E muito dela se vai falar nos pr\u00f3ximos tempos. 2017 \u00e9 ano centen\u00e1rio das Apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima e da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, mas \u00e9 tamb\u00e9m o ano do quinto centen\u00e1rio da Reforma Protestante (31 de outubro de 1517 \u00e9 o dia da publica\u00e7\u00e3o das 95 teses de Lutero contra as indulg\u00eancias). A este livro hipot\u00e9tico sobre a Reforma poder\u00edamos acrescentar o cap\u00edtulo VI, \u201cCrist\u00e3os contra Crist\u00e3os\u201d, mas estar\u00edamos ent\u00e3o a ler sobre os outros reformadores (calvinistas e anglicanos) e sobre a Contra Reforma Cat\u00f3lica. Por\u00e9m, quando Thomas Cahill dedica apenas cinco p\u00e1ginas \u00e0 Contra Reforma, ficando pelo Conc\u00edlio de Trento (\u201c1545-1563: Os cat\u00f3licos organizam-se\u201d, p\u00e1ginas 292-296), n\u00e3o podemos dizer que aborde o assunto com seriedade. O autor deixa sum\u00e1rios e ideias gerais que precisavam de ser esclarecidas. Um exemplo: depois do Conc\u00edlio de Trento, \u201cbispos e te\u00f3logos que tinham esperan\u00e7as de um compromisso foram marginalizados\u201d (p. 294). Quem? Que compromissos? Marginalizados como? Parece-nos, neste assunto da Contra Reforma como numa s\u00e9rie de outros (quando fala em meia d\u00fazia de linhas sobre os jesu\u00edtas; quando fala de Tom\u00e1s Moro; quando d\u00e1 saltos at\u00e9 ao presente para falar da pedofilia\u2026), que Thomas Cahill sofre de um certo preconceito anticat\u00f3lico. Safa-se, para ele, o Papa Jo\u00e3o XXIII, que merece umas p\u00e1ginas, a par do te\u00f3logo Bonhoeffer (alem\u00e3o, protestante) e da ativista social Muriel Moore (norte-americana, episcopaliana), num \u201cPosl\u00fadio\u201d completamente despropositado. Felizmente s\u00e3o s\u00f3 sete p\u00e1ginas. Os tr\u00eas crist\u00e3os que admira s\u00e3o de facto not\u00e1veis, mas n\u00e3o se compreende a inser\u00e7\u00e3o destas notas biogr\u00e1ficas de pessoas do s\u00e9c. XX num livro sobre os s\u00e9culos XV-XVII, mesmo que se pretenda dar uma nota de ecumenismo (os dois protestantes eram simpatizantes da Igreja Cat\u00f3lica; e o cat\u00f3lico \u2013 o Papa \u2013 chamava \u201cirm\u00e3os\u201d aos protestantes, uma aud\u00e1cia na \u00e9poca).<br \/>\nPor \u00faltimo, a leitura de um livro destes d\u00e1-nos o gosto de acompanhar uma cultura enciclop\u00e9dica. Aprende-se muito. Faz bem \u00e0 cultura geral. Mas \u00e9 preciso ter cuidado porque h\u00e1 erros. Detetamos alguns. O poeta Petrarca (o inventor do soneto) n\u00e3o foi \u201cpadre cat\u00f3lico\u201d (p. 76). Recebeu ordens menores, sim, mas n\u00e3o a ordena\u00e7\u00e3o de padre. A Inquisi\u00e7\u00e3o Espanhola, com certeza tem\u00edvel (mas n\u00e3o menos que muitos outros tribunais da \u00e9poca e muito mais rigorosa nos procedimentos legais, o que representou um avan\u00e7o para a justi\u00e7a, como tem demonstrado a historiografia atual), n\u00e3o perseguiu bruxas (p. 57). Ali\u00e1s, na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, onde a Inquisi\u00e7\u00e3o esteve ao servi\u00e7o do Estado (reis), praticamente n\u00e3o houve persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s bruxas, ao contr\u00e1rio do que aconteceu no centro e norte da Europa, tanto por parte de cat\u00f3licos como de protestantes. E \u00e9 pura e simplesmente errado dizer que o reformador Calvino foi \u201co primeiro passo na longa evolu\u00e7\u00e3o da doutrina democr\u00e1tica da separa\u00e7\u00e3o das Igreja e do Estado\u201d (p. 289). Mesmo que n\u00e3o queiramos remeter tal separa\u00e7\u00e3o Igreja\/Estado aos Evangelhos (\u201cDai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar e a Deus o que \u00e9 de Deus\u201d), temos imensos factos hist\u00f3ricos que s\u00e3o passos para a sua concretiza\u00e7\u00e3o. O mais significativo ser\u00e1, talvez, o facto de o Papa ter ficado em Roma quando a capital do Imp\u00e9rio Romano se transferiu para Constantinopla, no ano 330. A aceita\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica (s\u00e3o mais de 2000 km de Roma a Constantinopla) teve por base, sem d\u00favida, a consci\u00eancia da separa\u00e7\u00e3o concetual (teol\u00f3gica, mesmo) dos poderes temporal e espiritual, apesar de todos os retrocessos que se seguiriam.<br \/>\n<strong>J.P.F.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hereges e Her\u00f3is Thomas Cahill Temas e Debates \/ C\u00edrculo de Leitores 360 p\u00e1ginas 24,40 euros &nbsp; &nbsp; \u201cHereges e Her\u00f3is\u201d \u00e9 um daqueles livros que pretendem pintar o grande quadro de uma \u00e9poca, um quadro completo, exaustivo, no caso, os s\u00e9culos XV-XVII, quando a Europa deixou a Idade M\u00e9dia e entrou nos tempos modernos. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-27271","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27271","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27271"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27271\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27273,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27271\/revisions\/27273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27271"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27271"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27271"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}